Há quem diga que o segredo para não envelhecer - ou atrasar esse envelhecimento - é nunca parar. Seja caminhadas, exercício físico ou hobbies que nos mantenham ativos, tudo serve para manter a qualidade de vida por mais tempo. E, se calhar, este conselho poderá ter um fundo de verdade.

Não houvesse no mundo uma velocista de 92 anos com quatro recordes mundiais para mulheres com mais de 90 anos e poderia duvidar desta ideia, mas a verdade é que Emma Maria Mazzenga existe e os investigadores estão curiosos para conhecer o seu segredo.

É que apesar de se aproximar a passos largos de completar um século de idade, Emma é um caso de estudo. Segundo alguns parâmetros, a italiana de Pádua tem a aptidão cardiorrespiratória de alguém na faixa dos 50 anos e as mitocôndrias (aquilo que fornece energia a muitos órgãos do corpo) dos seus músculos funcionam tão bem quanto as de uma pessoa saudável de 20 anos.

Como relata o jornal Washington Post, no ano passado, aos 91 anos, Mazzenga bateu o recorde mundial dos 200 metros ao ar livre para mulheres acima de 90 anos com o tempo de 51,47 segundos. Um mês depois, superou o seu recorde por um segundo. Em ambas as provas, ela competiu contra si mesma, uma vez que está a ficar sem competição da sua faixa etária.

"Em Itália, sou só eu. No campeonato mundial, era eu e um americano", disse Mazzenga por telefone, em julho, ao jornal Washington Post.

Com 1,55 m de altura, é uma velocista de elite com quatro recordes mundiais na sua faixa etária.

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O estilo de vida de Mazzenga em que parar é proibido

A italiana pratica atletismo desde os 19 anos, tendo havido apenas um período em que abrandou. Passar um dia inteiro em casa é caso para esquecer, assume, garantindo que os dias são passados entre corridas e caminhadas.

Os treinos variam: da pista de corrida para as caminhadas nos dias de 'folga'. Na pista, duram cerca de uma hora, começando pelo aquecimento em corrida lenta e depois distâncias curtas de corrida mais rápida, normalmente cerca de 400 metros. Já as caminhadas são feitas nas pausas entre os dias de corridas.

E nem a pandemia a parou. Nesse tempo, corria em casa, num corredor de 20 metros de comprimento, ou saía às escondidas à noite para correr à volta do quarteirão.

Mazzenga está atualmente a treinar para as provas de 100 e 200 metros em setembro, em Catânia, Itália. Após a competição, planeia voltar à Universidade de Pavia para mais testes no âmbito da investigação ao seu caso. Em novembro, começará a treinar em ambientes fechados para a temporada de inverno. Mas, admite: "Dada a minha idade, isso não é garantido. Faço planos mês a mês, não vou além disso."

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Como mudam os nossos músculos com a idade?

Um grupo de cientistas em Itália e nos EUA está a estudar os músculos, os nervos e até mesmo as mitocôndrias da velocista italiana para entender melhor como consegue continuar a bater recordes aos 90 anos.

O estudo do caso de Emma Maria integra um esforço mais amplo, de anos, desenvolvido por investigadores italianos para entender melhor como os nossos músculos mudam à medida que envelhecemos. Marta Colosio, investigadora de pós-doutoramento na Universidade Marquette e primeira autora do estudo de caso, disse que não conseguiu encontrar alguém com 90 anos que pudesse comparar com Mazzenga.

Foi o recorde mundial dos 200 metros indoor para a faixa etária dos 90 anos, conquistado pela italiana em janeiro passado, com um tempo de 54,47, que chamou a atenção dos investigadores. Mazzenga era "perfeita para o projeto", disse Simone Porcelli, co-responsável do estudo e professor associado de fisiologia humana na Universidade de Pavia, em Itália.

A italiana, professora de ciências reformada, entusiasta pela ciência e com interesse em revistas científicas, ficou desde logo feliz por participar no estudo de Colosio e Porcelli.

Debaixo da lente do microscópio, a vitalidade dos músculos de Mazzenga era notória, embora não fosse excecional. As fibras musculares de contração rápida, associadas à velocidade, assemelhavam-se às de uma mulher saudável de 70 anos e apresentava alguma perda muscular normal relacionada à idade. O que a distinguia então? As fibras musculares de contração lenta, associadas a atividades de resistência, pareciam as de uma jovem de 20 anos, assim como o fluxo sanguíneo e as vias nervosas para seus músculos.

A italiana fez testes de ciclismo e levantamento de peso para que os investigadores pudessem avaliar a sua aptidão cardiovascular e força das suas pernas. Verificou-se que a velocista de 92 anos é eficaz em levar oxigénio aos músculos, e as mitocôndrias dos seus músculos estão "bem preservadas".

"Seja pela genética ou pelo estilo de vida — ou uma mistura de ambos — ela consegue manter essa comunicação entre o cérebro, os nervos e os músculos num nível muito mais saudável do que o que normalmente vemos numa pessoa de 90 anos", disse Chris Sundberg, outro dos responsáveis do estudo. As partes funcionais do músculo de Mazzenga parecem estar "a compensar" suas fibras musculares de contração rápida.

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