
A leitura dos resultados do encontro de Putin e Trump no Alasca sugerem que a situação geoestratégica envolvendo a Ucrânia se encontra num maior estado de expectativa e até de perturbação. A Europa deparou-se com um verdadeiro balde de água fria e uma reação adequada impunha-se. Finalmente assiste-se a uma expressiva e mais categórica intervenção por parte dos líderes europeus que fizeram questão de acompanhar e apoiar o presidente ucraniano a Washington no passado dia 18 de agosto, deixando claro, que o que importa extravasa em muito a independência da Ucrânia. Representa muito mais do isso. Realmente é a própria arquitetura de segurança europeia e a preservação da ordem mundial liberal, baseada em regras, que estão em jogo.
A Europa não está definitivamente disposta a trocar a força da lei pela lei da força. Isto é, não pretenderá mergulhar num regresso fatídico à ordem mundial reinante antes da Segunda Guerra Mundial e isso mesmo asseveraram os líderes europeus na última reunião na Casa Branca. O cerrar de fileiras por parte dos mais altos responsáveis europeus em torno da causa ucraniana é um facto insofismável, uma evolução na continuidade, agora finalmente retratada sem ambiguidades.
Se a Oeste se assiste a mudanças e clarificações positivas, rejeitando qualquer tipo de projeto de paz precária, a Leste podemos dizer que, por oposição, nada de novo acontece. O senhor do Kremlin continua igual a si mesmo. Persiste em exigir a entrega de territórios que não conseguiu sequer anexar, impõe o fim de uma Ucrânia soberana e independente e, no seu lugar, o estabelecimento de um Estado fantoche, em tudo semelhante à Bielorrússia, servindo de trampolim para o próximo salto em frente: a ameaça à Europa e a tentativa de continuar a recuperar as antigas esferas de influência adstritas à ex-URSS. A ambição de Vladimir Putin parece não ter limites. Agora a Ucrânia, depois os países bálticos e a seguir quiçá, “a cereja no topo do bolo”, a suprema ambição já verbalizada por Medvedev, concretamente o estabelecimento de uma unidade geopolítica delimitada pelas fronteiras geográficas da Eurásia. Isto é, de Vladivostok a Lisboa.
Neste momento crítico, perante a visível incompatibilidade das posições de Moscovo e de Kiev, várias opções se podem descortinar no âmbito da ação político-diplomática de Donald Trump. Idealmente, uma delas e que muitos de nós apreciaríamos seria uma “mudança clara de agulha”. Ou seja, que o presidente norte-americano se tornasse finalmente, pelo menos, tão exigente e pressionante com o ditador e agressor russo, quanto o tem sido com o presidente do país agredido, a Ucrânia. De uma vez por todas, colocasse em marcha as tão propaladas sanções secundárias que, originassem um maior enfraquecimento da já depauperada economia russa e assim, compelisse Putin a negociar de forma séria com a Ucrânia e que daí resultasse uma paz justa e duradoura. Como consequência a Ucrânia manter-se-ia soberana e independente. A Europa voltaria a ser um lugar definitivamente mais seguro e Donald Trump, como tanto ambiciona, acabaria no caminho certo para o Prémio Nobel da Paz. No domínio interno a sua popularidade cresceria – mesmo em contraciclo com o movimento MAGA – e o resultado das próximas eleições intercalares, as denominadas midterms, poderia traduzir-se num verdadeiro sucesso. Será que Trump vai finalmente espremer o seu amigo Vladimir? Ou o conhecido fetiche das duas semanas de que ele novamente fala mais não serão do que palavras vãs? Neste instante assalta-me o pensamento a fábula do “Pedro e o Lobo”, tantas têm sido as promessas infundadas. Findo o prazo das habituais duas semanas, mais uma vez, nada acontece!
Outra opção resultaria diretamente da impossibilidade da Rússia e da Ucrânia chegarem a um acordo. Esta talvez a modalidade de ação mais provável face à já aludida incompatibilidade de posições dos dois contendores e ao alegado afastamento da mediação norte-americana. De momento Trump, tem vindo a declarar que não pretende intermediar o encontro bilateral entre Putin e Zelensky. Perante esta eventualidade, claro que a guerra prosseguirá. A Ucrânia a defender o que é seu por legitimo direito, a atacar o sistema logístico russo, como tem vindo a fazer eficazmente nos últimos tempos. A Rússia visando indiscriminadamente alvos militares e civis, cometendo horrendos crimes de guerra e aproveitando o que que resta do verão para conquistar mais algumas aldeias, perdendo centenas de milhares de combatentes. Perante tal situação e a impossibilidade física de intermediar um qualquer acordo, a reputação do presidente norte-americano ver-se-ia fortemente abalada e a sua fama de construtor da paz diminuída. Os ecos do campo de batalha, noticiando diariamente os indescritíveis crimes de guerra perpetrados nas cidades e planícies da Ucrânia terão, no domínio interno, um custo político elevado para Trump. Na vertente externa a liderança dos EUA continuaria a ser amplamente criticada e até por muitos ridicularizada. Outros conflitos poderiam eclodir noutras paragens face a esta visível incapacidade de Trump de lidar com eles. Digamos que a “caixa de pandora” se poderia abrir em definitivo já que nesta situação, o crime passaria a compensar e a culpa morreria mesmo solteira.
E que outras possibilidades mais poderemos equacionar? Desde logo a hipótese da Ucrânia ser compelida a aceitar condições de uma paz podre e dando a Putin um triunfo de que se possa vangloriar internamente. A verificar-se tal circunstância estaríamos perante uma clara manobra diplomática de apaziguamento e dentro de algum tempo Moscovo voltaria à carga surgindo revigorada, tentando desta feita conquistar definitivamente a Ucrânia.
Tal conjetura não parece muito viável. A Ucrânia está militarmente mais forte. O seu complexo militar industrial não para de nos surpreender pela positiva. As últimas informações dão conta que que já dispõe de mísseis de cruzeiro de longo alcance. Através do “Flamingo” as Forças Armadas ucranianas adquirem, finalmente, capacidade autónoma para atingir com eficácia a profundidade do dispositivo militar russo. Ora sendo este míssil de cruzeiro “FP-5-Flamingo” capaz de percorrer distâncias até 3.000 quilómetros, transportar cargas explosivas até 1150 quilogramas de explosivos, voar a velocidades da ordem dos 850 a 900 quilómetros por hora, ser imune à maioria das ações de guerra eletrónica do adversário e atacando alvos com uma precisão de até 14 metros, poderemos estar, definitivamente, perante um verdadeiro game changer. A sua produção em série já se iniciou e o número de mísseis desta natureza produzido mensalmente será muito em breve de sete mísseis por dia. Esta como outras armas de longo alcance produzidas localmente revelam-se de importância crucial no que respeita à estratégia de defesa da Ucrânia, uma vez que os seus aliados têm sido algo lentos, hesitantes e até mesmo algo medrosos. Armas como esta dotam a Ucrânia de uma nova capacidade e podem, num futuro próximo, mudar os ventos da fortuna a favor de Kiev.
Em suma, Trump ainda tem tudo nas suas mãos. Pode pôr em prática o que Putin mais receia: respondendo com um rotundo não às exigências ilegítimas do “novo czar” russo, impelindo-o a celebrar um acordo justo e viável com Zelensky.
Ao presidente norte-americano exige-se firmeza e que esteja definitivamente à altura dos desafios enquanto líder da maior potência mundial. Não são apenas os ucranianos que esperam que finalmente Trump se coloque do lado certo dos ventos da história. Todos nós, no Ocidente europeu, estamos visivelmente em suspenso esperando justamente o mesmo.
Caso Trump ainda obtenha a paz na Ucrânia sem cedências dos seus territórios, certamente que seria, sem favores, um justo vencedor do Prémio Nobel da Paz.
Major General