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O 15 de agosto no Alasca: desafios para a ordem internacional

Tanta deferência para receber um alegado criminoso de guerra, a quem ninguém, nem mesmo Donald Trump, parece fazer parar nesta sua obsessão czarista de restaurar a velha grandeza da Mãe Rússia. E alguém saiu vencedor?
O 15 de agosto no Alasca: desafios para a ordem internacional
Donald J Trump e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, na Casa Branca, seguidos pelo presidente da CE, Ursula von der Leyen, primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, presidente finlandês, Alexander Stubb, presidente francês, Emmanuel Macron, primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, chanceler alemão, Friedrich Merz e secretáro-geral da NATO, Mark Rutte. EPA/AARON SCHWARTZ / POOL

Como tenho vindo publicamente a referir, a reunião de sexta-feira, 15 de agosto, entre Donald Trump e Vladimir Putin, correu bem, pois pelo menos para os lados do Kremlin desenrolou-se de acordo com o que estava previamente planeado e programado. Para a casa Branca subsistem dúvidas. Porque, a ter sido igualmente um sucesso, então estaríamos perante uma extraordinária encenação ao nível do que de melhor se produz em Hollywood. Nada faltou, desde o palco sobrelevado até à passadeira vermelha. Tanta deferência para receber um alegado criminoso de guerra, indiciado pelo Tribunal Penal Internacional a quem ninguém, nem mesmo Donald Trump, parece fazer parar nesta sua obsessão czarista de restaurar a velha grandeza da Mãe Rússia.

Algum dos interlocutores saiu vencedor? A esta pergunta de um milhão de dólares, a que inúmeros analistas pelo mundo inteiro já deram resposta, também eu me proponho responder. Desde logo, Putin saiu decerto vencedor. Conseguiu praticamente tudo que queria. Demonstrou ao mundo que não estava isolado ao ser recebido com honras de chefe de Estado pela maior potência mundial. De alguma forma, fez valer a justeza da sua argumentação sobre as denominadas causas profundas desta guerra e ardilosamente conseguiu voltar a ganhar tempo, protelando a aplicação de novas e sobretudo mais eficazes sanções por parte dos EUA. Além de tudo isto, não teve de anuir ao tal cessar-fogo incondicional que constituía, nada mais nada menos, o objetivo fulcral carreado pela parte norte-americana. Assim tinha sido explicitamente declarado. “Definitivamente não haverá cessar-fogo até que um acordo abrangente seja alcançado e Kiev retire completamente as suas tropas das regiões de Donetsk e Lugansk”, conforme recentemente publicado pela Reuters. Assim terá exigido Vladimir Putin.

Dmitri Medvedev, vai ainda mais longe ao dizer que, como resultado desta Cimeira do Alasca, foi restabelecido um mecanismo completo de encontros futuros entre a Rússia e os EUA ao mais alto nível.  Que o presidente da Rússia expôs pessoal e detalhadamente ao presidente dos EUA as condições russas para o fim do conflito na Ucrânia e que, pasmem-se, ao fim de quase três horas de conversações, o presidente norte-americano abdicou de aumentar a pressão sobre a Rússia. Na continuação, Medvedev asseverou que este encontro mostrou que negociações são possíveis sem o estabelecimento de condições prévias e em paralelo com a prossecução da operação militar especial na Ucrânia. Em jeito de remate, referiu que afinal o resultado mais importante desta reunião se acaba por traduzir no facto de ambas as partes atribuírem a responsabilidade direta pela obtenção de resultados futuros nas negociações, tendo em vista a cessação das hostilidades, a Kiev e à Europa.

Claro, tentar aprofundar, ainda mais, a divisão entre os EUA e a Europa continua a ser um dos objetivos estratégicos do Kremlin. Nada que já não soubéssemos de antemão e para o qual já não estivéssemos sobejamente alertados. A culpa continua a ser, afinal, do agredido e dos malvados europeus! Trump quer de facto a paz, a paz pela capitulação da Ucrânia, uma paz podre, precária e geradora de mais conflito. Como referi no meu artigo anterior o fantasma de um novo acordo semelhante ao desastre de Berlim de 1938 continua a pairar sobre a Europa. Trump, como Neville Chamberlain, Benito Mussolini e Edouard Daladier, parece também hoje querer uma paz a qualquer preço. Se assim for, terá a Guerra, exatamente como disse Winston Churchill, a Chamberlain: “Quiseste a paz nestas condições, em vez disso terás a guerra.” E assim foi.

E quanto a Trump? Terá saído perdedor? Se atentarmos aos objetivos por ele declarados para esta reunião, aí diria que saiu completamente derrotado, tamanha foi a humilhação. As imagens falam por si. Desde soldados americanos filmados a estender metros sem fim de tapete vermelho para o senhor do Kremlin até à forma completamente desajeitada como articulou o seu discurso final na conferência de imprensa conjunta com Vladimir Putin. Amadorismo puro e duro, conseguiu falar sem praticamente nada dizer, tal era o embaraço. Mostrou um semblante algo carregado, retratando-se a sim próprio como alguém que acabou de ser derrotado sem apelo nem agravo – e não sabia como o esconder. Toda a sua expressão corporal e facial mostrava que estava visivelmente incomodado. No fundo, ele percebia que tinha sido completamente manipulado por Putin. Lamentável mesmo. O homem mais poderoso do mundo a dar de si próprio uma imagem de autêntica marionete nas mãos do seu querido amigo Vladimir.

Desta vez, um Trump algo incomodado não conseguia, como pretenderia, o dois em um. Afinal. Putin não se havia vergado às suas exigências e a si próprio mais não restava senão mostrar ao mundo que ainda havia uma esperança de se chegar à paz. Mais uma vez. tudo estava nas mãos do grande vilão ausente, Zelenskyy, que se apressou a convocar para Washington, logo na segunda-feira seguinte. Quanto aos outros objetivos fixados por Trump para esta reunião, muito provavelmente tudo indica que terão sido atingidos e se assim foi, em boa verdade, então Trump não terá saído totalmente de mãos vazias, terá eventualmente alcançado alguns objetivos no domínio pessoal e económico.

A verdade é que as velhas rivalidades não se extinguem ao estalar dos dedos. “Sem disparar um tiro, não precisamos invadir os EUA. Vamos destrui-los por dentro.” Palavras de Nikita Khrushchev, primeiro-ministro da URSS, a 11 de agosto do longínquo ano de 1956. De facto, este vaticínio há muitos anos enunciado por este dirigente soviético parece estar infelizmente a realizar-se. As implicações, essas, extravasam em muito as fronteiras geográficas dos EUA, terão uma influência nefasta sobre a ordem internacional liberal baseada em regras e por conseguinte sobre aquele que será o nosso futuro. O mundo regulado por regras comummente aceites, sobrepondo-se à força, poderá estar mesmo a chegar ao fim. Um mundo regulado pela lei do mais forte aparenta encontrar-se já ao virar da esquina, e esta cimeira do Alasca, tudo indica, veio acelerar este momento de viragem.

Tenhamos esperança e que o sentido de justiça de alguns venha a imperar sobre as ambições individuais de outros como Donald Trump. O seu desejo de ser o próximo laureado com o Prémio Nobel da Paz — o tempo urge, dia 10 de outubro é a data do respetivo anúncio —,  acompanhado da sua vontade de efetuar negócios lucrativos para os EUA e para si próprio, fazem da Ucrânia tão somente um mero peão, neste intrincado jogo de xadrez. Pior ainda, não sendo eu propenso a aceitar de ânimo leve e como verdadeiras teorias da conspiração, neste momento terei no mínimo de considerar se afinal Trump não será de facto o tal amigo do peito da Rússia e do seu indefectível Vladimir, a quem tanto gosta de dar palmadinhas carinhosas nas mãos. Mais que lamentável, é mesmo muito perigoso.  Por isso e de momento, justo será dizer que "os EUA não são de confiar", tantas ameaças e tanta retórica afirmando que seriam impostas severas sanções se o senhor do Kremlin não mostrasse vontade de pôr fim à guerra. No final, nem um cessar-fogo, nem uma mera trégua! Paira a dúvida, mais do que lícita, de saber se a Casa Branca e o Kremlin não terão feito um qualquer pacto secreto.

Objetivamente e parafraseando Erich Maria Remarque, a Leste nada de novo, infelizmente, e mais uma vez "a montanha pariu um rato". Para além de ter normalizado o ditador do Kremlin, acabou por ridicularizar a diplomacia.

A Europa sim, está a dar sinais claros de que não esquece Munique 1938, e que uma paz precária conduz a uma guerra mais violenta e mortífera. Desta vez, segunda feira, 18 de agosto, Zelenskyy não esteve sozinho na Casa Branca e uma nova humilhação foi habilmente evitada.

Infelizmente, o executivo norte-americano, mais uma vez inebriado pela sensação de invencibilidade, parece ter esquecido irreversivelmente Pearl Harbour e o 11 de Setembro. Melhor será pôr-se, de uma vez por todas, do lado certo da História e não os esquecer. Poderá sair-lhe muito caro.

Major General//Escreve semanalmente no SAPO, à sexta-feira

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