O que a levou a lançar o livro «Defender o Futuro – Manual para o Cidadão Consciente» e o que quer transmitir aos portugueses?

Este livro estava já a ser pensado há algum tempo, mas foi apenas com o convite da editora Livros Horizonte que este projeto se concretizou e viu a luz do dia. O meu grande objetivo foi trazer aos portugueses um livro que abordasse de forma simples assuntos que não estamos tão acostumados a ouvir no dia a dia, de forma a que todos nos tornemos mais conscientes dos impactos que as escolhas que fazemos todos os dias têm no planeta e de que forma, também nós, podemos ser agentes de mudança. O livro funciona ainda como uma extensão do trabalho que tenho desenvolvido na Raízes Mag, uma revista online dedicada ao ambiente e à sustentabilidade, e no Âncora Verde, um espaço de informação e educação ambiental.

Estamos à beira do abismo no que toca à sustentabilidade ambiental. O que nos trouxe até aqui, na sua perspetiva?

É impossível apontarmos apenas uma razão para termos chegado até aonde estamos hoje. No livro, dedico um capítulo inteiro a este tema e mesmo assim foi insuficiente para abordar todas estas questões. O grande problema é que passámos a ver a Natureza como algo externo a nós, como um local que existe para servir os nossos interesses. Esta forma desapaixonada de ver o mundo natural fez com que este passasse a ser «apenas» o local onde vamos extrair as matérias-primas para produzirmos os nossos bens materiais (que podem ser de primeira necessidade, mas na maior parte das vezes são bens supérfluos). As sociedades ocidentais possuem padrões de consumo insustentáveis, em que se privilegia a imagem e o status, e onde o consumo contínuo de «coisas» é visto como algo normal e, na maior parte das vezes, recomendável. Ora, num planeta com recursos finitos, esta lógica de crescimento contínuo tem certamente os dias contados – apesar de muitos continuarem a escolher ignorar esta realidade.

O impacto ambiental da sociedade de consumo tem sido ignorado, com o crescimento ‘eterno’ como objetivo na sociedade. Mas como se muda um paradigma tão enraizado?

Acredito que o primeiro passo vem da educação e da consciencialização generalizada da população. As empresas apenas se regem pelo lucro, pelo crescimento e pelos padrões económicos que são comprovadamente insustentáveis e o governo segue a mesma tendência. A mudança deve começar pelo cidadão comum, pelo seu conhecimento, o seu despertar para estas questões. Não é fácil e requer coragem de sair da vida automatizada que levamos atualmente. Quando estamos informados e conscientes dos impactos das nossas escolhas no planeta – e, principalmente, percebemos que está nas nossas mãos fazer diferente – então está dado o primeiro passo para a mudança de paradigma de que tanto necessitamos neste momento. Estas coisas não acontecem de um dia para o outro, pois as mudanças estruturais que necessitamos de implementar enquanto sociedade vão demorar a acontecer e a ser aceites por todos, o que nos dá mais uma razão para começarmos esta mudança já hoje!

«Num planeta com recursos finitos, a lógica de crescimento contínuo tem certamente os dias contados»

 

Diz que sustentabilidade não rima com capitalismo. Porquê?

Uma das definições mais comummente aceites de sustentabilidade diz-nos que esta se mede pela capacidade de satisfação das necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades. Existe claramente um foco e uma preocupação com o futuro, em extrairmos e consumirmos de forma não danosa para o planeta e que não comprometa o nosso futuro. Quando falamos de capitalismo, o foco é o contrário: crescimento, consumo contínuo e foco no mais – ter mais, mais coisas, mais dinheiro, mais. O capitalismo privilegia o hoje em detrimento do amanhã – é como a velha máxima do «quem vier atrás que feche a porta» – e está a levar-nos para um ponto de rutura do qual será muito difícil sair.

Explique-nos o conceito de ‘aparência de escolha’ que vivemos na sociedade e como tal pode ser prejudicial.

«Aparência de escolha» é um termo cunhado por Annie Leonard que nos mostra como, num mundo cheio de coisas, para todos os gostos e feitios, onde podemos encontrar – e comprar – o possível e o imaginário, não temos, afinal, assim tanta escolha quanto o mercado nos leva a fazer crer. Podemos facilmente escolher entre um creme para peles secas, sensíveis ou normais, com grande ou pouco poder de hidratação, com aroma a baunilha ou a morango, mas teremos certamente mais dificuldade em encontrar algum que não contenha substâncias tóxicas. Podemos escolher entre uma panóplia de casacos ou t-shirts, mas não conseguimos saber se foram produzidos de forma justa para o ambiente e para o trabalhador. Podemos escolher, sim. Mas será que são as escolhas certas?

O mundo anda a várias velocidades e há pessoas cuja prioridade na vida não é o ambiente e sim a sua própria subsistência. Como tornamos isto numa jornada coletiva numa altura em que ontem já era tarde?

Este é um dos grandes problemas do ambientalismo: não podemos exigir a alguém que luta para colocar comida na mesa para os seus filhos e que ainda não viu as suas necessidades básicas satisfeitas para se importar com este tipo de questões e para lhes dar a mesma importância que muitos de nós já lhes dão. Podemos pensar numa resolução para esta questão em duas frentes: na primeira, tornando as opções sustentáveis a norma, estabilizando preços e permitindo às famílias fazer uma escolha entre o produto A e o produto B, não pelo preço, mas pelos atributos do produto; por outro lado, podemos lutar por tornar a nossa sociedade mais justa e equitativa, para que cada vez mais pessoas se possam importar com estas questões. Em qualquer dos casos, a informação e educação para estas questões são essenciais.

Como este tema do ambiente parece, felizmente, estar na moda, também há quem se aproveite disto. Quais são a principais ‘mentiras verdes’, ou greenwashing, que circulam por aí?

O mercado é feito de tendências e, num mercado capitalista como o nosso, as empresas têm duas opções: ou acompanham as tendências ou criam as tendências. É escusado negar que o que é ecológico, verde e sustentável está na moda e vende, e é por isso que nos últimos anos temos assistido a um boom de novos produtos que se auto proclamam mais amigos do ambiente. Mas como é que efetivamente podemos saber quais são as verdadeiras intenções da empresa ou da marca que os lançou no mercado? Pensemos, por exemplo, numa marca de moda rápida, que produz, vende e descarta roupa a um ritmo alucinante, mas afirma que é amiga do ambiente porque lançou uma coleção de roupa feita com algodão ecológico e tintas sustentáveis. Pensemos bem: esta pequena coleção, que representará uma percentagem muito pequena da produção e de vendas da empresa, fará realmente alguma diferença? Se os objetivos da marca continuam a ser produzir 52 coleções ao ano, criando desejos e tendências na mente dos seus consumidores, qual a razão para produzir uma coleção autoproclamada sustentável se não para cair na boa graça dos consumidores que estão sensibilizados para estas questões?

Leila Teixeira: «A principal chave para ajudarmos o ambiente é reduzir de forma drástica a quantidade de resíduos que produzimos»
créditos: freepik

Diz também que o preço que pagamos pelos produtos (muitos, baratos e acessíveis) não reflete todos os seus custos. O barato sai caro? Que custos se escondem?

O barato sai muito caro, principalmente para o nosso planeta. É irreal acharmos que quando pagamos 5€ por uma peça de roupa ou pouco mais de 1€ por uma tablete de chocolate estamos a pagar os custos reais que estes bens necessitaram para ser produzidos. Ou mesmo o preço que pagamos pelos nossos smartphones ou televisões, já agora. Atualmente, o preço que pagamos pela maioria das nossas coisas apenas reflete alguns custos diretos como o dos materiais ou de mão de obra – e, por vezes, nem mesmo estes (pense em casos de exploração laboral ou trabalho infantil). No entanto, custos indiretos como a poluição de freios de água potável, poluição dos solos e do ar, impactos na saúde dos trabalhadores, nas comunidades e no clima em geral continuam a ser largamente (e de forma consciente) ignorados e desvalorizados pelo mercado. Se todos estes custos fossem contabilizados e incluídos no preço dos nossos bens, os aumentos seriam enormes. Depois, duas coisas iriam acontecer: primeiro, assustávamo-nos com o preço de coisas tão simples como uma banana proveniente da América do Sul; depois, iriamos certamente passar a consumir de forma muito mais consciente e seletiva, o que implicaria também consumir menos.

No seu livro fala no mito da reciclagem. Porquê? Não é esta uma das chaves para ajudar o ambiente?

A principal chave para ajudarmos o ambiente é reduzir de forma drástica a quantidade de resíduos que produzimos. A reciclagem é um importante aliado para desviarmos de aterros materiais aos quais ainda pode ser dada uma segunda vida, mas nos moldes que a nossa sociedade opera a reciclagem pode mesmo ser prejudicial para o planeta. O problema da reciclagem é que estamos a focar-nos no lado errado da questão. De que serve aumentarmos as taxas de reciclagem a nível global, se o desperdício aumenta em iguais (ou maiores) proporções? De que vale continuarmos a separar o lixo, se os nossos níveis de consumo não param de aumentar?

Está mesmo comprovado que o simples facto de um produto ser rotulado como reciclável poderá efetivamente contribuir para aumentar a sua procura e, consequentemente, a necessidade de utilizarmos/extrairmos mais recursos essenciais para a sua produção. Reciclar sim – sempre! Mas não nos devemos esquecer que antes de reciclar devemos primeiro recusar, reduzir e reutilizar.

Em 2020, o Dia de Sobrecarga da Terra chega a 22 de agosto. Acredita que vamos conseguir reverter este processo de ultrapassarmos os limites do planeta que todos os anos se regista cada vez mais cedo? Ou seja, ainda há solução para tudo o que causámos ao planeta?

A primeira coisa que importa reter é que este ano o Dia de Sobrecarga da Terra se assinala a 22 de agosto unicamente devido aos efeitos que a pandemia – e respetivo confinamento forçado – causaram no meio ambiente. Se é certo que este ano conseguimos regredir esta data em algumas semanas, a verdade é que nada nos nossos comportamentos se alterou de forma estrutural para que isto continue a acontecer daqui para a frente. Aliás, a tendência verificada até agora era esta data continuar a assinalar-se cada vez mais cedo. Em 2018, o Dia de Sobrecarga da Terra assinalou-se a 1 de agosto e, em 2019, dois dias mais cedo, a 29 de julho. A voltar tudo à nossa normalidade antiga, é expectável que em 2021 esta data dê novamente um salto gigante para trás, voltando para o final de julho.

No entanto, se esta data fosse adiada cinco dias a cada ano, era possível, até 2050, estarmos a consumir recursos de apenas um planeta Terra. Ainda é possível fazê-lo, mas é necessário um envolvimento sério e global de cidadãos, empresas e governos. Apenas trabalhando em conjunto e para os mesmos objetivos conseguiremos lá chegar.

 «O problema da reciclagem é que estamos a focar-nos no lado errado da questão. De que serve aumentarmos as taxas de reciclagem a nível global, se o desperdício aumenta em iguais ou maiores proporções?»

Como conseguimos então enquanto sociedade pôr fim aos problemas ambientais que causámos?

Esta questão é muito complexa, ainda para mais quando temos a tendência de olhar para estas coisas apenas do nosso ponto de vista. Num momento em que já percebemos que não podemos continuar a extrair, produzir, consumir e descartar ao ritmo sempre crescente que temos vindo a fazer, normalmente esquecemo-nos que existem ainda muitos milhões de pessoas que ainda não conseguiram satisfazer as suas necessidades básicas e que necessitam, efetivamente, de crescer. Quem somos nós, no alto da nossa superioridade moral de países desenvolvidos, para dizer que as pessoas de países em desenvolvimento não podem ter o nosso estilo de vida? Que não têm direito a ter o que nós temos? Para estas pessoas poderem crescer, nós temos de diminuir. A solução passa por arranjar um lugar à mesa para toda a gente se poder sentar – e não comprar uma mesa maior ou arranjar muitas mesas pequeninas. Trata-se de equidade – todos temos o direito a ter uma vida saudável, feliz e em segurança, independentemente do lugar no mundo em que nos encontramos.

No que toca ao cidadão comum, quais as suas recomendações para ajudar a reverter este caminho? Este livro diz ser um manual para esta jornada.

Os cidadãos têm o poder de mudar o mercado essencialmente do lado do consumo. Cada vez que compramos alguma coisa, estamos a votar com o nosso dinheiro e a dar sinais ao mercado de que validamos um tipo de produto, empresa ou serviço. Estamos implicitamente a concordar com os ingredientes, modos de produção, políticas sociais, ambientais ou humanas que estejam por trás. Uma das coisas que podemos começar já a fazer é perceber como queremos gastar o nosso dinheiro e utilizar os nossos valiosos votos.

Já os hábitos, podem ir desde comprar a granel com sacos/fracos reutilizáveis, a aprender a dizer não e a recusar tudo aquilo que não interessa para a nossa vida, até à adoção de uma alimentação predominantemente vegetariana, em que o consumo de produtos animais (e seus derivados) é diminuído drasticamente. Os hábitos ou os comportamentos que podemos alterar ou melhorar para vivermos de forma mais amiga do planeta são inúmeros e dependem apenas de uma coisa: da nossa vontade de mudar. Cada um ao seu ritmo, fazendo o que pode, sem julgamentos. É assim que fazemos a sociedade avançar.

Uma vez que o consumismo é precisamente um dos grandes problemas que causam danos ao planeta, como podemos fazer compras mais amigas do ambiente? Deixe-nos, por fim, algumas sugestões para o cidadão se tornar num consumidor consciente.

Informação. Informação, informação, informação. Ser um cidadão consciente é sinónimo de ser um cidadão informado. Apenas quando conhecemos o impacto das nossas ações no planeta e percebemos que existem alternativas, conseguimos caminhar rumo a um mundo mais justo e sustentável. Mudar e sair dos padrões de consumo impostos pela sociedade requer muita coragem, mas asseguro que é um processo extremamente recompensador e libertador!

Comprar de forma mais amiga do ambiente? Bem, a minha primeira recomendação é não comprar coisas novas! Sempre que possível, compre em segunda mão ou frequente mercados de trocas. Vai ficar surpreendido com as coisas incríveis que se podem encontrar nestes locais. Caso tenha mesmo de comprar novo, privilegie o comércio e produção local, altos padrões de qualidade e, no caso de bens tecnológicos, aposte em marcas que se comprometam com a reparação dos produtos e tenham uma boa política de descarte em final de vida. No início, pode ser difícil preocupar-se com todas estas questões, mas, acredite, trata-se apenas de uma questão de hábito.

Defender o Futuro – Manual para o Cidadão Consciente

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