Pedro Narra é fotógrafo de natureza e cofundador de uma empresa marítimo-turística que faz observação de golfinhos desde 1998. Mas apesar da sua longa ligação ao estuário do Sado e costa adjacente, este ano foi a primeira vez que viu orcas na costa da Arrábida. «Já tinha visto orcas na Patagónia, na Península de Valdez, quando elas atacam os leões marinhos na praia. E também já tinha visto na Antártida ao longe. Mas aqui perto nunca tinha visto. É um animal espetacular que não estamos habituados a ver e que é de uma beleza extraordinária. De grande porte, bonita, é o panda dos mares», comenta Pedro Narra, que este ano, após relatos de avistamentos na costa portuguesa, decidiu fazer expedições para as encontrar e fotografar.

«Saio de manhã e passo o dia todo no mar, mas até agora só as consegui ver duas vezes», conta-nos no dia em que o nevoeiro cerrado se abateu sobre a região, abortando uma das últimas oportunidades para as ver este ano, já que a passagem migratória pela zona termina por volta de setembro. É que, apesar de não ser do conhecimento comum, as orcas sempre existiram na costa portuguesa por onde normalmente estão de passagem. São, aliás, o segundo mamífero com maior área de distribuição geográfica, a seguir ao homem.

A orca é um cetáceo que goza de má fama por serem conhecidas como baleias assassinas. Mas na realidade não são baleias. Este epíteto é-lhes atribuído por serem predadores versáteis que, quando caçam em grupo, podem matar baleias e tubarões. Mas a sua dieta regular inclui sobretudo peixes, moluscos, aves, tartarugas, focas e até os seus primos golfinhos comuns.

«A orca pertence à família dos golfinhos. É aliás o maior golfinho. É um animal selvagem e um predador de topo, perigoso para as suas presas mas não para o resto dos animais nem para os humanos. É um animal muito inteligente como é demonstrado pela sua capacidade de adaptação. Por exemplo, em diferentes lugares, já foram descritas diferentes técnicas de caça dependendo do tipo de presa», descreve-nos Ruth Esteban, investigadora do Museu da Baleia da Madeira que durante 14 anos estudou as orcas no Estreito de Gibraltar, as mesmas que passam por Portugal.

Uma prova da sua inteligência inquestionável é já terem aprendido a tirar partido dos barcos de pesca do atum no Mediterrâneo para conseguirem uma refeição fácil. «Elas esperam que os barcos pesquem o atum, normalmente maiores do que aqueles que elas pescam, e depois retiram-nos. Assim não gastam tanta energia», acrescenta Ruth Esteban.

Estão as orcas a aproximar-se demasiado da nossa costa?
Orcas na costa da Arrábida créditos: Pedro Narra

Em rota pela costa portuguesa

As orcas que são avistadas ao longo da costa portuguesa não são residentes, como já referimos. Estão em rota de migração para o Estreito de Gibraltar provenientes do norte de Espanha, passando pela costa ocidental portuguesa e obrigatoriamente pela do Algarve. Vão atrás do atum rabilho, o seu alimento predileto, que na primavera e verão faz precisamente esta incursão pelo Mediterrâneo. Depois voltam em setembro e passam o inverno no Oceano Atlântico.

Do que se sabe estas «são as mesmas orcas que são observadas no Estreito de Gibraltar, mas às vezes há algum registo de novos indivíduos que não são observados no Estreito», comenta Ruth Esteban, que tenta manter um registo atualizado destes indivíduos. «São vistas quase todos os anos na zona do Algarve, e cada vez há mais registos na zona de Lisboa também», acrescenta.

Porém, sendo animais selvagens a viverem em mar aberto, não é possível ter dados completamente fidedignos sobre a comunidade que passa por estas águas. Os dados recolhidos por Ruth Esteban, aquando do seu doutoramento sobre estas orcas em 2011 no Estreito de Gibraltar, confirmaram 39 indivíduos pertencentes a cinco famílias diferentes.

Assim, avistá-las, mesmo conhecendo a janela temporal, é uma sorte. A tal que Pedro Narra tenta ao sair para o mar quando as vai procurar. «Nós sabemos que elas estão cá na costa portuguesa porque são avistadas e durante essas semanas vou mais para o mar à procura delas. Mas sei de antemão que não tenho garantias nenhumas», conta-nos. Nesta zona são avistadas ao largo de Sesimbra, perto do Cabo Espichel, Fonte da Telha, Costa de Caparica e às vezes ao largo de Cascais. «O primeiro grupo que vi tinha cerca de seis elementos. No segundo grupo, estive algum tempo só com o macho, mas depois, ao fim do dia com o pôr do sol, apareceram as duas fêmeas. Era um grupo de três. No primeiro grupo aproximaram-se e houve ocasiões que passaram por baixo da embarcação, mas o segundo grupo estava mais tímido e não se conseguia fazer nenhum registo fotográfico de jeito», relata-nos o fotógrafo.

Estão as orcas a aproximar-se demasiado da nossa costa?
Cabo Espichel créditos: SSD

A fotografia é precisamente o veículo que faz parecer que as orcas nesta zona costeira são novidade, mas elas sempre por aqui andaram. «Sempre existiram orcas na costa portuguesa por onde normalmente estão de passagem. O facto de cada vez mais pessoas relatarem esse tipo de avistamento (praticamente todas as pessoas têm telefone com capacidade de tirar fotos e vídeos) torna-as mais visíveis. Além disso, a partilha de acontecimentos do dia-a-dia nas redes sociais faz com este tipo de informação chegue a mais pessoas», afirma Marina Sequeira, bióloga do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

Uma questão que se pode colocar é o perigo que possam representar para a comunidade de golfinhos residente na região, uma vez que estes poderão fazer parte da sua dieta. Mas em princípio não há perigo, porque estas orcas não se alimentam de golfinhos e adoram atum, garantem-nos.

Biólogos estudam interações mais ativas com embarcações

Neste verão foram relatadas várias interações de orcas com embarcações, tanto em Portugal como em Espanha, algumas delas mais incisivas que resultaram em danos materiais, mais concretamente em barcos à vela com leme separado do patilhão, que aparentemente as orcas parecem ter percebido que controla o barco. Mas esta é uma mera especulação. Sabe-se, pelos relatos dos visados, que elas se aproximam silenciosamente pela popa do barco e contactam sobretudo com as partes móveis dos veleiros. Mas a interação termina quando o barco deixa de se mover.

Estas interações aparentemente inéditas geraram alguma confusão, com os casos em Espanha a terem eco internacional. Motivo pelo qual foi constituído um grupo de trabalho composto por peritos em cetáceos e representantes de entidades oficiais com conhecimento sobre a casuística e comportamento de orcas. O grupo, coordenado pelo CEMMA - Coordenador de Estudos de Mamíferos Marinhos, sedeado na Galiza, tem vindo a analisar em detalhe todas as interações reportadas. E realizou uma apresentação aos jornalistas no passado dia 22 de setembro, para tranquilizar e clarificar a situação.

Assim, segundo os dados divulgados, neste verão foram detetadas 26 interações de orcas com veleiros: 6 no Estreito de Gibraltar, 4 na costa portuguesa e 16 na Galiza, onde também se registaram observações de orcas ao largo da costa e em algumas praias. «As embarcações envolvidas nestas interações estão a ser inspecionadas de modo a tentar compreender como ocorreram estes encontros e qual o tipo de contacto que os animais estabeleceram com a embarcação, com base nas marcas deixadas nos cascos ou algum outro indício de contacto físico das orcas com a estrutura da embarcação», informa o CEMMA.

Estão as orcas a aproximar-se demasiado da nossa costa?
Orcas ao largo de Cascais créditos: Francisco Martinho/lisbondolphins.com

E, de facto, as interações registadas este ano «são considerados feitos inéditos e não correspondem ao normal comportamento das orcas, o que faz suspeitar que possa ter ocorrido algum incidente involuntário em que pelo menos dois indivíduos juvenis possam ter ficado feridos por contacto direto com um veleiro», informa o CEMMA. Ao que tudo indica, são alguns juvenis que poderão estar a ter um comportamento social de diversão ou de demonstração de domínio. «Com efeito, em agosto foram detetadas pelo menos duas orcas juvenis com graves feridas em diferentes partes do corpo. Os dados preliminares já analisados pelos peritos parecem indicar que estas interações são realizadas por um pequeno grupo de orcas juvenis no âmbito do já conhecido comportamento curioso que envolve normalmente um contacto físico direto e que no caso dos veleiros poderá ter originado roturas do leme ou outras avarias», assegura a entidade.

Os cientistas vão continuar a estudar estas orcas, para recolherem mais dados e compreenderem melhor a situação. Se este comportamento se dá por mudanças no ecossistema ou pela falta de atum - disputado pelas orcas e pelos pescadores – também ainda não se sabe. O certo é que não sendo um animal agressivo para o homem, fazer uma aproximação às mesmas é de todo desaconselhado: «De um modo geral não são agressivas, mas convém não esquecer que são animais selvagens. Além disso, estão protegidas por legislação nacional e internacional, e a perturbação da espécie não é permitida», ressalta Marina Sequeira.

Assim, no caso de avistar uma orca, fique com esta ideia: uma orca desloca-se a uma velocidade de 50km/h e um barco à vela a 12km/h…

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