Para Portugal, "o delicado contexto atual leva-nos a valorizar, ainda mais, as vantagens mútuas do Acordo entre a UE e o Mercosul", afirmou João Gomes Cravinho, sem se referir diretamente ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

"Num momento em que a UE procura uma diversificação de fornecedores e de mercados, para assegurar maior autonomia estratégica, o Mercosul constitui um parceiro natural, cuja importância não podemos continuar a subestimar", acrescentou o governante, na conferência com o tema "Brasil e Portugal: Perspetivas de Futuro", que decorre entre hoje e amanhã na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

O Mercado Comum do Sul (Mercosul) é um bloco económico sul-americano, criado em 1991, do qual são membros fundadores o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que há anos procura fechar um acordo com a UE, que daria um impulso às economias.

Mas ainda, no quadro da União Europeia, João Gomes Cravinho considerou que também a parceria estratégica da UE com o Brasil tem sido "desaproveitada".

O ministro sublinhou que, no contexto da UE, Portugal "soube sempre utilizar a sua posição a favor do adensamento das relações com o Brasil".

Por isso, foi durante a presidência portuguesa, de 2007, que se institui "a parceria estratégica com o Brasil", frisou.

Porém, na opinião do chefe da diplomacia portuguesa esta é "uma parceria que tem sido manifestamente desaproveitada, por uma diversidade de razões e que retém ainda hoje a capacidade de colocar o Brasil como o grande interlocutor da Europa para a América do Sul".

Quanto às relações bilaterais entre os dois países, o ministro realçou que se acentua "neste contexto de perturbação mundial, a sensatez de uma característica central partilhada pelas políticas externas brasileira e portuguesa, que é a intensa participação em múltiplos quadros multilaterais, no reconhecimento da imprescindibilidade do multilateralismo, da cooperação internacional e de uma ordem mundial baseada em regras".

"Portugal encontra-se com o Brasil em cada pilar da política externa portuguesa. Somos atlânticos, somos ibero-americanos e somos lusófonos", afirmou.

Na dimensão atlântica, "Portugal e o Brasil estão unidos por um oceano ao qual reconhecemos relevância crescente, no quadro de desafios novos, complexos e verdadeiramente existenciais", referiu.

Segundo João Gomes Cravinho "uma parte desses desafios pode encontrar resposta no Atlantic Centre, instituição da qual Portugal e o Brasil são cofundadores" e "uma outra parte dos imensos desafios oceânicos será trabalhado em profundidade na grande Cimeira dos Oceanos", que Lisboa acolhe durante a próxima semana.

"Em qualquer dos âmbitos, novas perspetivas se abrem para a relação luso-brasileira", realçou.

Já no plano da Iberoamérica, o ministro considerou que Portugal e o Brasil partilham um "vasto espaço estratégico com os países de língua castelhana, onde se aconselha sem dúvida uma reflexão conjunta luso-brasileira quanto ao potencial de aproveitamento de oportunidades e geração de sinergias".

"O valor da CPLP [Comunidade de Países de Língua Portuguesa] tem vindo a tornar-se cada vez mais reconhecido internacionalmente - e prova disso é o número cada vez maior de Estados que se tornam observadores associados" da organização, considerou.

"Porque querem interagir connosco e reforçar o valor dos laços linguísticos, culturais e históricos que unem a lusofonia e que criam dinâmicas únicas para o relacionamento com terceiros", frisou.

Mas também neste plano, defendeu que urge encontrar "a convergência de visões e vontades" que "permite potenciar" as nossas "realidades separadas".

O ministro referiu ainda que "apesar do hiato imposto pela pandemia", Portugal tem "hoje uma verdadeira ponte aérea" com o Brasil, composta por mais de 74 voos semanais da TAP, sendo esta causa e consequência de "uma dinâmica que renova e reinventa" o relacionamento entre os dois países.

Essa dinâmica, segundo Gomes Cravinho, também se reflete nas relações económicas e comerciais.

Por isso, "o Brasil é o primeiro mercado latino-americano para as exportações de bens portugueses e é já o quarto maior destino de exportação de mercadorias (fora da UE)".

"Resta, contudo, a convicção de que o potencial está muito longe de cumprido, e que as saudades do futuro comportam visões de outro perfil para as nossas trocas, um perfil tecnológico, criativo, consentâneo com as transformações geo-económicas globais", defendeu.

Neste ponto, João Gomes Cravinho sublinhou ainda o potencial do porto de Sines, "cuja relevância estratégica, há muito notada, ganha nova saliência nos tempos conturbados que vivemos".

ATR // LFS

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