“Esta nação — no seu cerne conquistadora, ávida por causa da privação — expia antecipadamente, em casa, através de uma submissão degradante, com a esperança de exercer tirania noutro lugar...

Astolphe de Custine, La Russie en 1839

Com esta advertência quase profética, o marquês de Custine desmontava as fantasias europeias sobre a Rússia. Não via nela um gigante vacilante, mas um poder ancestral que aprende a curvar-se para crescer, exaurido internamente, paciente, preparando, silenciosamente, o momento de se afirmar de novo. Era essa natureza oculta — austera, enraizada e impenetrável — que os europeus se recusavam a compreender. E é este realismo que nos falta hoje, ou talvez já não.

Enquanto celebrávamos a paz construída por diplomas e tratados, a linha de frente da Ucrânia tornou-se o espelho brutal da ingenuidade europeia. A guerra estende-se por mais de mil quilómetros, mas em Bruxelas discute-se a adesão de Kiev como se fosse um capítulo burocrático, e não o ponto decisivo da sobrevivência do nosso projeto continental. As fracas e ingénuas garantias de segurança empalidecem perante a dificuldade concreta de enviar tropas, ou de morrer quando essas tropas chegarem lá. A Alemanha confessa que não tem exército para enfrentar esta guerra. A França e o Reino Unido precisam da autorização parlamentar; em Paris, Macron não tem maioria; e a Itália exige mandato da ONU, que Moscovo vetaria em segundos. A Grécia, em silêncio, foca-se na crise migratória. No entanto, ouvimos discursos leves sobre “garantias”, como se bastassem palavras para garantir a vida de um soldado.

E, neste vácuo de clareza e coragem política, cresce dentro da União Europeia (UE) a fragilidade democrática a que Custine chamou o poder invisível do medo nacional — um poder que não se apaga com tratados, antes se alimenta da nossa distração.

É nesse contexto que discutir a entrada da Ucrânia na UE não é apenas um processo burocrático. É a questão essencial da sobrevivência do próprio projeto europeu. A Ucrânia, sustentada por apoios militares ocidentais, tornou-se no maior e mais bem equipado exército do continente. Nenhum outro Estado europeu investe tanto na sua sobrevivência. Nenhum outro vive com a mesma urgência existencial. A Ucrânia está a transformar-se numa potência militar no coração da Europa, e ignorar isso é não querer ver a realidade.

A alternativa a integrá-la é inquietante. Se a fadiga da guerra fizer o seu caminho, se os russos conseguirem prolongar o desgaste até à exaustão, se os ventos políticos mudarem, não é impossível que uma Ucrânia endurecida, militarizada e armada procure Moscovo como parceira futura. A História é fértil em ironias: um aliado de hoje pode ser a ameaça de amanhã. Kiev já tem milhões de cidadãos com experiência militar, dispõe de equipamento moderno e, sem integração europeia, pode tornar-se fator de risco para a própria arquitetura de segurança do continente.

Os Bálticos e a Polónia entendem isto melhor do que ninguém. A sua pressa em rearmar-se não é apenas reflexo da paranoia histórica com Moscovo: é a perceção de que, sem a Ucrânia dentro da União, a Europa ficará à mercê de movimentos estratégicos que não controla. É também o reconhecimento de que a Rússia não desistirá de usar o tempo como arma.

O tempo, aliás, é a essência da política de Putin. E foi Trump quem lho concedeu. O “rei do espetáculo”, como bem descreveu Tom Nichols, transformou cimeiras internacionais em episódios de autopromoção. Ao arrastar negociações, prometer futuras conversas e recentrar tudo em si, deu a Putin o que este mais precisava: margem estratégica. Comprar tempo significa prolongar a fadiga do Ocidente, dividir a opinião pública, deixar crescer fissuras entre Estados-membros.

Do lado europeu, a resposta deixou de ser tímida, mas continua a ser coreográfica. Macron, Meloni, Starmer e Merz tentaram endurecer a posição americana, oferecer a Trump algum estofo político depois da vazia reunião do Alasca. Mas o resultado foi ainda mais vago: nenhum compromisso novo, nenhuma garantia de segurança, apenas encenação. E, enquanto isso, Moscovo e Washington continuam a redesenhar o tabuleiro.

Entretanto, dentro da Europa, cresce a fragilidade. Keir Starmer, Emmanuel Macron e Friedrich Merz enfrentam quedas nas sondagens. A extrema-direita sobe em toda a parte. Pela primeira vez, a Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera sondagens. Em França, o Reagrupamento Nacional assume-se como alternativa de poder. Na Roménia e na Bulgária, eleições antecipam governos distantes da lógica de Bruxelas e mais próximos da de Orbán e Fico: independência em relação à UE e complacência com a Rússia.

É neste cenário que se discutem “garantias de segurança”. Mas o que significam, na prática? A Alemanha já confessou que não tem condições para enviar tropas: é um exército pequeno, incapaz de uma frente prolongada. O Reino Unido e a França admitem-no, mas dependem do voto parlamentar — e, em Paris, Macron não tem maioria. A Itália de Meloni refugia-se no argumento do mandato das Nações Unidas, sabendo que o Conselho de Segurança jamais aprovaria tal decisão. A Turquia está ocupada com operações no Iémen e na Síria. A Grécia, quarto maior exército da NATO, hesita porque precisa das suas forças para gerir crises migratórias.

E, no entanto, fala-se de garantias como se bastassem palavras para substituir divisões blindadas. O precedente é conhecido: em 1994, no Memorando de Budapeste, a Ucrânia entregou o seu arsenal nuclear — o terceiro maior do mundo — em troca de garantias dadas pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e pela Rússia. Essas garantias não impediram a anexação da Crimeia, nem a guerra no Donbas, nem o massacre de Mariupol. Garantias de segurança, em política internacional, são frágeis como papel molhado.

O que falta à Europa é um discurso claro para os seus cidadãos. O que acontecerá quando morrer o primeiro soldado português em Kherson, o primeiro espanhol em Kharkiv, o primeiro francês em Odessa? Como reagirão sociedades habituadas a pensar a guerra como algo longínquo? A Europa não está a preparar a sua opinião pública para o que pode vir: uma guerra longa, geracional, que exigirá sacrifícios e resiliência. Continua a vender a ilusão de que basta financiar Kiev para que a paz volte.

Mas a paz não volta. A guerra é hoje a condição estrutural da política europeia. E é isso que muitos líderes ainda recusam dizer em voz alta.

Ao mesmo tempo, Putin avança no campo invisível: influencia eleições, apoia partidos eurocéticos, penetra nas fissuras democráticas do continente. Trump, com a sua política de espetáculo, facilita-lhe a vida. Moscovo e Washington, cada um à sua maneira, estão a reconfigurar a política interna europeia. O resultado é uma União que corre o risco de ser vítima colateral desta guerra, não apenas no campo de batalha, mas nas urnas e nos parlamentos.

É por isso que integrar a Ucrânia é vital. Não é apenas um gesto de solidariedade: é um ato de preservação. É compreender que, sem Kiev no seu seio, a UE pode desmembrar-se por dentro, vítima das suas próprias contradições. É também evitar repetir o erro da Turquia: durante décadas, acenou-se com a promessa de adesão para depois recuar, até que Ancara mergulhou no autoritarismo e se afastou do Ocidente. Se a Europa repetir o mesmo padrão com Kiev, pagará um preço ainda maior.

A escolha é brutal. Ou a Europa assume que a guerra é a sua condição presente, ou descobrirá, tarde demais, que já não tem paz a defender. Tolstoi, ao olhar para Napoleão derrotado, sabia que os impérios caem quando confundem ilusão com realidade. A Europa, hoje, corre o mesmo risco.