Catarina Morais vive na Índia e conta o que por lá se passa: “A importância das eleições é maior do que o problema do vírus”. Foto cedida por Catarina Morais ao SAPO

Está a colaborar numa fundação que trabalha na área da saúde mental. Quais são os principais problemas identificados na sociedade indiana? O que tem feito a fundação nessa área?

A fundação foi criada recentemente, chama-se Vazhai Foundation. Fica no sul da Índia, no estado de Tamil Nadu.

A chegada da pandemia dificulta o nosso trabalho. Recolhemos as pessoas que vivem na rua, que têm este problema. Estas pessoas são abandonadas pelas famílias devido ao estigma relativamente a esta doença. Não há muita sensibilização sobre saúde mental na sociedade indiana. A fundação ainda tem uma jornada muito longa porque as famílias, a comunidade ainda não entende o objetivo do nosso trabalho.

Como é encarada a questão da saúde mental na Índia, é tabu? A religião/a crença influencia muito?

Há muitas religiões aqui na Índia, não é só a religião hindu. É tabu em todo o mundo, de formas diferentes, mas aqui é pior. Estas pessoas não têm apoio familiar, não recebem nenhum apoio das instituições. É uma realidade muito dura principalmente para as mulheres que sofrem de doenças mentais.

A falta de conhecimento sobre a doença também não ajuda. Há também uma perspetiva negativa que é transmitida de geração em geração sobre a saúde mental, a nível cultural e nas religiões. Há doentes que estão trancados e não se mostram à sociedade porque pensam que aquela pessoa doente está a ser possuída por algum espírito…

Com o aumento dos casos da COVID-19, acha que o problema vai ficar agravado?

Os números são muito alarmantes e aconteceu muito rápido, por causa das celebrações em que o próprio Presidente esteve. Milhares de pessoas sem máscaras. Chegou o momento em que os casos aumentaram… Antes, eles achavam que eram imunes ao vírus e até havia muito preconceito quanto aos estrangeiros, no início, porque pensaram que os estrangeiros traziam a COVID-19.

O problema da saúde mental vai ficar agravado e não é só por causa da pandemia, mas também por causa da falta de conhecimento da comunidade. Há uma coisa que gostaria de destacar: mesmo os médicos, psiquiatras, têm o estigma. Quando alguém tem esquizofrenia, grave, até eles mesmos acham que é outra força da natureza. Não há uma forma de separar o assunto científico da crença…

Como é que o governo tem ajudado nesta questão? Vê alguma ação real para diminuir a propagação do vírus na comunidade?

O governo não está a dar o apoio que devia dar. A sede do poder é maior e é muito tóxica. A importância das eleições é maior que o problema do vírus. Agora decorrem as campanhas eleitorais.

Os hospitais estão cheios e não há condição para receber os doentes. Há muita gente na Índia e as pessoas estão saturadas com a COVID-19. É muito triste. Há uma certa passividade da parte do governo.

A vacinação está a ser feita. As pessoas estão a tomar a vacina, mas não há quantidade suficiente para todos. Houve um investimento da parte dos privados muito cedo, mas o próprio governo investiu mais tarde e a quantidade da vacina é muito aquém do que é esperado.

Chegou à índia em janeiro 2020. Foi a primeira vez que viajou para um país tão distante? Porque escolheu a Índia?

A minha história começou no ensino secundário. Na altura sonhei com a Índia durante uma semana. Dormia e sonhava com o ambiente do país, as pessoas, os barulhos… devo ter sido indiana numa outra vida, noutra reencarnação.

Fiz três viagens à Índia. A primeira viagem foi em 2017, depois da minha licenciatura. Foi um choque porque me deparei com uma realidade diferente: mulheres jovens casadas prematuramente, com 3 ou 4 filhos… saí a chorar!

Realizei depois a segunda viagem, com 10 pessoas, da Europa para a Índia. Durante um mês consegui, com o grupo, visitar muitas instituições, falámos do empreendimento feminino e sobre a questão da empatia. Depois, trabalhei durante três meses na distribuição de comida em Rishikesh, no estado de Uttrakhand, sete dias sem descanso, era um trabalho que exigia muito de mim. Daí que senti um impulso para ajudar, para conhecer melhor a Índia noutra perspetiva, e em janeiro de 2020 decidi instalar-me neste país de mil e uma cores. A Índia abriu-me os olhos para ver outra realidade e compreender o outro.

Catarina Morais
Catarina Morais durante a distribuição da comida em Rishikesh, Índia. Foto cedida por Catarina Morais ao SAPO

Como reagiu a sua família quando decidiu ficar na Índia?

A reação não foi boa, sou a primeira pessoa da família que vive fora de Portugal. Diziam: Catarina, tens um emprego tão seguro, podias conseguir fazer isto e aquilo… mas para mim não era isto, eu queria encontrar outra coisa, ir em busca de alguma coisa mais importante, saber mais sobre outras religiões, outras culturas.

Em termos sociais/culturais, o que é que mais a surpreende na sociedade indiana?

Quando se fala sobre a Índia há muita coisa para dizer, podemos ter muitos artigos escritas sobre vários assuntos… Os estrangeiros ainda são vistos como pessoas que têm muitos meios ao nível socioeconómico. Existe aqui, infelizmente, violência contra as mulheres. A conclusão a que cheguei é que isto também tem a ver com a educação, tem a ver com a política governamental. Gosto muito da Índia, mas como mulher há muita coisa que me deixa com um pé atrás.

Quando cheguei aqui senti uma coisa que queria destacar: a cor da pele. Como sou branca, tenho mais oportunidades em entrar ou em fazer algo. Posso ter muitas portas abertas porque sou branca, o que aqui é considerado racismo. Tenho de andar com calma, com muita precaução, mas consigo lidar com os indianos e as indianas. Há coisas que são complicadas.

Gostaria também de dizer que são pessoas calorosas, têm tempo para se sentarem juntos a conversar.

Há algum momento marcante que tenha vivenciado e diferente do que está habituada no mundo ocidental?

Há muita dificuldade em estar integrada na sociedade, principalmente no trabalho que estou a fazer. Vejo muita desigualdade social.

Positivamente, vejo, várias vezes, nas ações das gerações mais velhas, preocupação com o futuro dos jovens. Por exemplo, um pai que quer investir no futuro do filho. Isto é muito bonito… É um ato que me surpreendeu na Índia. Fez-me pensar muito…
É um país sobrepovoado e a educação ainda só chega a uma percentagem das pessoas.

Catarina Morais
Foto cedida por Catarina Morais ao SAPO

Qual é o seu sentimento agora, estar inserida e a conviver dentro de uma comunidade que é muito diferente de Portugal?

Neste momento, estou a aprender sobre as religiões que existem na Índia. Sinto-me feliz aqui, mas não vou ficar para sempre na Índia.

Em geral, estou a atravessar uma situação complicada com a pandemia, longe da família, tenho saudades, claro! Estou há um ano e meio sem ver a minha família. Sinto uma sensação de voltar as minhas raízes porque também me sinto um pouco perdida.

Encaro este período como uma lição de vida. A nível pessoal e também a nível profissional é muito recompensador. É muito complexo de perceber como a sociedade funciona. Tenho muitos amigos indianos, mas há sempre uma “desconfiança” ou não há muita abertura. As pessoas no sítio onde estou são muito calorosas.

A pandemia deu volta aos seus projetos iniciais, mas mesmo assim decidiu ficar na Índia. Quais são os planos que tem agora?

Fui atrás dos meus sonhos. A pandemia deu a volta aos meus projetos, sim. Felizmente, há outras portas que se abriram durante este período. Agora, trabalho numa fundação que se dedica à área da saúde mental e, além disso, estou a trabalhar também na indústria cinematográfica. Tenho formação em teatro.

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