
O Irão acusou hoje a Alemanha, a França e o Reino Unido de agirem em nome dos Estados Unidos e de Israel com o objetivo de tentar reativar as sanções das Nações Unidas contra a República Islâmica.
"Ao agir em nome de Israel e dos Estados Unidos, o E3 - grupo formado pela Alemanha, França e Reino Unido - decidiu prosseguir maliciosamente uma política de pressão sobre o povo iraniano. Esta insensatez, contra a qual o Irão alertou firmemente, é imoral, injustificada e ilegal", denunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, na sexta-feira à noite.
Segundo Araghchi, a decisão dos países europeus "terá graves consequências negativas para a diplomacia", afetará o diálogo em curso com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e obrigará a uma resposta do Irão.
A declaração do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano refere-se à ativação na quinta-feira pelo E3 -- países que faziam parte do acordo nuclear iraniano de 2015 -, do mecanismo que restabelece automaticamente as sanções das Nações Unidas contra Teerão devido ao seu programa nuclear.
Os europeus iniciaram o processo de reimposição das sanções, considerando que o Irão violou "clara e deliberadamente" o acordo nuclear de 2015, embora tenham deixado a porta aberta ao diálogo antes do final do prazo.
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano denunciou os três países europeus por tentarem apresentar esta manobra "imprudente" como um esforço para "avançar na diplomacia", quando, na realidade, equivale a "recompensar o agressor [EUA e Israel] e punir a vítima [Irão]", uma referência à guerra de 12 dias em junho, durante a qual Telavive e Washington bombardearam as instalações nucleares iranianas.
Araghchi realçou que o Irão participou este ano em cinco rondas de negociações nucleares com a Administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, e que, na véspera de uma sexta reunião, o país foi bombardeado "primeiro por Israel e depois pelos Estados Unidos".
Neste contexto, descreveu como "repugnante" que a Europa acuse Teerão de abandonar o diálogo.
"Foram os Estados Unidos, e não o Irão, que se retiraram unilateralmente do acordo nuclear em 2018 e reimpuseram as sanções. Foi a Europa, e não o Irão, que não cumpriu os seus compromissos de mitigar o impacto económico dessa retirada", afirmou o ministro iraniano.
No entanto, um ano após a saída dos EUA do pacto, o Irão começou também a não cumprir os seus compromissos nucleares, enriquecendo urânio para além do permitido pelo acordo e possui agora 400 quilos deste material a 60%, muito acima do necessário para uso civil.
Antes de ativar o mecanismo referido, o E3 tinha oferecido a Teerão uma extensão do processo, que termina em 18 de outubro, desde que o país retomasse a cooperação com a AIEA - suspensa após a guerra de doze dias com Israel em junho ---, fornecesse informações sobre o paradeiro dos 400 quilos de urânio enriquecido a 60% e regressasse à mesa de negociações com os Estados Unidos.
Mas o Irão rejeitou a proposta e afirmou que o E3 não tinha cumprido os seus compromissos ao abrigo do acordo de 2015 e, por isso, não tinha o direito de reimpor medidas económicas punitivas.
A reativação das sanções da ONU isolaria ainda mais o país e atingiria a sua economia, já enfraquecida por uma inflação próxima dos 40% e a sua moeda, o rial, em contínua desvalorização.