Todos os verões, Portugal arde. Parece um ritual macabro que já aceitámos como inevitável. Todos os anos, repetem-se as imagens de aldeias cercadas pelas chamas, populações a fugir, bombeiros em esforço sobre-humano, o ciclo da tragédia repete-se, como se estivéssemos condenados a aceitar esta fatalidade.
Chega o calor, vêm as chamas, sucedem-se os discursos e os minutos de silêncio. Ano após ano, repetimos o mesmo guião. Mas os incêndios não são só tragédias florestais — são o espelho mais claro de um país que insiste em viver em modo de emergência, sempre a correr atrás do prejuízo.
Os políticos continuam a prometer que "agora é que vai ser diferente". E, no entanto, nada muda. É verdade que já não estamos em 2017. Houve reformas, houve investimento, houve alguma melhoria na coordenação, mas será que houve mesmo algo que se veja?
A verdade dura é que, em 2025, continuamos a reagir tarde demais. Continuamos a discutir comissões de estudo, planos de emergência e relatórios técnicos quando já devíamos estar a implementar soluções estruturais há muito tempo.
Sempre o mesmo padrão: a reação em vez da prevenção.
E há ainda um outro problema: quando o país está em chamas — reais ou figuradas — muitos decisores acreditam que basta legislar mais e encher prateleiras com relatórios bem encadernados. Mas relatórios não apagam fogos. Os burocratas limitam-se a produzir documentos a dizer o óbvio, como se isso fosse suficiente. Os carreiristas, por sua vez, usam os recursos do Estado para alimentar estatuto e redes pessoais, preocupados com a fotografia e com o próximo degrau da carreira, em vez de resolverem problemas concretos. E os poucos que pensam em reformas estruturais são quase sempre colocados de lado.
Não é só a burocracia que falha na antecipação; a falta de planeamento manifesta-se também onde menos se espera.
A presidente da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, disse recentemente: "Nós não precisamos de mais comissões 'que vão estudar o assunto', precisamos de ação." Está certa, mas é uma verdade de La Palisse. Numa situação tão grave que todos os anos assola o interior do país, termos a direção da Iniciativa Liberal a limitar-se a fazer comentários pontuais ao invés de apresentar uma verdadeira proposta para uma reforma profunda que acabe com este flagelo, no fundo são mais afirmações bonitas que caiem no vazio e não resolvem o problema das pessoas. Por isso acrescento: precisamos de ação, sim, mas precisamos também de visão e de coragem para fazer diferente. Porque agir só no imediato é pouco. É como tentar apagar um incêndio com um copo de água: dá a sensação de movimento, mas não resolve o problema.
O interior do país não pode ser tratado como secundário só porque tem menos eleitores. Portugal não se esgota em Lisboa e no Porto. O interior arde, envelhece e desertifica, e ignorá-lo é uma traição à ideia de um país coeso.
A IL não pode cair na tentação de pensar apenas nos grandes centros urbanos, porque isso seria governar para votos e não para pessoas. Quem está na política apenas para votos acaba por ser igual aos partidos do sistema, que vivem do cálculo eleitoral e não da coragem de mudar o rumo do país.
A Iniciativa Liberal nasceu para ser diferente, para colocar o país em primeiro lugar, para resgatar Portugal da estagnação, devolver a liberdade aos cidadãos e trazer prosperidade de norte a sul, do litoral ao interior. É essa visão que temos de recuperar.
Recuperar essa visão significa também praticar aquilo que defendemos: antecipar problemas, olhar para além do imediato e preparar soluções antes da crise. Só assim se distingue quem está na política para transformar o país de quem apenas reage para salvar a face.
E é aqui que se volta ao ponto central: o custo de não planear é sempre mais alto do que agir a tempo.
Os fogos de hoje são o resultado de décadas de falta de ordenamento do território, de desprezo pelo interior, de abandono da floresta e de sucessivos governos que só acordam quando já cheira a cinza.
Precisamos de um Estado que não se limite a apagar fogos — literal e figurativamente. Precisamos de uma estratégia nacional para o território, para a floresta e para a economia rural, que dê vida ao interior e torne Portugal menos vulnerável às chamas.
Porque a verdade é simples: se nada mudar, daqui a um ano estaremos outra vez a escrever este mesmo artigo, com as mesmas imagens de destruição, as mesmas lágrimas, a mesma revolta. Portugal não pode continuar refém desta tragédia anunciada.
Não chega reagir. Chegou o momento de mudar a cultura do improviso pela cultura do planeamento. Um país que se prepara, que prevê, que age antes da crise, é um país mais forte, mais justo e mais confiante no futuro.
Antecipar. Planear. Agir.
Economista e consultor