Pois foram justamente estes pré-fabricados que me renderam o título, imerecido, de “melhor cozinheira do mundo”. É certo que o meu crítico gastronómico ainda trocava as letras quando me fez o elogio, mas e então? Filhos, quando são pequenos, são mesmo assim. Vêem o nosso melhor, ainda que para isso tenham de inventá-lo.

Mas em algum momento não há como fugir: os filhos trocam a admiração fácil pela observação crítica dos nossos comportamentos e estilos de vida. Um dos tantos sinais embaraçosos dessa mudança é a pergunta inevitável: “Nós somos pobres ou ricos?”. Quando tinha oito anos, a minha filha fez-me esta pergunta, porque uma colega da escola lhe havia dito com uma pitada de malícia: “Tu és pobre porque não tens televisão no quarto”.

Este episódio singular serviu-me como pretexto para falar com as crianças sobre o dinheiro, as prioridades, a racionalidade das decisões. E percebi claramente que responder a esta pergunta aos nossos filhos (nós somos pobres ou ricos?) é uma óptima oportunidade de ensinar-lhes que os gastos têm limites. Já agora, educação financeira pode lançar a semente para uma geração de consumidores mais equilibrados.

Os meus filhos são uns privilegiados – porque têm tudo o que precisam e, bem vistas as coisas, porque não têm muito mais do que precisam. Desde pequenos que fiz um grande esforço para que percebessem o que é importante na vida e que há escolhas a fazer. As coisas custam dinheiro e o dinheiro custa a ganhar e por isso, muitas vezes, é preciso decidir se se se quer A ou B. Fiz também um esforço considerável para que não se transformassem em jovens fúteis e exigentes, reféns dos bens materiais, com as prioridades descarriladas. Sem falsas modéstias, acho que consegui.

Sempre defendi, e procurei pôr em prática, que deve haver um intervalo entre desejarem algo e receberem-no, porque há um perigo de adquirir coisas sonhadas com demasiada facilidade. Por vezes não conseguimos apreciar um objecto porque a posse física é de tal forma fácil que lhe retira a beleza. Imaginemos uma peça de roupa que ambicionamos muito. Há uma posse através da imaginação – pensar nos pormenores do vestido, nas dobras do tecido, na delicadeza das linhas. Melhor do que o vestido que queremos comprar, há o desejo desse vestido, que cria uma ligação emocional à coisa desejada.

Se tivesse dado aos meus filhos tudo o que pediram em determinada altura da vida, mesmo que o pudesse ter feito, sei que isso seria uma espécie de maldição. Sim, eles seriam amaldiçoados pela rapidez com que o dinheiro lhes permitiria concretizar os desejos. Não teriam tido a oportunidade de sofrer o intervalo entre o desejo e a sua concretização. Entre a ambição e a posse. Apesar de aparentemente desagradável, tem o valor incalculável de permitir às pessoas conhecerem e apaixonarem-se profundamente por um vestido…

Claro que os meus filhos, ao contrário de uma quantidade inacreditável de crianças, só experimentam a privação voluntária ou de forma provisória – não sabem o que ela é. Num mundo em que há pessoas tão pobres que, nos seus países, vendem os rins para alimentar os filhos, falar de educação financeira até parece insolência de gente favorecida.

Mas julgo que este tema é importante, porque ajudará a formar os consumidores de amanhã, e o consumo, todos sabemos, tem tudo a ver com a sustentabilidade do planeta. É preciso que as crianças tenham noção de que o orçamento lá de casa não é um saco sem fundo. Os pais desempenham um papel não apenas como educadores, mas como exemplo. Se os mais velhos adoptarem uma relação abusiva com o consumo, o mais natural é que os filhos sigam o mesmo caminho.

Pensar que este é um tema que só aos adultos diz respeito é tão errado como acreditar que os mais novos não têm capacidade para compreender o valor das coisas. Quando eles começam a pedir uma moeda é a altura ideal para explicar o que é o dinheiro. E quando chegam aos seis ou sete anos já podem começar a receber uma pequena quantia, que os responsabilize e lhes permita ensaiar a gestão do seu próprio dinheiro. Não tenho dúvidas: a semanada, primeiro, e a mesada, mais tarde, são excelentes ferramentas para a educação financeira. Mas entregar dinheiro aos filhos não significa apenas isso – acarreta responsabilidade e disciplina dos pais, que devem saber exactamente a mensagem que querem passar com esta decisão. Ainda que nem sempre seja fácil, é preciso que os adultos sejam firmes, e perante uma situação de desperdício ou de abuso saibam responder com um taxativo “não”. Ultrapassada esta fase, será mais fácil explicar por que é que aquele telemóvel topo de gama terá de continuar na montra da loja.

Tal como camuflar a ginástica orçamental que se faz todos os meses, pensando que se está a proteger as crianças, também não me parece uma boa estratégia. Há pouca partilha entre pais e filhos quando se trata dos assuntos financeiros lá de casa. Responsabilizar e confiar são palavras-chave na educação financeira dos mais jovens. As crianças devem conhecer o outro lado da questão; o rendimento dos pais não é infinito.

Consequência: é preciso fazer opções de despesa. A pobreza envergonhada que se esconde atrás da porta é, também, muitas vezes disfarçada perante os filhos. Mesmo nas classes mais desfavorecidas os pais têm tendência para fazer sacrifícios de modo a colocar os filhos ao nível dos amigos e colegas da escola. Em geral, miúdos com 15 anos não têm noção do que é um rendimento líquido associado a uma profissão, não sabem quanto custa pagar mensalmente a renda de uma casa e as despesas associadas da água, luz e gás. Um distanciamento da realidade que, acredito, é transversal às várias classes sociais.

Proporcionar o melhor aos meus filhos não passa, nunca passou, por lhes dar tudo aquilo que eles pedem. Muito embora os miúdos sejam os primeiros a excluir os colegas que não têm aquele gadget de última geração. E esta ideia de pertença a um grupo por aquisição de determinado objecto nem sequer é um sentimento unicamente infantil.

Aquilo que leva um adulto a comprar é o mesmo que seduz os mais pequenos. E não tenho dúvidas de que a maior parte das compras são emocionais. Não compramos uma peça de roupa por precisarmos dela, mas porque somos arrastados por uma carência. Na verdade, o que é que esse produto nos vai trazer? Nada daquilo que imaginamos. É apenas um produto. Continuamos a comprar em busca de uma sensação de preenchimento e satisfação que nunca chega.

Quando os meus filhos eram pequenos, procurei trabalhar com eles o conceito do “merecimento”. As pessoas acreditam, quase sempre, que merecem pouco e assim, por mais que comprem, nunca se sentirão satisfeitas pois julgam não o merecer. O dinheiro sempre foi fonte de sentimentos opostos. Basta remexer um pouco no baú de filmes de Hollywood para constatar a péssima imagem que a sociedade tem do dinheiro. Ele é sujo, corrompe, gera violência e arrogância. Mas, como a natureza humana é cheia de contradições, o encantamento pelo “vil metal” faz com que seja ele a fazer girar o mundo. Se, por um lado, não lhe queremos tocar, por outro, todos temos uma crença sobre a quantidade de amor, felicidade, amizade e estatuto social que com ele podemos comprar. Dizem que o dinheiro faz tudo, mas por muito que faça por nós, nunca faz tanto quanto nós fazemos por ele. Ópio dos ópios hoje é o cifrão, o endeusamento do dinheiro e do lucro.

O acesso a uma enorme variedade de bens e serviços marcou uma viragem nos hábitos de consumo dos portugueses. O recurso ao crédito cresceu vertiginosamente desde a década de 90 do século passado e, tirando excepções em períodos muito curtos, foi um hábito que se enraizou. Resta perguntar: que consumidores estamos a educar?

Por isso defendo, há muito, que se introduza, em casa, nas escolas e em sociedade, conceitos de educação financeira e de consumo sustentável. Juntos, adultos e crianças devem trabalhar ideias que podem conduzir a um futuro mais próspero. Uma relação equilibrada com as despesas não depende apenas do dinheiro que podemos gastar. Consumo eticamente responsável não é um conceito oco – é uma necessidade das sociedades modernas.

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