"É um ato de uma cambada, dos que executaram o despejo, sem a mínima sensibilidade. Mas a responsabilidade primeira está com o senhor primeiro-ministro que tomou esta decisão de despejo", afirmou José Ramos-Horta, em declarações à Lusa.

"O primeiro-ministro e os restantes governantes conhecem este grupo, que anima centenas de jovens, que dá telhado a centenas de jovens, que lhe permite alguma expressão livre de arte e que enriquece a vida cultural deste país", considerou.

Ramos-Horta, principal rosto do braço diplomático da resistência à ocupação indonésia de Timor-Leste, considerou lamentável e incompreensível que o grupo artistico tenha sido expulso do local onde estava há 18 anos, para entregar o espaço aos veteranos da luta.

"Os veteranos, desde 2007 ou 2008 receberam quase mil milhões de dólares. Números oficiais. Por amor de Deus, é preciso ir assaltar a casa de um grupo de artistas pobres e que nunca recebeu apoio do Governo? Não é possível arranjar outro lugar para os veteranos", questionou Ramos-Horta.

"O Governo deu supostas alternativas à Arte Moris, mas eram totalmente inaceitáveis, com condições miseráveis", enfatizou.

José Ramos-Horta disse que esta decisão volta a penalizar a comunidade artística, que já viveu sem apoios até agora, e a juventude do país, acabando por afetar a credibilidade do executivo.

"Já perdi toda e qualquer ânimo com este Governo. O primeiro-ministro permite e tolera um assalto destes?", disse.

"Isto provoca danos ao Governo, é muito mau para a credibilidade do Governo e vai custar caro", afirmou.

Ramos-Horta reagia à decisão do Governo timorense executar hoje uma ordem de despejo administrativo do maior grupo artístico e cultural timorense, a Arte Moris, atirando para a rua dezenas de obras de arte, incluindo da coleção permanente.

"Veio uma equipa da Direção de Terras e Propriedades, escoltada pela polícia, com uma ordem de despejo administrativo. Disseram-nos que era a decisão final e que não havia mais negociações", disse à Lusa Iliwatu Danabere, diretor executivo da Arte Moris, organização que o Governo expulsou para dar o espaço ao Conselho dos Combatentes da Libertação Nacional (CCLN).

Durante a ação de despejo de hoje, as autoridades retiraram dezenas de obra de arte do interior do complexo -- que foi museu provincial durante o tempo de ocupação indonésia de Timor-Leste e que a Arte Moris utiliza há mais de 18 anos.

Questionado sobre a importância que as autoridades dão ao setor artístico e cultural e aos jovens timorenses, Danabere disse que a ação de despejo de hoje "fala por si".

"Pensei que com todas as negociações, iríamos chegar a uma boa solução, mas com esta ação mostram que nós e a minha organização não têm qualquer valor ou qualquer importância", afirmou.

O coletivo Arte Moris envolve mais de 100 pessoas, incluindo artistas plásticos e elementos da organização Tertil, de teatro, e de pelo menos cinco grupos musicais, incluindo o Galaxy e o Klamar, dois dos mais famosos de Timor-Leste.

O despejo ocorre depois de vários meses de silêncio das autoridades timorenses e após tentativas de negociações da direção da Arte Moris, que em julho recorreu junto do Ministério da Justiça pela decisão de expulsão do local.

Esse recurso respondeu a uma ordem de desocupação remetida ao coletivo pelo Ministério da Justiça no passado dia 08 de julho.

A polémica começou em 2020 quando a Arte Moris soube pela imprensa que o espaço, que serve de 'casa' ao projeto desde 2003, em Comoro, Díli, ia ser entregue ao CCLN, cujo presidente, Vidal de Jesus Riak Leman, disse ter sido informado da decisão pelo primeiro-ministro, Taur Matan Ruak.

A decisão foi tomada pelo primeiro-ministro, Taur Matan Ruak, tendo suscitado críticas de vários dirigentes timorenses.

 

ASP // ZO

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