Marco Moreira tem 56 anos e no dia 8 de novembro fez um ano que teve um AVC. «Andava a caçar quando comecei a sentir um formigueiro, mas pensei que fosse frio. Depois, à hora de almoço, comecei a perder a força, mas só depois de me deitar, por volta da 1h da madrugada, quando já não me conseguia mexer, é que fui para o hospital», começa por nos contar Marco Moreira. Decorrente deste episódio, recebeu a indicação de que precisava de uma fisioterapia específica para minorar os efeitos.

Durante um mês, aproximadamente, fez fisioterapia. Contudo, a pandemia da COVID-19 fez cessar este serviço e, de março a julho, o hospital onde estava a ser tratado não o voltou a chamar para a reabilitação, apesar da muita insistência, e passou de uma melhoria notável onde já conseguia andar para se agarrar novamente à cadeira de rodas. Posto isto, decidiu pagar a fisioterapia do próprio bolso e conseguiu novamente melhorias, conta-nos.

Num inquérito realizado pela Portugal AVC, 91% dos doentes com indicação para cuidados de reabilitação reportaram terem sido obrigados a interromper os tratamentos ou não ter tido possibilidade de os iniciar devido à pandemia. «Durante o estado de emergência a reabilitação parou por completo», afirma Ana Paiva Nunes, coordenadora da Unidade Cerebrovascular do Hospital de São José, que acrescenta: «Esta paragem, consequentemente, fez com que doentes que tinham um grande potencial de recuperação tenham ficado com sequelas muito maiores do que estaria previsto».

De facto, existe múltipla evidência científica de que o atraso do programa de reabilitação individualizado e multidisciplinar leva a um agravamento do prognóstico funcional, conduzindo a uma pior integração e menor qualidade de vida. Tal é vivido dramaticamente por Ana Maia, uma outra sobrevivente de AVC, com 66 anos, que está a tentar refazer a sua vida desde que sofreu um acidente vascular cerebral em janeiro de 2018. Ana esteve em Alcoitão a fazer fisioterapia. Contudo, atualmente, não faz este tratamento e diz que tudo mudou e que já sente a progressão da doença: «Com a pandemia fiquei sem a minha requisição para fisioterapia no centro de saúde e eu preciso deste apoio.». Além disso, com as sequelas a manifestarem-se em todo o quotidiano, assinala que «um acompanhamento domiciliário e mais presente a todos os doentes para as tarefas do dia-a-dia seria fundamental».

Sobreviventes de AVC temem consequências da falta de acompanhamento durante a pandemia
A maioria dos sobreviventes de AVC fica com sequelas

Estes são dois testemunhos de quem vive com uma das principais causas de morte em Portugal e a principal causa de morbilidade e de potenciais anos de vida perdidos no conjunto das doenças cardiovasculares. No inquérito realizado pela Portugal AVC, no período que o mundo vive atualmente, um terço dos sobreviventes de AVC referiu sentir-se pior ou muito pior relativamente ao seu estado geral de saúde, percentagem que subia para 44% entre os que habitualmente beneficiavam de cuidados de reabilitação e atingia os 50% nas pessoas que tinham sofrido o AVC há menos de um ano. «A maioria dos inquiridos referia sentimentos de maior nervosismo e/ou ansiedade, queixas de maior dificuldade na movimentação e/ou comunicação, de maior preocupação relativamente à recuperação e mesmo ao risco de ter um novo AVC. Infelizmente, estamos convictos que a situação não melhorou nestes meses, antes pelo contrário. Continuamos a ser contactados por sobreviventes e famílias em situações dramáticas, mesmo à beira do desespero», ressalta António Conceição, presidente da Portugal AVC.

Tratamentos pós-AVC são imprescindíveis

Como sobrevivente afetado na sua mobilidade, Marco Moreira confessa que o estado em que o país e os serviços de saúde estão o prejudicam na recuperação. E sente-o todos os dias na pele: «A pandemia tem afetado a minha vida a diferentes níveis, desde físicos a psicológicos. Além disso, devido à pandemia, continuo a aguardar a requisição para o meu atestado multiusos. Considero que os hospitais deviam prestar mais apoio, especialmente nesta fase. O meu médico de família só me liga para passar a baixa de saúde, já nem para medir a hipertensão, e eu também sou doente hipertenso». Na sua visão, o SNS não pode de forma alguma deixar cair os tratamentos: «Um dos grandes pontos a melhorar é a fisioterapia para doentes após o AVC. Continuam a empurrar para os cuidados continuados quando essa não deve ser a solução, precisamos de fisioterapia para recuperar o mais rapidamente possível».

A reabilitação deve iniciar-se logo após o AVC, num modelo coordenado e multidisciplinar, e sem sofrer interrupções, uma vez que dessa reabilitação pode depender a melhor recuperação de sequelas sofridas, com reflexos na qualidade de vida dos sobreviventes e suas famílias e mesmo nos custos sociais e económicos. Porém, segundo o presidente da Portugal AVC, «se a situação já era preocupante antes da pandemia, foi verdadeiramente o descalabro com a paragem quase total destes cuidados de saúde durante cerca de dois meses. Atualmente, a abertura destes serviços ainda está muito longe, sequer, de dar resposta equivalente ao pré-COVID, e prosseguem com uma atividade limitada. Além do mais, o perigo de que se repita a mesma situação nesta 2ª vaga, apesar dos sucessivos e atempados apelos feitos, é muito real».

«Durante o estado de emergência a reabilitação parou por completo. Esta paragem fez com que doentes que tinham um grande potencial de recuperação tenham ficado com sequelas muito maiores do que estaria previsto», Ana Paiva Nunes

Assim, com os casos de COVID-19 a aumentar, o presidente da Portugal AVC destaca que é necessário não esquecer estes doentes e continuar a dar auxílio: «Antes de mais, é imperativo o investimento na expansão, readaptação e reorganização dos cuidados de reabilitação do AVC em Portugal, tanto a nível hospitalar bem como extra-hospitalar. Com uma interligação que privilegie a proximidade entre as diversas entidades envolvidas, nunca esquecendo que a qualidade deve estar sempre presente. Não só fisioterapia, mas também terapeutas ocupacionais e terapeutas da fala, e mesmo enfermeiros de reabilitação, assistentes sociais, nutricionistas e, em particular, psicólogos. A inclusão da psicologia e da neuropsicologia nos cuidados de reabilitação é ainda muito incipiente. Situação ainda mais agravada no atual quadro, e cada vez mais urgente».

Contactado pelo SAPO, em pleno estado de pandemia e consequente pressão sobre os serviços de saúde, o Ministério da Saúde remete para a avaliação médica a execução ou suspensão temporária desses tratamentos, através de um despacho publicado no passado dia 3 de novembro: «Face ao atual crescimento da incidência da COVID-19, os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) garantem a ativação do nível dos planos de contingência institucionais, previamente aprovados, que assegure a resposta às necessidades epidemiológicas locais e equilibre o esforço assistencial regional e inter-regional, designadamente, suspendendo, durante o mês de novembro de 2020, a atividade assistencial não urgente que, pela sua natureza ou prioridade clínica, não implique risco de vida para os utentes, limitação do seu prognóstico e/ou limitação de acesso a tratamentos periódicos ou de vigilância».

À questão sobre para quando a normalização dos tratamentos para a situação pré-COVID, ou previsão de tal normalização,  não nos foi dada resposta até ao momento.

Medo: do isolamento, da COVID-19 e de um novo AVC

Assim, o medo é um sentimento que acompanha os sobreviventes de AVC, mas que se eleva em tempos de pandemia, não só pelo receio de não conseguirem os tratamentos adequados, como também de contrair o novo coronavírus, uma vez que normalmente são doentes com algumas patologias associados que os colocam em maior risco.

Ana Maia sente este medo todos os dias. Confessa que tem receio de se dirigir a um hospital ou a outro serviço de saúde por causa da COVId-19. «Tenho muito medo, já o tinha antes, mas agora mudou tudo. Não só porque tenho receio de contrair o vírus, mas também pelas pessoas com quem contacto». Assim, aos 66 anos, esta sobrevivente sente-se também à beira do desespero: «Sinto um grande impacto na minha saúde mental e já não tenho qualquer apoio domiciliário, este vírus tirou-me isso. Antes era acompanhada durante o banho e neste momento tenho de fazer tudo sozinha, mesmo que não seja capaz». Mais jovem, Marco Moreira também confessa ter muito receio, «mas apesar dos tempos em que vivemos sei que tenho de ir por causa dos tratamentos».

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O medo tem sido um entrave no tratamento de doentes com AVC. Foi aliás responsável pela redução substancial de entradas nas urgências por esta patologia nos últimos meses. Segundo um inquérito da Sociedade Portuguesa do AVC, em 32 hospitais portugueses, metade observou uma redução entre os 25 e os 50% no número de doentes. «Devido à forma assustadora como foi feita toda a comunicação, as pessoas ficaram com medo de ir ao hospital e doentes com quadros mais ligeiros poderão ter optado por ficar em casa. É uma situação preocupante uma vez que a eficácia e a segurança do tratamento do doente com AVC é dependente do tempo, ou seja, quanto mais depressa for tratado, mesmo em situações ligeiras, maior a probabilidade de ficar sem sequelas», alerta Ana Paiva Nunes. Por isso, «todas as decisões que prejudiquem a rapidez de diagnóstico e tratamento de uma pessoa que tenha sofrido um AVC irão, consequentemente, colocar as pessoas em risco. Se, por medo do contágio por COVID-19, as pessoas deixarem de pedir ajuda, as consequências serão desastrosas, sendo impossível evitar sequelas, que poderiam ser antecipadas com um diagnóstico e tratamento rápidos, ou até mesmo a morte», alerta a médica.

Como consequência do medo, não só o tratamento e reabilitação física são prejudicados, como a parte mental é altamente afetada. «A saúde mental destas pessoas preocupa-nos sobremaneira. O confinamento, imposto ou voluntário, por proteção da própria saúde e pelo ambiente de receio em que todos vivemos, e o isolamento social, não fazem nada bem, em particular aos sobreviventes de AVC», destaca António Conceição. Porém, ressalta, «o receio, o medo, é próprio da natureza humana, e protege-nos de perigos desnecessários. Mas, o medo de ser infetado pela pandemia de COVID-19, não pode sobrepor-se à urgência de um Acidente Vascular Cerebral. Até porque as consequências para a saúde e o bem-estar, muito provavelmente, serão muito piores, ou por toda a vida».

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A falta de tratamento de um AVC pode levar à morte ou deixar sequelas gravas para a vida créditos: Freepik

A importância da ajuda urgente

Se um AVC em condições normais já é um momento dramático, em tempos de pandemia com a sociedade e os serviços de saúde mais condicionados o sistema de apoio urgente tem de estar muito bem oleado. Neste sentido, perante os sinais de alerta – boca ao lado, dificuldade em falar, falta de força num braço – as pessoas não se devem dirigir ao hospital mais próximo mas sim contactar o 112 que irá encaminhar o doente para o hospital mais próximo que tem capacidade para tratar esse doente. Isto porque será acionada a Via Verde do AVC, implementada em várias zonas do país desde 2006, e que consiste em fazer a triagem dos casos através da deteção dos sintomas, evitando deslocações a centros de saúde ou hospitais que não estejam preparados para o tratamento urgente destes casos. Atualmente são cerca de 50 os hospitais em todo o país que têm protocolos estabelecidos para a Via Verde de AVC.

As consequências de um AVC estão sobretudo relacionadas com o tempo que decorre entre o acidente e a realização do tratamento. Por isso, as primeiras horas são cruciais e o pedido de ajuda deve ser feito com urgência. «Para quem opta por não pedir socorro urgente, a possibilidade de fazer um cateterismo ou recorrer a um produto que dissolve o que está a entupir a artéria cerebral por via intravenosa, como um trombo, deixa de estar em cima da mesa. Estes tratamentos aumentam em 30 a 50% a hipótese de a pessoa conseguir recuperar com poucas ou nenhumas sequelas. Na impossibilidade de realizar estes procedimentos, os danos causados pelo acidente podem tornar-se permanentes e irreversíveis, exercendo um grande impacto na qualidade de vida do doente, ou até mesmo resultar na sua morte», alerta a médica Ana Paiva Nunes.

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