Recentemente vi uma reportagem sobre os 6,2 km2 do atol Midway, no Pacífico Norte, que devia ser um santuário para a vida selvagem. Mas no mar em volta há uma outra “ilha”, de plástico, conhecida por Grande Vórtex de Lixo, que se estende por uma área quatro vezes superior à da Alemanha. É nestas águas que milhares de albatrozes encontram a comida com que alimentam as crias nascidas em Midway. O problema é que estas aves não distinguem lulas, peixes e crustáceos, que são a base da sua alimentação, dos pedaços de plástico que flutuam ao sabor das correntes marítimas. Resultado? Milhares de crias de albatroz morrem anualmente famintas, engasgadas ou intoxicadas. Ao observar os cadáveres, os investigadores concluíram que 97% das aves mortas tinham plástico no seu interior.

Como vírus mortais criados pelo Homem, tampas de garrafas, restos de redes de pesca, isqueiros, bonecos, fracções de milhentos objectos – e agora também as máscaras descartáveis devido à pandemia – infectam e matam um rol de hospedeiros ainda por identificar e quantificar.

Este é apenas um pequeno exemplo do que se passa no mundo inteiro. Julgo que, antes de mais, temos de olhar de frente para o problema e senti-lo. O consumismo desenfreado da civilização actual e a cultura do descartável que ressurgiu com a pandemia são, na minha opinião, as principais preocupações ambientais do momento. É preciso mostrar imagens que exponham esta realidade difusa. Para que as pessoas entendam.

Sim, o descartável voltou a invadir as nossas vidas e esta é uma das imagens que as pessoas não estão a querer ver. É urgente encontrar alternativas ao uso de máscaras e luvas descartáveis. Uma equipa de cientistas da Universidade de Aveiro tem estudado nos últimos meses o aumento de lixo e o recuo generalizado na gestão sustentável de resíduos de plástico, e alertam: estes são os maiores efeitos colaterais derivados do combate à pandemia.

Já parecem longínquos os tempos da primeira fase do confinamento, em que assistimos, um pouco por todo o mundo, à redução da poluição atmosférica e outros ganhos para o ambiente. Hoje a realidade é bem mais complicada. A quantidade de plásticos não reutilizáveis, entre máscaras, luvas e outros materiais, que passou a ser usado na proteção diária para prevenir o contágio pelo coronavírus, aumentou exponencialmente à medida que os casos alastraram. Hoje, vemos os espaços públicos invadidos por máscaras e luvas abandonadas. É confrangedor.

Os investigadores da Universidade de Aveiro estimam, com base em estratégias de saúde pública, que a nível mundial são necessárias mensalmente 129 mil milhões de máscaras e 65 mil milhões de luvas! Sim, leu bem – em cada 30 dias! São números estratosféricos, nos quais não estão contabilizadas as batas descartáveis e outros materiais de proteção, cuja gestão desadequada tem como resultado uma contaminação ambiental em larga escala.

A questão é claríssima: é urgente encontrar alternativas sustentáveis para as máscaras, luvas e plásticos de utilização única. A Universidade de Aveiro não tem dúvidas em recomendar que, dentro do possível, estes materiais sejam reciclados depois da sua desinfeção ou quarentena, que se usem preferencialmente máscaras feitas com materiais reutilizáveis e que regressemos ao caminho da economia circular que estava a ser traçado para os materiais plásticos antes de surgir a pandemia.

Na verdade, em muitas zonas do mundo, assistimos a uma reversão de leis e regulamentos que visavam a redução do uso de plásticos de utilização única, como é o caso das taxas sobre sacos de plástico finos, além do aumento descontrolado e desregulado das embalagens de take-away, que é urgente que sejam taxadas. A gestão dos resíduos de plástico também sofreu grandes alterações com a escalada da pandemia: em muitos locais a reciclagem dos plásticos parou, noutros as entidades passaram a debater-se com o tratamento dos crescentes resíduos hospitalares potencialmente infeciosos.

A realidade é esta e dá que pensar: a pandemia trouxe a urgência de se preservar a saúde no imediato e deixar para mais tarde as consequências ambientais. E isso é, simplesmente, adiar um problema e torná-lo ingovernável: ao ser protelado, o problema tomará proporções assustadoras e será muito, mas muito mais difícil de reverer. Como explicam os investigadores da Universidade de Aveiro, “não deveríamos descontinuar uma estratégia ambiental a longo-prazo quando é compatível com as atuais medidas de combate à pandemia e contribui para a futura preservação da saúde humana. Por exemplo, não há evidencias que a utilização de luvas descartáveis seja mais eficaz do que a correta higienização das mãos”.

Todos sabemos que situações de emergência, devido aos mais variados motivos, não serão casos isolados. Por isso, teremos de delinear estratégias para a produção e utilização sustentáveis dos materiais plásticos em casos extremos como o que estamos a viver. Pelo ambiente. Contra a indiferença. Caso contrário não morreremos da doença, mas da cura – ou dos seus efeitos colaterais.

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