Após a revelação dos números de colocações no Ensino Superior, a mais baixa em quase dez anos, surgem outras análises mais pormenorizadas.

Uma delas é que o número de alunos mais pobres colocados no ensino superior diminuiu em relação ao ano passado, assim como foram menos os que utilizaram as vagas criadas exclusivamente para estudantes com parcos recursos económicos.

Este ano, conseguiram colocação 1.548 estudantes beneficiários de escalão A de Ação Social Escolar (ASE), dos quais 1.123 através desse contingente prioritário.

No ano passado, ficaram colocados mais 107 estudantes com ASE A e mais 55 estudantes através deste contingente, criado em 2023 pelo anterior Governo, que passou a reservar 2% das vagas da 1.ª fase do concurso para os estudantes mais carenciados e que têm normalmente maiores dificuldades no acesso ao superior.

Nesta contabilidade poderá ter impacto a redução de nove mil candidatos à 1.ª fase, o que se traduziu em menos 12,1% de alunos colocados em relação ao ano passado: no entanto, dos quase 50 mil candidatos, cerca de 43 mil conseguiram uma vaga numa instituição de ensino superior pública (90%).

Vários estudos têm alertado para o facto de o insucesso académico continuar a estar muito ligado à fraca situação socioeconómica, havendo mais chumbos e desistências entre os alunos de famílias mais pobres. Por outro lado, os mais privilegiados tendem a estar em maioria nos cursos superiores com notas de acesso mais elevadas.

A baixa presença de alunos mais carenciados a estudar no ensino superior levou o Governo a criar em 2023 um contingente prioritário à semelhança de outros que já existem. Nesse ano, o número de beneficiários de escalão A duplicou no ensino superior, chegando aos 2.800 jovens carenciados.

No entanto, uma equipa de investigadores da Edulog revelou no início deste ano que este mecanismo continua a ser muito pouco utilizado pelos alunos, apesar de concluir que sem esta quota, 41% dos estudantes com escalão A não teriam entrado nos cursos em que foram colocados por não terem nota suficiente.

Estes alunos têm colocação prioritária desde que cumpram as condições de acesso e as notas mínimas exigidas para cada curso. Os estudantes carenciados disputam entre si os lugares disponíveis, de apenas 2% das vagas de cada curso ou um mínimo de duas vagas, não ocupando as vagas do regime geral de ingresso.

O Ministério da Educação reafirma hoje que para assegurar melhores condições de início de ano letivo para estudantes carenciados, as bolsas de estudo dos beneficiários até ao 3.º escalão serão antecipadas para a fase de colocação, "que será decidida e notificada de imediato".

Olhando para os outros contingentes prioritários, ficaram colocados agora 152 estudantes com deficiência e outros 304 nas vagas para emigrantes, familiares e lusodescendentes.

Entretanto, os representantes dos institutos politécnicos alertaram para o decréscimo nas colocações do ensino superior, dizendo que a situação é mais grave no interior dos país, e pedem que se alterem as regras de acesso.

Em comunicado, o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos faz saber que os cerca de 14 mil alunos colocados no subsistema politécnico representam "uma redução significativa face ao ano transato".

A taxa de colocação nos institutos politécnicos ficou pelos 63% e a situação é mais grave nas instituições do interior do país, "onde a queda do número de alunos coloca em causa a sustentabilidade de algumas áreas de formação".

Para a presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, Maria José Fernandes, os números das colocações são o reflexo de "uma litoralização do ensino superior, que além de acentuar as assimetrias regionais, coloca em causa a coesão territorial e o legítimo acesso de todos os jovens ao ensino superior", lê-se no comunicado.

Maria José Fernandes alertou também para a previsibilidade destes resultados, sublinhando que os institutos politécnicos alertaram a tutela para o efeito do aumento do peso das provas específicas e do aumento das provas de acesso.

Os politécnicos defendem que o modelo de acesso ao ensino superior deve ser alterado já no próximo ano letivo e apontam, ainda que não sejam consideradas as questões que mais pesam, os elevados custos de alojamento e a quebra demográfica como outros fatores para a diminuição de alunos este ano concorreram na primeira fase de acesso ao ensino superior.