A pergunta que coloco é a seguinte: o Natal é uma data para comprar ou para confraternizar? Uma das principais características da nossa sociedade é ter reduzido o indivíduo à condição de consumidor. Esta sociedade foi estimulada pelas indústrias a consumir cada vez mais produtos que incorporam uma gama de associações simbólicas, colocando-nos um rótulo, confundindo os valores do ser com o ter e suplantando a substância pela aparência.

Em plena pandemia, será que aprendemos alguma coisa no que diz respeito à forma como temos vindo a consumir estupidamente nesta época do ano? Terá o vírus sido um pretexto para resgatar o verdadeiro significado do Natal? Não sei, embora o meu lado optimista pressinta que haja um movimento que contraria a tendência consumista da época e questione a forma como ela é celebrada. Uma onda de mudança que questiona a forma como se festeja a quadra, que recusa que a empatia seja assombrada por campanhas de publicidade, promoções e subsídios especiais, para estimular a economia no último mês do ano.

No auge do individualismo, fomos apanhados no meio de uma pandemia que pôs em causa a forma como vivemos, como nos relacionamos e também como consumimos. Acredito que assistimos, no Ocidente, a um regresso ao imaterial, ao incorpório. Muita gente procura novas vias de completude e de crescimento espiritual. Nestes tempos, a forma como tantos vivem o Natal já não se encaixa no espectro do tradicional, assente sobretudo no acto de comprar. O que se pretende são novas formas de espiritualidade muito mais ecológicas e holísticas.

No meio da desumanidade que esta pandemia destapou, em que estamos longe de quem queremos estar perto, lembrei-me da visionária Hazel Henderson, conhecida como a economista solidária, que defende a valorização da “Economia do Amor” e apresenta um novo modelo para a economia, com uma visão ecológica, solidária e sustentável do que é o progresso, a riqueza e o desenvolvimento.

Porque me lembrei dela neste Natal? Porque Hazel propaga a importância da adopção de indicadores económicos mais abrangentes do que o PIB (Produto Interno Bruto) para medir a riqueza das nações, incluindo bens ecológicos, capital social, educação e saúde. E isso faz-me cada vez mais sentido – sobretudo nesta época natalícia – em que é importante libertarmo-nos da ideia de consumo exagerado.

Hazel defende que metade da produção de qualquer economia advém do que definiu por “Love Economy”, que é toda a movimentação económica realizada por pessoas não remuneradas pelos seus trabalhos, como mães que cuidam dos filhos e de familiares idosos ou doentes, voluntários e pessoas que plantam a sua própria comida. Hazel afirma que a “Economia do Amor” pode aumentar e muito o valor total do PIB de qualquer país.

Sempre defendi que os melhores presentes que se podem oferecer aos outros não se compram nas lojas – e são esses que plantam em nós uma fogueira interior que nos faz sentir especiais. São esses que nos deixam deslumbrados e incrédulos e que nos libertam da sovinice dos afectos, no limite do deslumbre.

Precisamos de aprender a viver o Natal de outra forma – ou de lhe sobreviver, isto se teimarmos em fazer tudo de forma idêntica, as asneiras repetidas, sem reflectirmos sobre os erros do passado. Caso contrário, não encontraremos o lugar amadurecido do amor e continuaremos a sentir todas as incompletudes numa época que se torna vazia de sentido. Porque excesso de coisas – e também de presentes – impede-nos de ver o essencial. E isto é válido também, e sobretudo, nesta pandemia que tornou o nosso Natal anémico em emoções.

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