Ao longo da minha existência tive o privilégio de conhecer pessoas que foram – e ainda são – uma espécie de pirilampos, que andaram à minha frente como se tivessem uma lanterna acesa, a mostrar o caminho, dando-me protecção e confiança. Pessoas que me ensinaram que o motim está dentro de nós. Que a guerra contra a injustiça está dentro de nós. Que só é preciso dar-lhe espaço para actuar. E quando isso acontece, é como entrar numa floresta de auto-descoberta.

Julgo, sem falsas modéstias, que sou uma activista, com duas ou três causas que me mobilizam realmente – uma delas é a ambiental. Mas ser activista não é ser activistazinha. É um compromisso de quem não se imagina a viver sem actuar. Eu sou assim. Porque é da minha natureza comprometer-me.

Sempre tive vontade de intervir. Se queremos mudar as coisas não podemos estar em casa a criticar, no conforto do sofá. E mais: não podemos actuar apenas com o corpo. Temos de recrutar também a força da nossa alma. Com o sangue a ligar-nos às causas. E isso, para quem se envolve verdadeiramente, é um bálsamo sobre pele queimada – por mais duras que sejam as causas. As acções no terreno (de voluntariado, por exemplo), ainda que por vezes traumáticas, não têm o poder de destruir quem as pratica. Pelo contrário: têm o poder de construir. Muitas vezes, esperança e dor entrelaçam-se de forma apertada e indestrinçável.

O mundo é um armazém capaz de albergar uma quantidade considerável de crueldade e disparidade. É impossível ficar indiferente. Para mim, o envolvimento em projectos sociais e ambientais, em várias ONG e associações, é como aprender, de certa forma, a arte da felicidade.

Em Portugal existem centenas de associações em áreas tão diferentes como ambiente, direitos dos animais ou direitos humanos. Só a Plataforma Portuguesa de Organizações Não Governamentais reúne 59 associações civis sem fins lucrativos – constituídas por pessoas que abraçam muitas vezes causas difíceis. Opções para intervirmos não faltam – e com efeitos concretos na construção de um mundo melhor. Um exemplo? Quando, há uma década, foi aprovada a lei do casamento homossexual, isso deveu-se ao esforço de activistas que, durante muitos anos, lutaram por isso sem serem compreendidos, sem serem sequer ouvidos.

Porque não há sociedades perfeitas nem estados que respondam plenamente a todas as necessidades da vida em comum, milhares de homens e mulheres arregaçam mangas e dão parte de si em prol de todos. Os portugueses têm fama de ser um povo solidário. Respondem prontamente à angariação de fundos para causas maiores, como sucedeu após os incêndios de Pedrogão ou mesmo durante a actual pandemia de Covid-19. Mas seremos realmente activistas? Parece que não. Portugal detém dos mais baixos índices de associativismo por habitante da Europa, regista Melo de Carvalho em “Associativismo, Inovação Social e Desenvolvimento”, análise elaborada para a Confederação do Desporto de Portugal. E a saúde da democracia avalia-se não só pela afluência às urnas, mas também pela participação dos cidadãos na causa pública.

Lamento a fraca participação cívica dos portugueses. Haverá explicação para isto? Talvez. Os mecanismos de reclamação são burocráticos e morosos, e os de participação cívica pouco claros e acessíveis. Mas quanto a mim a causa fundamental da apatia é sociológica – está entranhada naquilo que somos. Diz-se, como se fosse algo positivo, que somos um povo de brandos costumes. Eu interpreto-o negativamente. Acomodados nos apetrechos da mansidão, muitos de nós acanham-se de intervir. E diria mais: a maior parte age de forma pouco organizada.

Claro que a desilusão e a frustração reinante em torno da política e dos políticos não ajuda, e parece dar-nos uma visão privilegiada da podridão do sistema. Mas tal não significa que as pessoas não se manifestem nem participem. É impossível esquecer as imagens de manifestações lendárias como a do “Buzinão na ponte”, em 1994, a “Que se lixe a troika”, em 2013, ou “Taxistas vs. Uber”, em 2018. Foram manifestações ruidosas, com um certo quê performativo, premeditado ou não.
A mobilização em defesa própria, por exemplo dos trabalhadores, constitui parte importante, e legítima, da mobilização social. Mas, na minha opinião, isso não chega. Por exemplo, a nossa falta de envolvimento em torno de causas internacionais é evidente. Este tipo de mobilização nunca teve tradição em Portugal. Claro que há excepções, como foi o empenho da população no apoio ao povo timorense, em 1999.

Mas eu diria que não há garra activista entre nós. Timor foi uma excepção na história portuguesa e é pena que não se repita. Participei nessas manifestações e recordo-me como se fosse hoje o sabor da raiva justa que vem da participação num protesto de massas.

Na era da internet e das redes sociais, o activismo também mudou. A internet substituiu a rua e é palco de acesas discussões e acções de mobilização. Petições online alertam os cidadãos para questões prementes da sociedade e procuram chegar à Assembleia da República. As novas tecnologias potenciam a difusão de causas globais, permitem a concertação nacional e internacional e novas formas de participação à distância. Isto tem impacto junto das organizações e também dos cidadãos, que ficam mais próximos da informação sobre como e em que participar.

Mas não basta fazer um blog e protestar para nos considerarmos activistas, embora estas ferramentas possam ser muito importantes. Para mim, a mobilização cibernética é uma participação espúria. Não custa assinar uma petição online, nada se arrisca, nada se compromete. A maior parte das pessoas assumem a postura de treinador de bancada aplicada à vida cívica. O envolvimento digital é mais superficial do que o envolvimento directo, mas ainda assim é melhor do que nada.

Claro que as novas tecnologias piscam o olho à participação dos mais novos. Muitos são activista de valores, cabeça e coração, e menos de ir a manifestações, por exemplo. Mesmo assim as gerações mais novas, tantas vezes consideradas apáticas e pouco interventivas, mobilizaram-se como nunca com a causa das alterações climáticas, encabeçada por Greta Thunberg, activista ambiental sueca de 17 anos – que fala às massas com uma intensidade tão urgente como a fome. E isso hoje, como em qualquer momento da história da Humanidade, faz toda a diferença. São estas pessoas, muito raras, que ajudam a acender algo dentro de nós, enchendo-nos de uma coragem louca. E por vezes, sem darmos conta, a magia acontece: tornamo-nos activistas.

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