"Os ventos de mudança na Irlanda são inquestionáveis", afirmou hoje Mary Lou McDonald a um grupo de jornalistas estrangeiros em Londres, afirmando acreditar "numa mudança constitucional durante esta década de uma forma ordenada". 

A presidente do Sinn Féin defende que, independentemente do resultado do referendo, "tem de haver uma preparação e uma conversa abrangente" sobre questões como o serviço de saúde, educação, sistema jurídico, impostos e moeda.   

Argumentou também que "os direitos e identidades dos unionistas", leais à coroa britânica, devem ser protegidos "numa nova Irlanda".

McDonald apontou para os resultados eleitorais na Irlanda, onde o Sinn Féin rompeu o domínio do Fine Gael e Fianna Fáil para se tornar no maior partido da oposição, e na Irlanda do Norte, onde ganhou pela primeira vez uma maioria de assentos na Assembleia regional nas eleições do início deste mês, para justificar a tendência. 

A dirigente política republicana diz que os sinais do crescente apoio à reunificação também são visíveis nas sondagens à opinião pública na Irlanda, embora admita que ainda sejam "mistos" na Irlanda do Norte. 

Cabe ao Governo britânico decidir se existem condições para a realização de um referendo sobre a saída da província do Reino Unido e a reunificação com a Irlanda do Norte, o que só deverá acontecer quando existirem mais indícios de uma maioria pró-republicana.  

Nas eleições de maio, o bloco republicano, composto pelo Sinn Féin (29%) e pelo Partido Trabalhista e Social Democrata (SDLP, 9,1%), ganhou 38,1% dos votos, contra 40,1% do bloco unionista, formado pelo Partido Democrata Unionista (DUP, 21,3%), Partido Unionista do Ulster (UUP, 11,2%) e a Voz Tradicional Unionista (TUV, 7,6%). 

Entretanto, McDonald lamenta que a Irlanda do Norte continue sem Assembleia e governos regionais devido ao bloqueio do DUP "com a ajuda do Governo britânico" do primeiro-ministro conservador, Boris Johnson. 

A situação, avisou, "representa uma verdadeira ameaça à estabilidade política, económica e social". 

O DUP recusou-se a participar na formação de um novo governo de coligação por discordar com o Protocolo da Irlanda do Norte que faz parte do Acordo de Saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o qual considera pôr em causa o lugar da província no Reino Unido ao impor na prática uma "fronteira no Mar da Irlanda". 

O Protocolo da Irlanda do Norte foi desenhado por Londres e Bruxelas para gerir o comércio após o 'Brexit' entre a província britânica e o mercado único europeu e assim respeitar o acordo de paz de 1998 para a Irlanda do Norte, que determina uma fronteira aberta na ilha da Irlanda.

Para evitar uma fronteira física, o Protocolo deu à Irlanda do Norte um estatuto especial, implicando que respeite regras europeias sobre certos bens, como plantas e produtos alimentares, o que implica mais documentação e controlos na chegada de mercadorias do Reino Unido.  

"O Protocolo está a funcionar e é uma consequência necessária do 'Brexit', o que não está a funcionar é o 'Brexit'", disse McDonald aos jornalistas, recordando que a Irlanda do Norte votou contra o 'Brexit' e que a maioria dos partidos na Assembleia regional é favorável ao Protocolo. 

"A realidade é que o Governo britânico está disposto a agir unilateralmente para violar a lei e acordos internacionais" para alterar o Protocolo e satisfazer o DUP, acusou a representante, lembrando que esta manobra é condenada não só por Bruxelas mas também por Washington. 

"Custou tanto construir o processo de paz durante quase 25 anos e isso não pode ser desperdiçado", alertou ainda Mary Lou McDonald.

BM // SCA

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