Ao anunciar em 10 de fevereiro a decisão de se voltar a apresentar ao escrutínio presidencial, o chefe de Estado pôs termo a longos meses de incerteza, mas desencadeou uma contestação inédita desde há vários anos devido à amplitude nacional, mobilização e palavras de ordem dirigidas diretamente ao chefe de Estado e ao seu círculo mais próximo.

Na manhã de hoje, cerca de 500 estudantes concentraram-se no interior da Faculdade Central e ecoando "Não ao 5º Mandato!", "Bouteflika rua!", "Argélia livre e democrática".

Os agentes da segurança da universidade encerraram os portões para impedir os estudantes de sair", refere a agência noticiosa AFP.

Num país onde as manifestações estão proibidas desde 2001, ocorreram em simultâneo outras concentrações na metrópole argelina e em diversas cidades do país, de acordo com diversos meios de comunicação social e redes sociais.

Cerca de uma centena de estudantes provenientes de outras faculdades desfilaram no centro da capital, sem que a polícia interviesse.

Na faculdade de jornalismo, 500 estudantes estavam também reunidos em protesto, enquanto algumas centenas se juntavam no exterior do edifício. Por sua vez, os estudantes da Faculdade de Medicina de Argel, a cerca de cinco quilómetros do centro, foram forçados pela polícia a permanecer nas instalações.

De acordo com o portal da Internet TSA, registaram-se ainda manifestações em Constantine (400 quilómetros a leste de Argel), Tizi Ouzou (100 quilómetros a leste de Argel), Ouargla (leste), ou ainda em Annaba (nordeste).

Em Argel, um impressionante dispositivo policial foi deslocado para o centro da cidade, com numerosos veículos das forças de segurança estacionados nas ruas adjacentes à universidade.

"Não em meu nome!", foi outra das palavras de ordem da contestação de hoje, desencadeada as redes sociais após o apoio à candidatura de Bouteflika emitido por 11 associações de estudantes.

Ainda hoje, e enquanto decorriam os protestos, o diretor de campanha do Presidente cessante anunciou que Bouteflika vai apresentar em 03 de março a sua candidatura perante o Conselho constitucional, anunciou o seu diretor de campanha, Abdelmalek Sellal.

"O candidato Abdelaziz Bouteflika vai respeitar os prazos e as leis e apresentar o seu dossiê de candidatura em 03 de março", o último dia do prazo oficial, declarou Sellal durante uma reunião em Argel com apoiantes do chefe de Estado.

Na segunda-feira, e pela primeira vez, o Governo respondeu pela primeira vez aos protestos ao rejeitar a eventual renúncia de Bouteflika e afirmar que "as urnas vão decidir".

"Houve um número importante de manifestantes", admitiu o primeiro-ministro Ahmed Ouyahia, considerado um fiel de Bouteflika e que pela terceira vez dirige o Governo.

"As eleições vão decorrer em menos de dois meses e cada um escolherá livremente", respondeu aos contestatários, excluindo assim qualquer inflexão do processo eleitoral.

Em resposta ao "apelo à mudança" emitido pelos manifestantes, o chefe do Governo remeteu-os para uma conferência "aberta a todos" que Bouteflika prometeu organizar caso seja eleito e em que "tudo será debatido".

Debilitado por um AVC que sofreu em 2013 o chefe de Estado, que completa 82 anos em 02 de março, está remetido a uma cadeira de rodas e surge raramente em público.

Confrontados com a vaga de contestação, diversos membros do campo presidencial têm agitado nos últimos dias, de forma mais ou menos explícita, o espetro desta "década negra", a que Bouteflika reivindica ter posto termo após chegar ao poder.

A guerra civil foi desencadeada após a anulação pelas forças armadas argelinas das primeiras eleições multipartidárias do país em dezembro de 1991, com a anunciada vitória esmagadora da Frente Islâmica de Salvação (FIS).

Este escrutínio foi convocado na sequência do movimento de contestação de outubro de 1988 que abalou o regime da Frente de Libertação Nacional (FLN), então o partido único e no poder desde a independência da França em 1962.

Ainda hoje, os Repórteres sem fronteiras (RSF) acusaram por sua vez as autoridades de procurarem "silenciar" os media, referindo-se a "interpelações, agressões, proibição de cobertura de acontecimentos e redução da velocidade da rede internet", factos que ocorrem desde o início das manifestações.

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