É através da conta Espécie Rara Sobre Rodas, no Instagram, que Catarina Oliveira tem sido uma voz ativa nos direitos das pessoas com deficiência. “Por cada vez que pensares que o meu maior desejo é voltar a andar, constrói uma rampa”, lê-se logo na descrição da conta. A acessibilidade é uma das suas grandes lutas, usa o humor e a leveza para desconstruir preconceitos, enerva-se com as injustiças e fala sobre assuntos até então praticamente tabus. Recorda a diversidade de pessoas com deficiência e mesmo as que não são visíveis. É nutricionista e consultora na área da diversidade e inclusão e DJ nos tempos livres.

Esteve no Rock in Rio, a convite do festival para testar a sua acessibilidade, e conta ir ao Super Bock Super Rock. Além das óbvias rampas ou de sistemas de língua gestual, falamos ainda de salas de silêncio e da necessidade de formação ao staff. Acima de tudo, para Catarina, é importante que as pessoas com deficiência sejam consideradas como público que gosta de música, de se divertir e com capacidade financeira. Ou seja, o público dos festivais de verão.

Quais são os maiores entraves à acessibilidade nos festivais de verão? 

Eu acho que o maior entrave é nem sequer se considerar a existência da pessoa com deficiência como consumidora deste tipo de produtos e festivais, porque não se considera que é um público que se quer divertir e que tem condições para isso. Ao desconsiderarem a pessoa, desconsideram todas as suas necessidades específicas.

Fui ao Primavera Sound e recentemente ao Rock in Rio e vou ao Super Bock Super Rock e talvez ao Boom. O Rock in Rio é um dos poucos festivais que aposta na inclusão. Embora ainda haja algumas melhorias a ser feitas, tem a perspetiva de querer fazer e de convidar pessoas com deficiência para testar a acessibilidade e ver o que há para melhorar.

O que é preciso melhorar com mais urgência?

Falta muita informação. Por exemplo, queremos comprar um bilhete mas não sabemos quais são as condições do festival, se há estacionamento reservado, se há casa de banho adaptada ou por exemplo se há bilhete gratuito para o acompanhante, como já acontece no Reino Unido. Essas informações não estão online e mesmo ligando a perguntar muitas vezes não sabem responder. Como a maior parte dos festivais não tem acessibilidade nem sequer veicula a falta de acessibilidade.

Quais foram as principais mudanças que já foram feitas e que realmente têm impacto no público com deficiência?

Catarina Oliveira

Posso falar de algumas coisas que vi no Rock in Rio, que para já é o melhor exemplo que tenho. Havia logo um plano de acessibilidade, em que informavam onde eram os lugares de estacionamento, a plataforma, a casa de banho adaptada, se tinham audiodescrição para as pessoas cegas ou intérpretes de língua gestual num dos palcos para as pessoas surda. Tinham também uma oficina onde se podia deixar a cadeira de rodas e trocar por outra com um equipamento de propulsão para que se pudesse desfrutar melhor do festival.

Na parte da restauração, havia uma mesa sem bancos fixos para que as pessoas com cadeiras de rodas pudessem lá parar. Muitos dos stands tinham rampa, mas infelizmente ainda não conseguiram que isso fosse uma obrigatoriedade, como acontece no Rock in Rio Brasil – um stand que quer estar no Rock in Rio tem de ter uma rampa. Aqui ainda não aconteceu mas já fizeram alguma intervenção.

"Haver um plano de acessibilidade já é um grande passo"

O documento PDF completo que apresenta a acessibilidade já é para mim um grande passo. Sei que no Primavera Sound foi complicado saber se havia ou não estacionamento, e depois acho que não havia. Em geral, há uma falta de informação muito grande. E acho que o Rock in Rio se diferenciou por isso, não só com a acessibilidade física, mas também por comunicarem o que ofereciam a nível de acessibilidade.

Além da comunicação do plano de acessibilidade, o estacionamento, as rampas e o acompanhante, o que falta mais para um festival ser totalmente inclusivo? É concretizável esta ideia?

Sim, é perfeitamente possível e há exemplos de festivais completamente inclusivos. Há muito trabalho a fazer porque há muitas necessidades diferentes e não falo só das pessoas com deficiência – há muitas pessoas com necessidades específicas.

Falamos da gratuitidade do bilhete do acompanhante porque há muitas pessoas que se não forem acompanhadas não conseguem ir… Isto é uma bola de neve, porque faltam transportes públicos acessíveis, e a pessoa não consegue ir sozinha, ou deslocar-se no festival, por exemplo. Neste caso, o acompanhante é alguém que está a desempenhar um trabalho. Mas é preciso ver a pessoa com deficiência como potência económica, porque eu também vou com amigos que pagam bilhete e que vão para se divertirem comigo.

Mas faltam coisas de facto físicas, sobre como é a estrutura do festival. Há festivais em sítios mais complicados mas hoje em dia com a tecnologia já se pode tornar possível que as pessoas tenham uma experiência confortável. É preciso perceber onde se vai construir a plataforma, como é a visibilidade dessa plataforma, onde é que vão estar as casas de banho adaptadas, quantas são, se há acesso aos stands ou se a restauração tem balcões rebaixados para pedir a comida.

Falta perder o medo de se declararem como inacessíveis, muitos simplesmente ignoram esta questão. Só a partir daí é que pode haver um trabalho de construção, que é lento mas que se pode fazer.

Além das deficiências motoras, como é que os festivais têm lidado e quais os tipos de soluções para outros tipos de deficiências?

A deficiência é algo muito diverso. Por exemplo, para as pessoas cegas é importante que haja equipamentos de audiodescrição, sinalética correta nos pisos para saberem para onde estão a ir ou alguém da organização para fazer uma breve descrição do local, poderá haver equipamentos com braile, embora nem todas as pessoas cegas saibam ler braile e daí a importância da audiodescrição.

"Ao contrário do que muita gente possa pensar, os surdos vão e desfrutam de concertos."

No caso das pessoas surdas, é importante haver pessoas que saibam Língua Gestual Portuguesa, intérpretes nos concertos – ao contrário do que muita gente possa pensar, os surdos vão e desfrutam de concertos, é uma experiência visual, de vibração e que se sente de outra forma.

"É preciso considerar as pessoas com deficiências intelectuais e com neurodiversidade"

É preciso considerar as pessoas com deficiências intelectuais, que podem precisar de linguagem mais simples ou direta para perceber onde estão, para onde vão o que podem consumir, etc. Também é preciso pensar nas necessidades de pessoas com neurodiversidade, como por exemplo as pessoas autistas, que podem precisar de salas de silêncio ou de um espaço mais reservado. Já há alguns sítios que têm estas salas.

Muito importante também é dar formação ao staff. É muito importante ensinar algumas coisas para que possa haver uma comunicação eficaz. Por exemplo, quem vai interagir com alguém que tem um cão-guia tem de saber que não pode brincar com o cão, porque está em trabalho. Ou alguém que me vê na minha cadeira de rodas tem de saber que não pode resolver pegar e levar-me para onde acha que eu quero ir. Há aqui um trabalho longo a ser feito.

Quais são as tuas expectativas? Sentes que as coisas estão a melhorar ou esta evolução está a ser muito lenta?

As coisas estão a melhorar, falo com pessoas que têm uma deficiência há vinte anos e que dizem que as coisas nem se comparam.

Não é preciso ter medo de abordar estes temas porque não se sabe como lidar. Já não é tempo de se dizer que é difícil, que é amanhã ou que a pessoa com deficiência não é o nosso público. Claro que é, só não é porque não são acessíveis. É preciso desconstruir isto.

Sou otimista mas também realista. Às vezes, parece que as pessoas com deficiência apareceram agora e não é isso. Não tínhamos voz e agora temos. As coisas não foram construídas a pensar em nós e agora quando se constrói é necessário fazer diferente, mas tem de se fazer. Parados é que não!

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