Fisicamente debilitante, a enxaqueca distingue-se pela imprevisibilidade e pelo impacto emocional. Em casa ou no trabalho, para além do peso dos sintomas, transporta consigo sentimentos de culpa e alguns medos. Medo de falhar com os filhos ou em datas especiais, medo de não conseguir cumprir prazos ou de quebrar antes de uma reunião importante, muito medo – mesmo quando estes cenários não se concretizam. Cedo, os medos dão lugar à angústia, que rapidamente se transforma em ansiedade. Sem se aperceber, a juntar a um diagnóstico de enxaqueca, surgem os primeiros problemas de Saúde Mental.

Uma crise de enxaqueca é, geralmente, pouco previsível. Ao impacto físico, marcado por dores de cabeça fortes e náuseas, junta-se o embate psicológico: a imprevisibilidade destes episódios acaba por ter um grande impacto emocional que, em situações extremas, pode afetar a Saúde Mental de quem sofre deste problema.

Os sintomas e as reações a uma enxaqueca podem ser distintos. Entre os sintomas mais característicos encontramos dores pulsáteis ou latejantes fortes, que surgem, geralmente num dos lados da cabeça. Fazem-se acompanhar, na maior parte das vezes, de náuseas, vómitos e de pouca tolerância a estímulos como a luz, o ruído ou os odores. Em alguns casos, estes episódios provocam alterações temporárias na visão, formigueiro ou dormência, bem como dificuldade em compreender e articular palavras. Reversível, este quaro pode até três dias.

As mulheres em idade fértil são as mais afetadas. Os estudos revelam que 25% das mulheres vai sofrer de enxaqueca ao longo da vida. Uma percentagem que sobe se houver outros casos na família, nomeadamente as suas mães – calcula-se que 80% das pessoas com enxaqueca tenham familiares próximos na mesma situação.

Ainda no caso das mulheres, com três vezes maior probabilidade de sofrer enxaquecas que os homens, as etapas do ciclo reprodutivo podem ser determinantes na evolução dos episódios. Grande parte das mulheres tem crises perto da menstruação. Já durante a gravidez, podem não ter nenhuma. No pós-parto, voltam as enxaquecas: estima-se que 25% das mulheres terão um episódio nas duas semanas seguintes ao parto, e que até metade terá uma crise durante o primeiro mês. Os sintomas tendem a acalmar com a menopausa.

Controlar a enxaqueca para recuperar a qualidade de vida

A enxaqueca traz limitações que só poderão ser superadas com ajuda. O aconselhamento médico crucial na recuperação do controlo sobre a doença.

Depois de um diagnóstico e de aconselhada a terapêutica necessária, o médico ajudará o paciente a isolar os comportamentos com tendência a despoletar uma crise. Do stress a determinados estímulos sensoriais, passando por desajustes de ritmos na vida, na dieta ou na medicação, todos podem facilitar ter mais crises de enxaqueca. Devem ser evitados, sobretudo nos casos de maior ansiedade, que levam muitas vezes ao desenvolvimento de cenários hipotéticos de perdas de emprego, dificuldade nas relações pessoais e frustração.

Entre as estratégias mais implementadas para evitar a enxaqueca encontramos o controlo do stress e a aposta em noites bem dormidas. É, também, fundamental que se faça uma gestão da medicação e que não se descure da saúde mental – deve-se procurar ajuda, sempre –, realizar uma alimentação adequada, praticar exercício físico regularmente e praticar de técnicas de relaxamento.

As associações e grupos de doentes também podem revelar-se em excelentes pilares no controlo da doença, a par da recolha de informação. Deve procurá-la em portais validados médicos especialistas no tema, como é o caso da Sociedade Portuguesa de Cefaleias.

No portal da Migra ou no site Viver sem Enxaqueca também pode encontrar contactos, testemunhos e informação adicional sobre enxaquecas. Converse, partilhe e informe-se junto de quem percebe – seja porque sofre do mesmo ou porque trabalha, diariamente, para o ajudar.

Raquel Gil-Gouveia, 
Presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias

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