Assumiu no passado mês de abril a presidência da APAPE. O que o levou a abraçar este desafio?
Participei desde muito cedo na minha formação nas reuniões e atividade científica da APAPE. Posteriormente, tive cargos em várias direções: tesoureiro, vice-presidente da eletrofisiologia, presidente da mesa da Assembleia Geral. Durante estes anos, a eletrofisiologia nacional tem crescido muito – há novos centros, mais médicos a fazer formação específica, um grande aumento no número de procedimentos que se fazem por ano. Mais do que nunca, a APAPE tem obrigação de ter um papel importante na qualidade científica (e clínica) desta nova realidade, agregando os centros, promovendo reuniões e cooperação na investigação. Tenho o privilégio de ter comigo uma Direção, com elementos de centros diferentes e representativa dos vários pontos do país, que acredita nesta função da APAPE. Estes foram os motivos principais que me levaram a aceitar o desafio de me candidatar à presidência da APAPE.

Quais os seus objetivos para este biénio de 2023-2025?
Há um fio condutor na atividade da APAPE desde sempre e que está bem descrita na missão da mesma – a de fomentar o desenvolvimento e a divulgação científica e promover boas práticas médicas em arritmologia. O primeiro objetivo é o de respeitar este sentido prévio e continuar o bom trabalho das direções anteriores. Há alguns pontos específicos que gostaríamos de desenvolver e, neste espírito, de deixar também para as direções seguintes. Queremos aumentar a comunicação com os associados – por esse motivo criámos contas nas redes sociais e teremos uma newsletter com periodicidade trimestral. Vamos manter as três reuniões anuais da APAPE (a reunião maior anual que se designa “Arritmias”, a reunião de pacing e a reunião de eletrofisiologia). Estas reuniões são organizadas em conjunto com o Instituto Português do Ritmo Cardíaco. Pretendemos também estreitar relações com a Academia Cardiovascular (da Sociedade Portuguesa de Cardiologia), através da organização de cursos de formação pós-graduada em temas diversos da Arritmologia e também manter as boas relações e atividades conjuntas com Sociedades estrangeiras, das quais destaco a EHRA e a SOBRAC. A manutenção dos registos de eletrofisiologia e de pacing também faz parte do nosso programa e pretendemos lançar o registo de doenças arritmogénicas primárias (dando continuidade a um plano da Direção anterior).

“Queremos aumentar a comunicação com os associados – por esse motivo criámos contas nas redes sociais e teremos uma newsletter com periodicidade trimestral”

Quais as atividades que estão a desenvolver?
Há projetos que vieram de direções anteriores que queremos implementar – chamo a atenção para um importante protocolo de avaliação de familiares de vítimas de morte súbita cardíaca (em colaboração com o Instituto de Medicina Legal e Sociedade Portuguesa de Cardiologia). Temos também como objetivo principal a formação pós-graduada para cardiologistas e estão em desenvolvimento cursos de formação pós-graduada. A formação de segmentos específicos da população também está nos planos: a este propósito organizámos um curso de Suporte Básico de Vida para funcionários da Feira do Livro de Lisboa, em maio 2023.

Quais são as principais prioridades da APAPE?
Escolhemos como temas principais para esta Direção a morte súbita cardíaca e a fibrilhação auricular.

Qual a prevalência das arritmias em Portugal?
As arritmias são muito prevalentes entre nós. Arritmias são um diagnóstico muito genérico que incluem situações muito benignas (como extrassístoles isoladas pouco frequentes) até à morte súbita. São um motivo frequente de consulta (não só na Cardiologia, mas também na Medicina Geral e Familiar).

Quais as mais comuns?
A arritmia com significado clínico mais comum em Portugal é a fibrilhação auricular. A sua prevalência aumenta com a idade e estima-se que 10% da população acima dos 80 anos tenha fibrilhação auricular (nas suas várias formas de apresentação). A fibrilhação auricular tem consequências potencialmente graves – além dos sintomas de palpitações, cansaço, intolerância a esforços, está associada a descompensação/agravamento de insuficiência cardíaca e é uma das principais causas de acidente vascular cerebral.

“A arritmia com significado clínico mais comum em Portugal é a fibrilhação auricular”

Quais os principais desafios que se colocam aos médicos desta área na abordagem, tratamento e seguimento destes doentes?
Tomando como exemplo a fibrilhação auricular, há vários desafios importantes. Desde logo – nem todos os doentes sentem a fibrilhação auricular. Um diagnóstico precoce é muito importante para se poderem atempadamente estabelecer estratégias de anticoagulação oral (a maioria dos doentes tem indicação) e de tratamento da arritmia, com fármacos, ou mais eficazmente com ablação.

Tem-se verificado muitos avanços em arritmologia, pacing e eletrofisiologia?
É uma área com avanços importantes em várias vertentes, das quais destaco – o tratamento invasivo de arritmias (ablação) que está em constante evolução (novos cateteres, novas formas de energia, arritmias que passam a ser abordáveis por este tratamento), as novas modalidades de pacing (ressincronização e pacing no sistema de condução) e a evolução constante nos desfibrilhadores implantáveis.

Considera que os diagnósticos são feitos atempadamente?
Tomando novamente como exemplo a fibrilhação auricular, é importante um diagnóstico precoce. Medidas tão simples como ensinar a população a avaliar a frequência e ritmo através do pulso radial mostraram ser eficazes para fazer diagnósticos mais precoces. A este propósito existe uma campanha de sensibilização da população da EHRA, na qual a APAPE vai participar. Há uma revolução na capacidade diagnóstica que se adivinha – por um lado com a utilização crescente de apps e smartwatch para registo de arritmias e, por outro, com a utilização de algoritmos de inteligência artificial que vão permitir melhor gerir esta grande quantidade de informação.

Ainda se morre muito de morte súbita?
Não há números exatos, sobretudo para paragens cardíacas extra-hospitalares, mas estima-se que na Europa a incidência se situe entre 36 a 49 casos por 100 mil habitantes por ano (o que significa que em Portugal existem entre 3600 a 4900 casos por ano). Está também estimado que ocorrem em um terço do total de enfartes e que em 50% dos casos é a primeira manifestação de uma doença até então desconhecida.

“Estima-se que [de morte súbita] na Europa a incidência se situe entre 36 a 49 casos por 100 mil habitantes por ano”

O que se pode fazer para prevenir?
Há vários níveis de prevenção que podemos considerar. Em primeiro lugar, todas as medidas de promoção de saúde geral com controlo de fatores de risco cardiovascular (hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, dislipidemia assim como estimular a prática de exercício físico e de adoção de dietas saudáveis) diminuem a probabilidade de existência de doença vascular e, consequentemente, previnem a morte súbita. A utilização de cardioversores desfibrilhadores em doentes com disfunção ventricular esquerda/insuficiência cardíaca (com ou sem doença coronária), também é uma forma comprovada em múltiplos ensaios clínicos de diminuir a incidência de morte súbita cardíaca. Um outro escalão de prevenção tem a ver com o auxílio rápido de vítimas de paragem cardiorrespiratória – tanto na população (ensinar manobras de suporte básico de vida), como na distribuição de desfibrilhadores automáticos externos por locais públicos e também no enorme esforço que tem sido feito para que a emergência pré-hospitalar consiga chegar rapidamente a estes doentes.

Foi estabelecido um protocolo com o Instituto Nacional de Medicina Legal, que procura aumentar a probabilidade de os familiares das vítimas de morte súbita poderem ser avaliados. De que forma se processa?
O objetivo deste importante protocolo é garantir que os familiares de vítimas de morte súbita cardíaca (em que haja suspeita de causa genética – seja pela idade, ou pela existência de determinada patologia) possam ser avaliados em consulta específica. Após identificação de caso index no INML, as famílias serão encaminhadas para consulta de arritmologia. Atualmente, estamos na fase de contactar os serviços para estabelecer um ponto de ligação desburocratizado com estas famílias. Estamos também a preparar um documento de orientação de atuação nessa consulta. Esta questão é importante, pois os dados devem ser colhidos de forma homogénea, de forma a permitir uma avaliação/auditoria futura.

SM 

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