"Num primeiro tempo achei que tinha de me confrontar com a identidade brasileira e isso me levou a várias reflexões, e uma das questões fundamentais é a da música popular", afirmou Sérgio Tréfaut à agência Lusa.

Filho de mãe francesa e pai português - o jornalista Miguel Urbano Rodrigues -, Sérgio Tréfaut nasceu e viveu no Brasil até ao final da infância, mas a família acabou por sair do país, exilar-se em França e, mais tarde, já depois da Revolução de Abril de 1974, regressar a Portugal.

Tréfaut, realizador, produtor, antigo programador, tem 56 anos, tripla nacionalidade, um sotaque que o próprio define como "rafeiro, vira-lata", feito de uma mistura cultural de três países, e admite sentir-se "incompleto em qualquer lugar".

"Queria voltar [ao Brasil] desde os dez anos, com uma necessidade de me confrontar com o país onde passei a minha infância. Quando você chega aos 50 é 'agora ou nunca,' mesmo que vá para a pior fase do Brasil", reconheceu Tréfaut, que ativamente tem criticado a presidência de Jair Bolsonaro.

"Paraíso" é, então, o resultado dessa aproximação de Sérgio Tréfaut ao Brasil, feita através da música popular brasileira, à escala de um jardim no Rio de Janeiro, onde decorre praticamente toda a narrativa do documentário.

"Fui à procura do que eu amava naquele país, e foi naquele lugar que encontrei", resumiu.

No documentário, Tréfaut registou homens e mulheres, todos eles idosos, que se encontram regularmente nos jardins do Palácio do Catete (que acolhe o Museu da República) para cantar sambas, choros e outras músicas do património comum brasileiro. Chamam-lhes "serestas", uma derivação das serenatas.

"Paraíso" fala de "pessoas consideradas dispensáveis à luz dos valores contemporâneos, e que estão à espera que o seu destino termine, e que lhes é impedido o acesso à felicidade", afirmou o realizador.

Para Sérgio Tréfaut, aquela comunidade, que encontrou nos jardins do Palácio do Catete, "transporta algo de um Brasil antigo e que foi obliterado".

O filme foi feito entre finais de 2019 e início de 2020, ou seja, antes da pandemia da covid-19, que teve um impacto particularmente violento no Brasil.

Sérgio Tréfaut queria ter filmado e conversado mais com aquela comunidade, que não voltou a cantar com regularidade naqueles jardins por causa da pandemia. Montou o filme com as imagens que tinha e dedicou-o aos protagonistas, em particular aos que já morreram, vítimas do novo coronavírus.

No regresso ao Brasil, Tréfaut encontrou "um sentimento de impotência".

"Na estratégia do Bolsonaro existe liberdade de imprensa oficial. Só que [as pessoas] sentem-se impotentes. A força do dinheiro é tão grande... a situação brasileira se explica pela atitude mercenária de parte dos deputados", afirmou.

Enquanto estreia "Paraíso", que encerrou o festival IndieLisboa, há pouco mais de uma semana, Sérgio Tréfaut termina o filme "A noiva", inspirado em histórias reais de raparigas que se juntaram a combatentes pelo autoproclamado Estado Islâmico, e prepara um novo projeto a rodar no Brasil.

Ainda na fase de pesquisa, o projeto tem por título "Incêndio", a partir do caso do incêndio que, em 2018, atingiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde "estava o tesouro da nação".

"Era como se em Portugal ardesse em simultâneo a Torre do Tombo, o Museu Nacional de Arte Antiga, o Palácio Nacional da Ajuda e os museus de Arqueologia e Etnologia", comparou.

A partir deste episódio, e de outros incêndios que atingiram edifícios e património cultural no Brasil, Tréfaut quer refletir sobre a identidade do país e sobre a forma como tratou, num sentido mais lato, o seu património histórico, incluindo a cultura indígena e a Amazónia.

SS // MAG

Lusa/fim

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