"Eu gosto muito da ideia da 'geringonça', sobretudo porque ela é um acordo com bases programáticas (...) Acho que seria de muito bom grado [positivo] poder ter isto como uma referência para a construção de uma unidade da esquerda programática no Brasil", afirmou Guilherme Boulos, em entrevista à Lusa.

Boulos lembrou que o sistema político brasileiro é diferente do semipresidencialismo português. Mas "a ideia de construir um acordo programático, para definir uma frente eleitoral é uma ideia que nos atrai bastante e, obviamente, temos conversado com os partidos de esquerda".

Falando sobre a representatividade das siglas de esquerda, que saíram fragilizadas em 2018 quando elegeram um número limitado de representantes no Congresso e perderam as presidenciais para a extrema-direita representada por Bolsonaro, que depois também não tiveram grande sucesso nas eleições municipais disputadas em 2020, Boulos considerou que o cenário está a mudar.

"A razão [para a possível ascensão das esquerdas] é justamente a situação que Bolsonaro colocou o Brasil. muita gente foi com Bolsonaro em 2018, não estou falando dos setores políticos, estou falando do povo, das pessoas que votaram em Bolsonaro, com um certo desejo de mudança e viram o que deu. Estão sentindo na pele o que deu", disparou Boulos.

"O Brasil está num dos seus piores momentos económicos, a desigualdade se amplia, a vida do povo piora a cada dia. A agenda da esquerda que é uma agenda de garantia de direitos, que é uma agenda de combate às desigualdades sociais, hoje tem mais eco e mais força do que teve há dois ou quatro anos atrás", conclui.

Para que haja uma mudança no país, Boulos apelou também à renovação da esquerda nas presidenciais de 2022 e a um debate sobre o modelo de desenvolvimento, num momento em que o ex-Presidente Lula da Silva parece ser o representante desse setor ideológico.

Em entrevista à Agência Lusa, Guilherme Boulos, um dos dirigentes mais destacados do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), considera que "a esquerda [no Brasil] tem hoje um desafio, que é o desafio de se renovar. A esquerda tem o desafio de debater seriamente um outro modelo de desenvolvimento que não seja simplesmente olhar par atrás e dizer 'vou fazer de novo'. Isto não dá conta".

Um dos novos expoentes da corrente progressista brasileira, o político defendeu mudanças, citando nomeadamente o debate ambiental que tem prejudicado a imagem internacional do país ao ser questionado sobre críticas feitas à Lula da Silva e alguns partidos associados à esquerda.

"Nós temos debatido isto muito a fundo no Psol [Partido Socialismo e Liberdade]. A necessidade de um modelo de desenvolvimento que leve em conta a redução das emissões de carbono, se adequando as metas do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima] para chegar as metas de carbono zero, estamos acompanhando com muita atenção a COP-26 e todos os debates em torno disto", destacou Boulos.

Questionado se apoiará Lula da Silva, provável candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2022 e que lidera todas as sondagens de intenção de voto publicadas no país, Boulos respondeu que seguirá as orientações do seu partido.

"Política a gente não faz sozinho. Faço parte do Psol, sou uma liderança do Psol. Estou construindo uma posição coletiva dentro do meu partido. Defendo a unidade do campo progressista para derrotar Bolsonaro em 2022 e tirar o Brasil deste pesadelo", declarou.

"Nós queremos também discutir com o Lula [da Silva] qual o programa que vai ser defendido. Não basta só tirar o Bolsonaro. Temos que derrotar o projeto do Bolsonaro, temos que derrotar o 'bolsonarismo'. Precisamos derrotar uma agenda económica neoliberal que está humilhando o povo brasileiro, uma agenda ambiental devastadora do Governo Bolsonaro, derrotar o que o 'bolsonarismo' representa como política de ódio", acrescentou.

Segundo o jovem líder, de 39 anos, que pretende lançar-se como candidato ao governo regional do estado brasileiro de São Paulo, há necessidade de um debate programático de seu partido com o PT e com o Lula da Silva antes de declarar apoio ao ex-governante.

Boulos, que defendeu Lula da Silva em Portugal em 2018 quando convocou uma frente internacional em favor da libertação do ex-presidente - à época estava preso e era acusado de corrupção no âmbito das investigações da operação Lava Jato -, negou declarar apoio pessoal nas presidenciais.

"Não existe apoio pessoal, não tenho apoio pessoal a ninguém. Sou uma liderança política que faço parte de um partido e as minhas posições serão também orientadas pelas posições do partido", afirmou.

CYR // PJA

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