Quando integrou o movimento Médicos em Luta?
Foi logo no início. Fui uma das subscritoras da carta que foi entregue ao ministro da Saúde para o informar que, caso as negociações não fossem bem sucedidas, provavelmente o Serviço Nacional de Saúde (SNS) ficaria numa situação crítica. E porquê? Porque os médicos iriam deixar de estar disponíveis para fazer mais do que as 150 horas extraordinárias que estão previstas na lei.

Por que razão resolveu envolver-se neste movimento?
Chamou-me a atenção a coerência e a necessidade de se puder denunciar a má-fé e a forma pouco séria como estávamos a ser tratados por parte da tutela no que respeita às negociações. É preciso falar sobre tudo aquilo que está mal em termos de gestão, de coordenação, o que leva à saída dos profissionais, etc. Tudo isto tem sido omitido junto da opinião pública. Enquanto médicos, defensores do SNS, não poderíamos ficar calados.

Alguma vez esperou que o movimento viesse a ter esta dimensão?
Não. Na realidade, os médicos são pessoas muito abnegadas, muito defensoras do seu doente, o que contribui, por vezes, a que trabalhem gratuitamente. O doente é sempre a nossa primeira preocupação e prioridade, mesmo em detrimento de nós próprios. Na realidade, as pessoas aderiram a este movimento de forma massiva, porque entenderam que, de facto, estavam a ser maltratadas. Mesmo lutando, não estavam a conseguir salvar o SNS. Esta crise do SNS afeta, primeiramente, a população e não podemos esquecer isso. Infelizmente, não há interesse por parte do Governo em manter o SNS com a dimensão que tem e com a qualidade que tem. Parece que, a nível político, o objetivo é que o SNS venha a definhar.

“O desinvestimento no SNS já é visível há vários anos, quando congelaram a carreira médica. Nessa altura começou também a esvaziar-se os médicos de funções de gestão e de organização”

É cirurgiã geral há 27 anos. Tem-se associado muito esta luta ao que todos os médicos passaram na pandemia. Concorda?
O desinvestimento no SNS já é visível há vários anos, quando congelaram a carreira médica. Nessa altura começou também a esvaziar-se os médicos de funções de gestão e de organização, entregando as direções clínicas a pessoas que eram nomeadas, essencialmente, por questões políticas e não necessariamente por terem mais capacidade. A situação foi-se deteriorando, com hospitais subdimensionados para a população que têm de servir. A centralização da saúde nos serviços de urgência por falta de resposta dos cuidados de saúde primários é outro problema. Este facilitismo em tornar os serviços de urgência a porta de entrada no SNS foi, na verdade, uma medida eleitoralista que criou uma grande disfunção no sistema. Os médicos são grandes defensores do SNS, preocupam-se com o seu funcionamento e com o bem-estar do seu doente. O médico é que tem o conhecimento para fazer um bom planeamento, nomeadamente dos medicamentos, de dispositivos. Um tratamento de qualidade tem um impacto no erário público muito grande. Se existirem os cuidados adequados no tempo certo, vai aumentar a despesa do Estado com pensões, baixas médicas, etc.

Antes da pandemia já tínhamos a perceção desse grande desinvestimento no SNS e procurámos compensar as falhas com mais trabalho. Criámos alguns circuitos no sentido de tentar responder aos doentes, apesar das dificuldades que eram crescentes. Repare-se que a burocracia nos retira tempo e disponibilidade para aquilo que é realmente importante… Procurámos negociar, mas, entretanto, entrámos em pandemia e achámos que não faria sentido fazer fosse o que fosse, já que não seria justo, sobretudo para a população. Unimo-nos para dar resposta a um vírus novo, a uma doença que tivemos de estudar. No fim da pandemia ainda se acreditou que seria a oportunidade para sermos reconhecidos e ouvidos. Mas isso, de facto, não aconteceu. Muito pelo contrário. Continuamos a ser desrespeitados, ignorados e mesmo a população não tem uma noção muito clara daquilo que está neste momento em causa e da repercussão que esta situação e esta degradação vai ter na sua vida e no seu dia a dia. Até nas suas próprias economias.

Mas não têm essa perceção porquê? Será mais um sentimento de que precisam do médico, mas ele está várias vezes em greve?
Porque acham que a saúde é um direito garantido. Mas, na realidade, não é bem assim. Por enquanto, muitos ainda conseguem ter seguros e planos de saúde: Contudo, estes só vão dar resposta até o plafond o permitir. Quando os doentes se veem confrontados com um problema sério de saúde, o único sítio onde podem recorrer é ao SNS. Além disso, no acesso a cuidados é preciso pensar na medicina preventiva, o que não costuma ser fácil mesmo para quem tem médico de família. Investir na prevenção vai permitir ter-se melhor saúde e menos problemas na urgência e em tudo o resto.

No plano de reestruturação das urgências, o Médicos em Luta falou em 39 lacunas…
Sim, são 39 serviços de urgência, pelo menos, que estão afetados pela indisponibilidade dos médicos em fazerem mais do que as 150 horas extraordinárias previstas na lei.

O Governo mencionou 30…
O que se passa é que alguns serviços são particularmente afetados ao fim de semana e esses números são sempre muito bem dominados pela tutela.

Existe uma grande diferença entre os grandes centros urbanos e o interior?
Sim. Geograficamente, o Norte está a ser mais afetado, porque foi onde começou o movimento. O maior impacto desta situação é nos hospitais de fim de linha, para onde se pode referenciar doentes, onde os colegas estão a fazer tudo para manterem a resposta à população. Nestes casos existem situações onde estão a acontecer manobras, obrigando-os a trabalhar para além das 150 horas, apesar de terem entregado a minuta. E têm de trabalhar gratuitamente, muitas vezes. Estão a passar-se coisas ilegais e incorretas por todos os hospitais do país.

“Há colegas que já estão mesmo a desistir da profissão, porque noutras áreas não vão ganhar muito menos e vão ter menos responsabilidades”

As diferentes especialidades também começam a escassear a nível das urgências. Essa é também uma das vossas preocupações?
Na grande maioria dos hospitais temos médicos sem especialidade ou médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar que fazem a primeira abordagem dos doentes e depois, habitualmente, quando são casos mais específicos e complexos orientam-nos para as especialidades. Não havendo esses médicos especialistas na urgência, atrasa-se o diagnóstico, acaba-se por se pedir mais exames complementares de diagnóstico… Todo o dinheiro gasto nesta disfunção poderia ser investido no aumento dos salários dos médicos. O dinheiro que nos é injustamente retirado, está a ser usado em tratamentos muito mais complexos, porque os doentes chegam aos serviços de urgência num estado de saúde muito mais grave. Em suma, o valor que os médicos estão a pedir está a ser utilizado de forma desadequada em tratamentos sem qualidade.

Acresce à questão salarial também a falta de condições para trabalhar? Há relatos de médicos que dizem que têm de levar aquecedor no inverno ou que chegam a não ter papel para a marquesa.
Sem dúvida! Aquecedores, gabinetes exíguos, enquanto os dos administradores são muito maiores … Os computadores são absolutamente necessários para a nossa atividade, mas muitas vezes não funcionam bem, o sistema vai abaixo… No meio da atividade assistencial e burocrática ainda temos de nos deslocar, por vezes, à única impressora disponível para todos os médicos… É tudo feito para dificultar, efetivamente, a nossa atividade. Os pensos nem sempre são suficientes; temos de higienizar também a marquesa, porque os auxiliares também não conseguem dar resposta a tudo… O trabalho do médico é essencial, mas não é respeitado, não existe dignidade. Há colegas que já estão mesmo a desistir da profissão, porque noutras áreas não vão ganhar muito menos e vão ter menos responsabilidades. Perdemos toda a confiança neste governo e neste Ministério. Há muitos doentes a serem maltratados e ou tratados tardiamente. A morrerem, inclusive, porque não têm o tratamento adequado no tempo útil. A responsabilidade é, naturalmente, do Dr. Manuel Pizarro. Não conseguimos confiar, porque o ministro diz uma coisa e, depois, o que fica escrito não é aquilo que acordou verbalmente. Existe, claramente, má-fé e má vontade no diálogo com os médicos. Os médicos não são uma classe respeitada! Veja-se o que se passou durante a pandemia: esforçámo-nos imenso, pusemos em risco a nossa própria saúde e a dos nossos familiares (alguns morreram)… Mesmo assim, o Primeiro-Ministro disse que éramos covardes – nunca mais o esqueceremos – e a ministra Marta Temido falou em falta de resiliência.

“Se se decidir salvar o SNS neste momento, ainda é possível resgatá-lo. Os médicos acreditam no SNS, independentemente da sua cor política”

Têm receio que a atual situação possa ser pior com outro Governo?
Temos plena noção de que nenhum Governo de Centro e de Direita tem interesse em manter o SNS, pois querem é proteger o serviço privado. Mas, em termos de falta de respeito, dificilmente haverá outro Governo.

Face a toda esta situação, acredita que o SNS ainda é viável de alguma forma?
Se se decidir salvar o SNS neste momento, ainda é possível resgatá-lo. Os médicos acreditam no SNS, independentemente da sua cor política. Os médicos estão disponíveis para irem até ao limite das forças para proteger o SNS. Todavia, salvar o SNS implica também que os políticos queiram manter a maior conquista do 25 de Abril. Por exemplo, na nossa leitura, a organização em unidades locais de saúde (ULS) não é nem mais nem menos do que diminuir a orçamentação para os diversos hospitais e para o SNS. Não existe evidência de que este modelo [ULS] é melhor do que o atual.

Mesmo assim vão continuar a ser médicos em luta?
Certamente! A nossa voz não se vai apagar nem mesmo durante as eleições, nem mesmo a partir de janeiro. Nós vamos continuar a lutar e a denunciar aquilo que estão a fazer ao SNS.

Maria João Garcia

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