"Fiquei mesmo satisfeita. Em tudo na vida temos de ter fé e esperança", disse Ineida Barroso em declarações à agência Lusa no momento em que conhecia a nova casa onde irá viver com as duas filhas, um andar situado perto de uma escola e na mesma freguesia do bairro Vale de Chícharos, conhecido por bairro da Jamaica, no concelho do Seixal, distrito de Setúbal.

Esta era uma mudança há muito esperada e, segundo conta, numa hora que estava mesmo a precisar.

Um grupo de 119 moradores do bairro (37 famílias) começou hoje a ser realojado, numa nova etapa de um processo iniciado em 2018 e que deverá terminar no final do ano, segundo a autarquia.

Ineida Barroso, trabalhadora na área da limpeza e a prestar serviço no Ministério das Finanças e num banco da Baixa lisboeta, só pensa agora em reorganizar-se na nova casa depois de, há cerca de 10 anos, ter embarcado na aventura de vir para Portugal em busca de uma vida melhor.

Para a imigrante, ter vivido no bairro da Jamaica não é motivo de qualquer vergonha porque em qualquer lugar o importante é que seja ela própria.

"Não tenho vergonha. Quem quer conviver comigo tem de conviver comigo com a minha realidade. Não vou mostrar uma pessoa que não sou. Se sou negra tenho de continuar a ser negra, não posso ser outra pessoa, tenho de continuar com a minha realidade e a minha realidade era aquela", disse.

O bairro de Vale de Chícharos (bairro da Jamaica) surgiu no final dos anos 80 início dos anos 90 através de ocupações individuais de uma propriedade privada.

Hoje de manhã era grande a azáfama à entrada do bairro com as mudanças de vários moradores que, tal como Ineida, começam hoje uma nova vida em casas adquiridas pela autarquia e disponibilizadas através de um programa de renda apoiada.

Foi neste cenário que o vereador com o pelouro da Habitação na Câmara do Seixal explicou à agência Lusa todo o processo que está em curso.

Depois de, em 2017, se ter feito um levantamento exaustivo do número de pessoas a viver no bairro, foram identificadas 234 famílias, num total de cerca de 750 pessoas, com direito a serem incluídas num processo realojamento.

O vereador Bruno Santos explicou que, das 234 famílias identificadas, foram realojadas 64 no final de 2018, ainda ao abrigo do programa Prohabita em que o esforço financeiro da autarquia era de 65% e o restante da Secretaria de Estado da Habitação.

Já sob a vigência do Plano de Recuperação e Resiliência foi possível avançar para o realojamento integral, que está a ser feito de forma faseada.

Em outubro, foram realojadas 37 famílias do bairro no âmbito deste processo, hoje mais 37 e as restantes 96 deverão ser até ao final do ano.

Neste programa de realojamento, a autarquia optou por distribuir as pessoas por todas as freguesias do concelho e não por criar novos bairros sociais.

"Entendemos que criar novos bairros não funciona. Ao transferir boa parte destes problemas para uma mesma zona iríamos replicar, embora com melhores condições habitacionais, boa parte das dificuldades existentes", explicou o vereador, adiantando que a opção encontrada foi integrar estas pessoas na comunidade como qualquer habitante do concelho.

As 101 famílias que já se encontram a viver desta forma, salientou, estão completamente integradas, assumindo as suas responsabilidades como qualquer munícipe.

"Procuramos que ninguém fique para trás. Ganhamos todos com isso, quando todas as pessoas possam ter direito a uma vida digna e a uma habitação condigna", disse.

Até ao momento, frisou o vereador, tem sido possível encontrar habitações que possam corresponder a estas necessidades e existe também a preocupação de fazer o acompanhamento destas pessoas no período pós realojamento, ajudando a ultrapassar dificuldades no processo de integração.

"Estamos num concelho em que a integração está na nossa génese. Primeiro acolhendo gente de todos os pontos do país e depois com pessoas vindas de todo o mundo. Esta diversidade é uma das características do nosso concelho e faz todo o sentido o realojamento integrando as pessoas com naturalidade no concelho seixalense", salientou.

No bairro da Jamaica, que aos poucos vai deixando de o ser, a esmagadora maioria dos moradores é de São Tomé, Guiné e Angola.

Ineida, que hoje foi o rosto de uma mudança, é um desses exemplos de diversidade que um dia rumou a Portugal para, como conta, "aventurar a vida".

GC // MCL

Lusa/Fim

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