A Doença de Parkinson (DP) tem uma face visível e mais facilmente identificável por todos (o tremor, a lentificação dos movimentos, os passos que se tornam pequenos). No entanto, tal como outras patologias neurológicas, o seu impacto sente-se em diferentes capacidades e funções.

Irei destacar duas: comunicar e alimentar-se de forma segura e sem que haja compromisso do estado nutricional e hídrico. Embora não sejam aquelas que a maior parte das pessoas evoca ao pensar na DP, as alterações nestas funções são diversas e muito frequentes e as suas consequências são determinantes na qualidade de vida das pessoas com esta patologia e dos seus familiares ou cuidadores.

Entre as alterações mais comuns na DP contam-se aquelas que ocorrem ao nível da fala (disartria): a voz torna-se baixa, rouca ou soprada, a articulação dos sons fica mais cerrada e a fala perde a sua entoação característica. É, também, comum que exista um defeito de perceção, isto é, a pessoa com DP não percebe que tem estas alterações ou que são tão marcadas e, como tal, não tenta corrigir-se e tem dificuldade em compreender o porquê de os outros não entenderem o que diz.

A DP afeta também a deglutição, isto é, a capacidade de transportar saliva, líquidos e alimentos desde a boca até ao estômago, de forma segura (sem que haja entrada nas vias aéreas – laringe, traqueia e pulmões). Quando tal não acontece estamos perante uma alteração no processo da deglutição denominada de disfagia.

Os primeiros indícios de disfagia são, muitas vezes, o aumento da quantidade de saliva na boca, comprimidos presos na boca ou na garganta e episódios de tosse/engasgamento com saliva, líquidos e sólidos secos e granulosos. Em fases iniciais, acontecem com reduzida frequência e por esse motivo tendem a ser desvalorizados, mas com o avançar da doença passam a ocorrer mais frequentemente e com uma maior variedade de alimentos.

O agravamento da disfagia aumenta a probabilidade de engasgamento e de se desenvolver uma pneumonia de aspiração devido à entrada de líquidos ou alimentos nos pulmões, o que acarreta riscos para a saúde e contribui para a diminuição do prazer alimentar. Em ambos os casos, a intervenção do terapeuta da fala (TF) pode ajudar a minimizar o impacto destas alterações.

Quando o foco é melhorar a função, quer seja a fala ou a deglutição, a evidência sugere a aplicação de programas de reabilitação intensivos em que, durante algumas semanas, são realizadas sessões quase diariamente. O acesso a estes programas não está, contudo, ao alcance de todos e em determinadas fases da doença pode fazer sentido um programa menos intensivo, mas de duração mais prolongada.

As funções da fala e deglutição, tal como a marcha, implicam o correto funcionamento de um vasto conjunto de músculos e sabemos que a prática de exercício regular e mantida no tempo, parece trazer benefícios para as pessoas com DP. Sabemos também que, para uma boa parte das pessoas, com ou sem doença, a prática regular de um programa de exercício, sem acompanhamento, pode ser difícil e desmotivante. Acredito, por isso, que tal como a marcha, também as funções da fala e deglutição devem ser trabalhadas de forma regular e que um acompanhamento próximo por parte de um TF, não só ajuda a manter a regularidade da prática, mas permite, de forma muito mais precoce, detetar novas alterações e ajustar os programas de exercício.

Para além da reabilitação da função, o papel do TF passa também pelas abordagens compensatórias. Por um lado, aquelas que contribuem para o aumento da funcionalidade comunicativa, como introdução e adaptação de estratégias, dirigidas aos interlocutores ou ao ambiente comunicativo e identificação, adaptação e treino de instrumentos facilitadores da comunicação como os amplificadores vocais. Por outro, as que contribuem para aumentar a segurança da alimentação por via oral e que podem ser aplicadas à forma como a pessoa se alimenta ou à própria alimentação, como é o caso da modificação das consistências alimentares.

A evidência científica, mostra-nos que mudar a consistência dos alimentos é, em muitos casos, suficiente para tornar a deglutição segura. Esta adaptação pode, no entanto, alterar o valor nutricional dos alimentos e resultar em perda de prazer alimentar pelo que é essencial, nesta fase, contar, não só com um TF, mas também com um nutricionista. É por isso que no Campus Neurológico (CNS) disponibilizamos a consulta de alimentação, uma avaliação conjunta por ambas as áreas e da qual resulta uma recomendação que inclui estratégias para uma alimentação segura e um plano alimentar personalizado e ajustado em termos nutricionais.

Acredito, assim, que é importante procurar um TF, assim que seja feito o diagnóstico, mesmo que ainda não se sintam alterações na fala ou deglutição. Desta forma, desde cedo, podem ser realizados ensinos e recomendados programas de exercício que contribuam para manter a comunicação e deglutição na melhor condição possível. Importa salientar que, para que seja bem-sucedida, a intervenção deste profissional deve ser vista como uma parte de um todo, que inclui a participação de outras especialidades e em que a pessoa com DP e a sua família estão no centro dos cuidados de saúde.

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