Continuamos a perder biodiversidade a um ritmo nunca antes visto na História, informou recentemente a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), o tratado internacional multilateral que trata da protecção e do uso da biodiversidade em cada país signatário. Só no ano de 2019, três espécies vegetais e animais foram varridas do planeta a cada hora que passou. O compromisso de 2002, assumido por 193 estados-membros das Nações Unidas, de reduzir significativamente as perdas de biodiversidade até 2020, foi um rotundo falhanço.

A pergunta que se impõe é a seguinte: que consequências isso terá para todos nós? O problema é que muitas economias permanecem cegas quanto ao enorme valor da diversidade de animais, plantas e outras formas de vida e o seu papel na manutenção da saúde e funcionamento do mundo como o conhecemos. É preciso acabar com a invisibilidade do valor económico da natureza. Sobre este tema, que raramente chega à opinião pública, aconselho que vejam o imperdível documentário do David Attenborough “Uma Vida no Nosso Planeta”, disponível na Netflix. Ele explica como ninguém a obrigação que os países deveriam ter de proteger a biodiversidade enquanto bem comum, e o dever dos cidadãos de pressionarem, através das suas escolhas, governantes e empresas a agirem de forma sustentável.

O que David Attenborough faz é colocar o dedo na ferida. Ele sublinha claramente que a grande maioria das empresas age unicamente em função do lucro, sem perceber que a sua actividade depende e tem impactos directos e indirectos na biodiversidade, e que as alterações ocorridas nos ecossistemas representam risco, mas também oportunidades para os negócios. A realidade é que as empresas não só terão de pagar para substituir e proteger os serviços que até aqui a natureza prestava de graça, como também terão custos provenientes de instrumentos legais, como impostos sobre poluição ou aumento dos prémios de seguros.

A questão que é preciso colocar, uma e outra vez, enquanto tivermos voz, é a seguinte: qual o valor da natureza? Só conseguiremos proteger a biodiversidade se demonstrarmos, com clareza matemática, o seu valor económico, recorrendo a uma linguagem que políticos e empresários entendam bem. Como chamada de atenção, o aclamado relatório TEEB, estudo independente liderado por Pavan Sukhdev, elaborado pela iniciativa “A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade”, sediada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, de 2010 (sim, de 2010!) calculou os danos causados à biodiversidade pelas actividades humanas. Nesse ano, o valor variava entre 1,5 triliões e 3,4 triliões de euros. A polinização foi um dos exemplos usados para salientar o valor dos serviços prestados pela biodiversidade. O Departamento de Agricultura norte-americano estimou em 15 mil milhões de dólares (cerca de 12,3 mil milhões de euros) o custo para os agricultores do declínio de abelhas no final da primeira década do século XXI. Segundo o relatório TEEB, o valor global dos serviços de polinização prestados por este insecto ascendem a 145 mil milhões de euros.

No século passado as empresas e os agentes económicos apenas cumpriam as normas a que estavam obrigados. Não tinham consciência de que o consumo de recursos naturais era superior à capacidade de auto-regeneração do planeta. Mas hoje essa consciência é claríssima. Vivemos um período de transição em que se começa a quantificar a biodiversidade – e a protegê-la. Uma das metas a nível mundial é aumentar dos actuais 12% de área protegida terrestre para 17%, até final deste ano. Em igual período a superfície das áreas protegidas marinhas deveria crescer de 1% para 10%. Mas restam muitas dúvidas de, na recta final do ano, que isto se cumpra.

Uma das questões em aberto é o financiamento aos países mais pobres para que eles protejam a biodiversidade. Porque é que não se atribui um valor financeiro ao carbono armazenado nas florestas, por exemplo, com o objectivo de incentivar os países em desenvolvimento a explorarem-nas – as florestas em alguns casos são o único sustento das populações – de maneira sustentável?

Se nos países em desenvolvimento é a falta de recursos que compromete a conservação da biodiversidade, nos países ricos é, frequentemente, a falta de vontade política. Se mostrarmos que os ecossistemas têm valor, não corremos o risco de reduzir a natureza à sua utilidade? Sim, corremos. Talvez por isso esta aproximação da economia à ecologia não tem sido bem vista por alguns ecologistas, que receiam que a tomada de decisões venha a ser feita com base em critérios económicos e não ecológicos. Outros, pelo contrário, argumentam que o facto de não ser atribuído um valor económico à biodiversidade pode fazer com que não lhe seja reconhecida importância.

Dou por mim a pensar quanto valerá o uso directo dos ecossistemas – madeira, caça, turismo? E quanto representará a sua função ecológica – fotossíntese, protecção contra a erosão e todos os benefícios ainda desconhecidos da biodiversidade, como a descoberta de novas substâncias para o tratamento de doenças? Dou um exemplo: sabemos qual o papel determinante que os pinhais da zona litoral centro de Portugal desempenham na fixação das areias e protecção dos ventos salgados. Mas como quantificar verdadeiramente este “serviço” que a natureza nos presta? Há quem defenda uma forma simples de o fazer – o valor a encontrar deveria ser dado pelo que teríamos de despender na construção de uma estrutura que oferecesse os mesmos benefícios. A mim parece-me lógico.

Se vivemos num mundo em que tudo tem um preço, é ou não razoável perguntar quanto custa a biodiversidade? E não sejamos ingénuos: o valor da biodiversidade não reside apenas na beleza de uma paisagem ou na manutenção de espécies em vias de extinção. Vai muito mais além. Porque a nossa sobrevivência neste planeta depende da sua conservação.

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