Até ao Fim dos Tempos: O Homem, o Universo e a nossa busca pelo sentido da vida – Brian Greene

Como foi possível que há 13,8 mil milhões de anos, a partir de todo o caos que foram os primeiros momentos do Big Bang, fenómeno que deu origem ao Universo, tenha surgido a vida (tal como hoje a conhecemos) e, ainda, a consciência humana?

Falamos da mesma consciência, tal como refere o físico teórico e matemático norte-americano Brian Greene, que investigou e descobriu as leis da Natureza que dão forma a tudo o que existe em nosso redor: das estrelas e planetas aos edifícios e carros que criámos, passando pelo próprio corpo humano e a sua mente. É, ao mesmo tempo, uma consciência que tem noção da sua temporalidade e que procura dar sentido à experiência de ‘estar vivo’ através de criações como a história, os mitos, a religião, a cultura e a ciência.

No entanto, também sabemos através dos atuais dados científicos que o Universo, por estar a expandir-se a uma velocidade cada vez maior, se irá transformar num enorme ‘nada’, um Universo vazio e frio – por todo o lado, a temperatura chegará ao mínimo absoluto de 273,15 graus Celsius negativos, sendo que nenhuma forma de matéria conseguirá coalescer num Universo que se esticou e esticou (expandiu desmesuradamente), ao ponto de ter desintegrado tudo o que antes tinha consistência. Mas pode sossegar, pois isto só sucederá daqui a muito tempo, numa era em que os buracos negros, os últimos fenómenos dignos de registo, se terão evaporado: o número de anos até isto acontecer tem 1077 algarismos, mais precisamente, começa com o número ‘1’ e tudo o resto são zeros.

Eis a longa narrativa, do Big Bang até ao que parece ser o fim do Universo, com todos os ‘milagres’ que surgem pelo meio, que o autor, um reputado cientista da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, nos conta nas 400 páginas de Até ao Fim dos Tempos.

Eis o Campo Ultra Profundo do Hubble, obtida pelo Telescópio Espacial Hubble. É a imagem mais profunda do espaço obtida através da luz visível (quando mais longe se observa, mais atrás no tempo se vai). Nela podemos ver cerca de dez mil galáxias da constelação de Fornax, tal como eram há 13 mil milhões de anos. NASA / ESA

“Na amplitude temporal, tudo o que vive, morrerá”, escreve. Mas, se assim é, qual o nosso lugar neste Universo e o que significa (ou terá de significar) ser-se humano? Com que perspetiva temos de nos ver e colocar nesta finitude? Eis um dos pontos fulcrais em que esta obra se foca.

É preciso reconhecer o “quão milagroso é que estejamos aqui”, o “quão espantoso é que uma coleção de partículas possa coalescer em coisas que pensam, sentem e que conseguem criar o belo e o maravilhoso, tal como descortinar grandes mistérios”, diz Brian Green em entrevista ao jornal The Guardian. Em simultâneo, é necessário que saibamos que “não somos permanentes” e que deambulamos por “vidas finitas”.

Não se pode descartar, de forma alguma, a probabilidade de virmos a engendrar, algures no futuro e com a ajuda da ciência, formas de prolongar a vida humana para além do que podemos agora imaginar. Todavia, todo este esforço em procurar a imortalidade vai esbarrar nos limites impostos pelas leis da física. Como é isso possível? Green explica, na mesma entrevista ao diário britânico:

“Sabemos através da segunda lei da termodinâmica [uma das mais importantes leis da Natureza] que qualquer processo físico gera sempre uma certa quantidade de calor, uma certa quantidade de entropia, uma certa quantidade de desordem [sendo que a lei refere que quanto maior for o estado de desordem de um sistema, maior a sua entropia, com tudo no Universo e direcionar-se, inexoravelmente, para um maior estado de entropia]. No futuro distante, o Universo não será capaz de absorver o calor produzido pelo próprio processo de pensar. Logo, e dentro desse ambiente, qualquer ser que tenha um pensamento irá queimar-se na lixeira entrópica [um sistema num estado de enorme desordem] produzida pelo próprio pensamento. Quando se chega a este ponto, nenhum pensamento é capaz de ter lugar.”

Estamos perante uma certeza científica? Antes de mais, é preciso frisar que em ciência não há certezas absolutas, apenas consensos científicos e conjuntos de dados que podem dar robustez a determinadas teorias, modelos e previsões, capazes de explicar com quase perfeição todas as estruturas e fenómenos, dos pequenos aos maiores, que existem no Universo, assim como a sua origem, desenvolvimento e evolução futura.

“Baseio-me nas atuais leis da física, enquadradas nas equações que de momento temos à nossa disposição”, começa por frisar Brian Greene. “Abro portas à possibilidade de que no futuro distante essas leis possam mudar, que a matemática possa mudar. E se as coisas mudarem o suficiente, então, é claro, deixo em aberto a possibilidade de que as conclusões que escrevi no livro sejam afetadas”, remata.

Brian Greene, em primeiro plano, fala para a audiência do programa Star Talk, cujo anfitrião é o astrofísico e famoso divulgador da ciência Neil deGrasse Tyson (ao fundo). Roy Rochlin /Getty Images/ AFP

Alguns leitores poderão pensar que Greene pertence à legião de cientistas que defende a posição intelectual e filosófica do «reducionismo», a ideia (explicando de forma simples) de que um sistema pode ser compreendido no seu todo se compreendermos cada uma das partes que o constituem: como, por exemplo, reduzir a consciência humana, ou sentimentos como o amor, a meros processos físicos e químicos. Face a essa dúvida, Greene é direto a esclarecer:

“O meu ponto de vista é o de que o reducionismo nos dá as bases para os ingredientes fundamentais e leis que subjazem a todos os processos no Universo. Mas isso não significa que um enquadramento reducionista seja a linguagem certa para ter uma perspetiva mais profunda do que é o amor ou o luto, a [vontade de] aspiração ou a ansiedade. Se acredito que estas emoções e sentimentos assentam em leis e partículas? Sim, acredito. Se penso que as leis e partículas providenciam a linguagem correta para uma compreensão profunda destas qualidades humanas? Não acredito. Precisamos de usar a linguagem que é [mais] relevante para os [diferentes] tipos de questões que nos interessam.”

Extraterrestres: O primeiro sinal de vida inteligente além da Terra – Avi Loeb

A história contada no livro do astrofísico Avi Loeb, da universidade norte-americana de Harvard, começou em outubro de 2017, quando o Observatório de Haleakalā, situado no Havai, descobriu um estranho objeto a atravessar a grande velocidade o nosso sistema solar.

Inicialmente, pensou-se que era um cometa, mas observações posteriores, após ter passado perto do Sol a uns impressionantes 87,3 quilómetros por segundo, revelaram a ausência de atividades que seriam típicas de um cometa ao se aproximar do calor emanado por uma estrela: uma cauda feita de gás e detritos, por exemplo. Depois disso, o estranho objeto chegou a ser classificado, embora por pouco tempo, como um asteroide, até que novas medições mostraram que a sua velocidade estava a aumentar, à medida que se afastava do Sol, uma característica típica de um… cometa.

Em suma, os cientistas não sabiam o que estavam a ver, ainda por cima porque se aproximou do Sol a uma velocidade que não podia ter sido causada pela força de gravidade (atração) da estrela. Só existia uma certeza: era a primeira vez que a humanidade testemunhava a visita de um objeto interestelar, vindo de outra parte da galáxia, no nosso Sistema Solar. A frouxa imagem ótica que os astrónomos obtiveram permitiram estabelecer que tinha um aspeto extremamente alongado, com o seu comprimento a ser dez vezes superior à sua largura: um rácio que é bem maior do que qualquer cometa ou asteroide alguma vez detetado.

Batizado de ‘Oumuamua, um nome em havaiano que significa «o mensageiro que veio de muito longe e chegou primeiro», estima-se que meça 400 metros de uma ponta à outra, com outros 40 de largura. A sua superfície é bastante plana, algo igualmente nunca visto, colorida com o que parece ser uma tonalidade avermelhada.

Em 2018, o ‘Oumuamua deixou de ser visível para os telescópios óticos, por se estar a afastar do Sol, numa rota que o vai levar para fora do nosso sistema solar e em direção à constelação de Pégaso. Todavia, deixou para trás, junto dos terráqueos, uma enorme dúvida. É um objeto natural, com características que fogem a muito do que está convencionado, ou estivemos a seguir um objeto artificial, criado por uma civilização extraterrestre?

Primeira imagem estilizada que se criou do objeto interestelar ‘Oumuamua, em dezembro de 2017. Na realidade, ele poderá ser bastante diferente desta idealização. ESO / M. Kornmesser

É precisamente esta última hipótese que Avi Loeb tenta explorar, num artigo científico publicado em outubro de 2018. Segundo Loeb, conhecido pelo seu trabalho enquanto astrofísico e pela coluna de opinião na revista Scientific American, o objeto interestelar ‘Oumuamua pode ser uma fina vela solar, conseguindo acelerar através da pressão exercida pela radiação que as estrelas emitem. Outros investigadores, contudo, dizem que faltam evidências para se poder avançar com essa possibilidade, e há os que afirmam que é improvável que não tenha uma origem natural.

Loeb, juntamente com alguns colegas seus, tem vindo a trocar argumentos com quem discorda da teoria de que o ‘Oumuamua é artificial. Daí o seu livro, recentemente publicado em Portugal, Extraterrestres: O primeiro sinal de vida inteligente além da Terra, um relato com precisão científica e factual da descoberta que causou sensação em 2018, ao mesmo tempo que expõe sua hipótese: a qual admite ser pouco ortodoxa entre a comunidade científica. Ao mesmo tempo, é uma obra onde se explora que tipo de implicações, para a ciência, a religião e o futuro da espécie humana, surgiriam com a confirmação de que o nosso sistema solar é atravessado por objetos criados por outras civilizações.

Em final de junho, esta temática ganhou redobrada atenção quando o Departamento de Defesa dos EUA (o Pentágono) publicou um relatório oficial em que refere ter estudado mais de 140 incidentes reportados como Fenómenos Aéreos Desconhecidos (FAD), envolvendo pilotos de aviões da marinha. Todos estes “fenómenos”, que se encaixam na conhecida categoria de Objetos Voadores Não Identificados – ou OVNI, embora o Pentágono não recorra ao termo –, datam das últimas duas décadas, sendo que muitos desses incidentes ocorreram entre o verão de 2014 e a primavera de 2015.

O Pentágono afirma que nenhum dos fenómenos observados fazem parte de operações militares dos Estados Unidos, mas também não sabe explicar que objetos voadores são aqueles, registados através de sensores e outros instrumentos de observação com os quais estão equipados os aviões da mais avançada força militar do mundo. Alguns dos fenómenos poderão ser resultado de erros ou anomalias provocadas por esses mesmos instrumentos, indica o relatório, mas este também realça que a maior parte, “provavelmente, representam objetos físicos” reais.

Não obstante, o Departamento de Defesa diz não acreditar que extraterrestres estejam na sua origem. Face a este enigma, espera-se a ciência possa dar respostas.

Imagem retirada de um dos vídeos divulgados ao público pelo Pentágono, onde surge o que classificam como um Fenómeno Aéreo Desconhecido. Department of Defense / US Navy

Tal como refere Avi Loeb, num artigo que escreveu para a Scientific American, quase todos os FAD reportados pelo relatório do Pentágono deverão ser meros fenómenos naturais. Todavia, lança uma questão: “se um só desses fenómenos for extraterrestre, poderá existir alguma ligação com o ‘Oumuamua?”

Definitivamente, este objeto interestelar, devido às suas características nunca antes observadas e estimadas, fez despertar dentro da comunidade científica um debate, sério e respeitável – que nada tem a ver com a pseudociência –, sobre o que foi afinal avistado em 2018 e qual a hipótese de, a ser artificial, existirem mais objetos iguais a passarem pelo nosso sistema solar.

Se o ‘Oumuamua tem uma origem natural, Loeb argumenta que, então, o Sistema Solar teria de ser constantemente atravessado por vários destes objetos, os quais seriam logo detetados, e em massa, pelos astrónomos. Só que não é o caso.

Uma das teorias que avança é a de que o ‘Oumuamua pode ser uma sonda extraterrestre que tinha como destino o Sol, com o objetivo de recolher dados à região em torno da nossa estrela que é considerada habitável (ideal para o surgimento de vida), e dentro da qual está a Terra. Isso poderia, igualmente, explicar a sua forma extremamente plana e comprida, perfeita para servir de recetor na recolha de dados. Dentro desse campo de possibilidades, o objeto até poderia estar a recolher informações de outras sondas, mais pequenas, que já existiam na Terra – e nos quais podem estar incluídos alguns dos fenómenos que o Pentágono descreve no seu relatório.

O astrofísico Avi Loeb créditos: Bryan Bedder / Getty Images for Breakthrough Prize Foundation / AFP

Ao mesmo tempo, a sua forma plana permite que o ‘Oumuamua possa deslocar-se, usando a radiação solar que sobre ele incide como forma de propulsão. A ideia não é, de forma alguma, descabida. Em 2020, o mesmo telescópio do Havai que descobriu o ‘Oumuamua (o Pan-STARRS) identificou um outro objeto que se descolava sem um rasto típico de um cometa: verificou-se que era um propulsor de um foguete espacial lançado da Terra para o espaço em 1966. A superfície deste objeto artificial, do qual se tinha perdido o rasto, era suficientemente fina e grande para receber radiação solar e ganhar a velocidade que a permite deambular pelo Sistema Solar.

No seu livro, Loeb admite não gostar de histórias de ficção científica, porque os seus enredos violam quase sempre as leis da física. Contudo, pede para que exista uma mente aberta para a possibilidade de a ciência poder revelar, algures no futuro, “uma realidade que antes era considerada ficção”.

Uma História do Cérebro: O passado e o futuro da neurociência – Matthew Cobb

Os entusiastas que leem os livros do neurocientista português António Damásio ficam quase sempre admirados pelo muito que já se descobriu e compreendeu sobre o nosso cérebro. No caso das obras de Damásio, conseguimos perceber melhor alguns dos processos cerebrais que estão na origem das emoções, dos sentimentos e da consciência, com enfâse (por ser a área de investigação do cientista luso) para as emoções que estão atrás das nossas tomadas de decisão.

No entanto, e para os investigadores na área das neurociências, o que está dentro do nosso crânio ainda é uma espécie de ‘novo mundo’ por desbravar. Não é fácil acompanhar tudo o que se tem descoberto neste campo, até porque existem ideias e teorias que, com o passar do tempo e por via de novas descobertas e outros consensos científicos, acabam por ficar desatualizadas e perder validade.

O britânico Matthew Cobb, zoólogo da Universidade de Manchester, notabilizou-se na última década e meia pelos seus livros destinados a popularizar a ciência, junto de um público leigo e recorrendo a uma linguagem acessível, mas sem deixar de ser cientificamente rigoroso. O seu alvo, desta vez, foi o nosso cérebro e a aventura que começou no século XVIII, quando se começou a estudar este órgão de uma forma inovadora e revolucionária. O caminho que se trilhou, desde então e até aos dias de hoje, é, igualmente, um rol de histórias – muitas delas desconhecidas do grande público – sobre as diferentes visões com que se abordou o funcionamento do cérebro e os processos que dentro dele ocorrem.

Representação do cérebro e do cerebelo desenhada na primeira metade do século XIX pelo anatomista francês Jean-Baptiste Marc Bourgery.

Um exemplo. Faz sentido que ainda digamos que o cérebro é igual a uma máquina, como se existissem componentes individuais no seu interior e cada um tivesse uma função própria e única? A ideia, antes de se popularizar por todo o mundo, foi apresentada em 1665 pelo anatomista dinamarquês Nicolau Steno, junto de um pequeno grupo de pensadores e num local situado nos arrabaldes de Paris. Segue-se a resposta: atualmente, isso deixou de fazer sentido, até porque diferentes áreas do cérebro (muitas delas distantes entre si) são ativadas quando temos de tomar determinadas decisões ou quando algo faz despontar um sentimento.

E a analogia de que é como um computador? Essa é outra visão, que brotou na década de 1950 quando os conceitos da informática inundaram a biologia, que nos dias de hoje levanta enormes dúvidas junto da comunidade científica, até porque, tal como ficou estabelecido em meados do século XX, “o cérebro não é digital”. Tudo isto, e muito mais – abarcando uma linha temporal de 350 anos de investigações e descobertas – é abordado ao longo das 500 páginas de Uma História do Cérebro.

Numa entrevista que deu em 2020, Matthew Cobb resumiu perfeitamente a situação atual, a qual, na sua opinião, ainda surge como uma revelação para muitas pessoas:

“Temos uma ideia muito pequena do que o cérebro humano realmente faz. O desafio ao nosso conhecimento, que são os mais de 80 mil milhões de neurónios nos nossos cérebros, é bem representado pelo estômago da lagosta – um conjunto de 30 estranhos neurónios que produzem dois ritmos e dão energia ao poder de trituração dos músculos na parede do estômago. Sabemos tudo sobre esses neurónios – como se conectam, os químicos que correm dentro e entre eles, o modo como exatamente se comportam. Mas, mesmo assim, não compreendemos como e porquê esta rede [de neurónios] faz aquilo que faz. Não se consegue prever com precisão, usando um modelo de computador, o que acontecerá se alterarmos a atividade de um neurónio ou o removermos por completo. De momento, o estômago da lagosta é algo que nos escapa. E isto é apenas uma simples rede com somente 30 neurónios.”

O cientista e autor Matthew Cobb Stuart Phillipson

Apesar de tudo, avanços e experiências de pasmar é o que não faltam, conforme Cobb relata no seu livro:

“Podemos agora fazer com que um rato se lembre de algo acerca de um cheiro com que nunca se deparou, transformar a má memória de um rato em boa e mesmo usar um impulso elétrico para mudar a forma como as pessoas percebem os rostos. Estamos a obter mapas funcionais do cérebro – do ser humano e de outros animais – cada vez mais pormenorizados e complexos. Em algumas espécies, conseguimos mudar à nossa vontade a própria estrutura do cérebro, alterando, em resultado disso, o comportamento do animal. Algumas das mais profundas consequências do nosso crescente domínio podem ser vistas na nossa capacidade para permitir que uma pessoa paralisada controle um braço robótico com o poder da sua mente.”

Só que, continua:

“Não conseguimos fazer tudo: pelo menos por enquanto, não conseguimos criar artificialmente uma experiência sensorial precisa num cérebro humano (as drogas alucinogénias fazem-no de uma forma descontrolada), embora pareça que possuímos o sofisticado nível de controlo exigido para realizar essa experiência num rato.”

Trabalho: Uma História de Como Utilizamos o Nosso Tempo - James Suzman

Segundo as ideias do investigador e antropólogo David Graeber (faleceu em 2020) não é através da idealização que as sociedades ocidentais fazem do trabalho – de um emprego – que brotará algo capaz de dar, a toda uma civilização, um sentido existencial. Em 2013, para a Strike! Magazine, escreveu um artigo de opinião, que também se lê como um manifesto, que se transformou numa fonte de inspiração e importante referência: On the Phenomenon of Bullshit Jobs: A Work Rant, (em português ‘suave’, Sobre O Fenómeno dos Empregos da Treta).

O primeiro parágrafo resume, com suficiente clareza, o que está em causa:

“No ano de 1930, John Maynard Keynes previu que, até ao final do século XX, a tecnologia teria avançado o suficiente para que países como a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos pudessem implementar a semana laboral de 15 horas. Não faltam motivos para acreditar que tinha razão, dado que a nossa tecnologia atual o permitiria. E, no entanto, isso não aconteceu. Em vez disso, a tecnologia inventou novas formas para que trabalhemos mais. A fim de alcançar este objetivo, foram criados novos trabalhos, que não têm, efetivamente, nenhum sentido. Enormes quantidades de pessoas, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, passam toda a sua vida profissional na execução de tarefas que, no fundo, consideram completamente desnecessárias. É uma situação que provoca um dano moral e espiritual profundo. É uma cicatriz que marca a nossa alma coletiva. Mas quase ninguém fala disso.”

Trabalho: Uma História de Como Utilizamos o Nosso Tempo é o último livro publicado por James Suzman, um investigador especializado nos antigos povos do sul de África e que tem tentado utilizar os métodos antropológicos na resolução dos atuais problemas económicos e sociais. Segundo ele, é preciso dar resposta, sem mais demoras, a algumas questões essenciais: “Porque é que damos agora tanta importância ao trabalho, muito mais do que davam os nossos antepassados caçadores-recolectores? Por que razão, numa era de abundância sem precedentes, continuamos tão preocupados com a escassez”, escreve.

Efetivamente, vivemos numa era em que o trabalho, a atividade profissional que desenvolvemos, se impõe como a bitola que vai definir quem somos. Basicamente, é o trabalho que vai definir a nossa condição social, influenciar os nossos valores e, inclusive, o nível de autoestima que temos. Aliás, a maior parte do nosso tempo de vida é passado a trabalhar e junto das pessoas com quem trabalhamos – mais do que com a família. Mais: mostrar que trabalhamos de forma árdua e incessante transformou-se em algo considerado moralmente bom e culturalmente bem-visto.

Mas, como foi que aqui chegámos? É que, se olharmos para todos os milénios que estão atrás de nós, esta relação que a humanidade tem com o trabalho é algo relativamente moderno, relembra o antropólogo britânico. Com o passar do tempo, criou-se a pujante ideia de que só trabalhando arduamente é que a humanidade pode sobreviver e prosperar, algo que se tornou mais notório quando fizemos a transição para uma economia que depende do capital financeiro.

Muitas das observações e análises que Suzman faz na sua obra de 330 páginas tiveram como ponto de partida os 15 anos que passou entre a tribo bosquímana Ju/’hoansi, na Namíbia, um povo cuja cultura e modo de vida remonta há 200 mil anos.

Um museu vivo. Os descendentes da tribo bosquímana Ju/’hoansi (na fotografia, alguns membros) que conseguiram escapar ao trabalho forçado imposto pelo colonizadores europeus ainda continuam a ser caçadores-recolectores. Stephan C. Schuster / Penn State University

“Agora sabemos [graças à antropologia e à arqueologia] que caçadores-recolectores como os ju/’hoansis náo viviam constantemente à beira da privação. Antes pelo contrário, tinham boa nutrição; viviam mais do que as pessoas na maioria das sociedades agrárias; raramente trabalhavam mais do que quinze horas por semana, e passavam a maior parte do tempo em repouso e lazer. Sabemos também que o podiam fazer porque não armazenavam regularmente alimentos, pouco se importavam com a acumulação de riqueza ou posição, e trabalhavam quase exclusivamente para suprir necessidades materiais de curto-prazo”, explica.

O problema, para James Suzman, está nas redutoras visões que muitos economistas têm em relação a fenómenos que a antropologia e a arqueologia têm vindo a estudar ao longo das últimas décadas, e cujas conclusões chocam com o senso-comum ‘economês’. Um suposto senso-comum que assenta em ideias vagas e cientificamente não comprovadas, nomeadamente sobre como viviam os humanos no passado, os seus desejos, quais as suas pretensas dificuldades e quais as melhores formas de organização e tipos de mentalidade que adotaram para fazer face a elas.

“Embora o problema económico insista que estamos todos condenados a viver no purgatório entre desejos infinitos e meios limitados, os caçadores-recolectores tinham poucos desejos materiais, e podiam satisfazê-los com poucas horas de esforço. A sua vida económica organizava-se em torno da presunção de abundância e não da preocupação com a escassez. Sendo assim, há bons motivos para crer que, como os nossos antepassados foram caçadores-recolectores durante mais de 95 por cento dos 300 mil anos da história do Homo sapiens, os pressupostos sobre a natureza humana no problema da escassez, e na nossa atitude para com o trabalho, estão enraizados na agricultura”, conclui. Ou seja, a forma como hoje em dia encaramos o trabalho – a visão de que viver é trabalhar – nasce com o aparecimento das primeiras sociedades agrárias, pois viam a acumulação, neste caso de alimentos, como o objetivo a atingir.

Pois bem, qual o futuro do trabalho numa era (a atual) que se afigura como de grandes transformações, quanto mais não seja devido ao aumento da automação? Antes de mais, indica James Suzman, há que definir melhor conceito de trabalho, o que realmente ele é. Nesse sentido, ‘trabalho’ pode ser definido como tudo o que envolve “gasto de energia ou esforço propositado para alcançar metas e fins”. Perante este conceito, Suzman defende que a automação vai mesmo revolucionar a forma como nos relacionamos com o trabalho e, espera, levar a um futuro mais equitativo e sustentável.

O antropólogo e autor James Suzman.

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