O projeto que maior felicidade me trouxe até hoje, foi ter sido voluntária como professora de teatro na CAIS. Para quem pode não ter presente, a CAIS é o nome que vemos nos coletes de vendedores de revistas nos semáforos de Lisboa e Porto. É uma associação cuja missão é melhorar a qualidade de vida de pessoas que por alguma razão, se encontram numa situação frágil perante a sociedade.

Voluntariei-me para ser professora de português na CAIS, quando me responderam “por acaso não poderia ser professora de teatro? Ficámos sem professora, e é uma atividade que eles adoram”. Nem estava a acreditar no que estava a ouvir. Fiz teatro toda a minha vida na escola e já mais velha, inscrevi-me em dois workshops profissionais. E agora, a vida estava-me a dar a oportunidade de explorar o teatro e com isso, potenciar talentos de outras pessoas que talvez fizessem muito melhor uso da prática do que eu alguma vez faria. A vida dá-nos de facto tudo, é só preciso estarmos atentos.

Deparei-me com um grupo de 6 pessoas que se encontravam lá pelas mais variadas razões: toxicodependência, problemas psicológicos, extrema pobreza e até, problemas de identidade de género que levaram a um descarrilamento na vida. Não que eu não soubesse, mas tornou-se claro: pode acontecer a qualquer um de nós. Pode acontecer a qualquer um de nós que as circunstâncias mudem ou que a sorte não nos bata à porta. Porque acredito que sim, para além de mérito, é preciso uma boa dose de sorte.

Nunca vi a representação ter sido tão bem usada, nem no teatro profissional. Agora talvez o perceba melhor – as pessoas da CAIS estão sedentas de sair do seu mundo e imaginar outro. São também pessoas que não estão amarradas a nenhum ideal do que é bem visto ou não em teatro. Estão livres de preconceito e livres de ambição nesse campo: a base perfeita para criar.

O teatro é essencial não para criar grandes atores (se bem que se saírem de lá alguns, melhor!) mas para trabalhar: auto-estima, confiança à frente dos outros, projeção de voz, falta de medo do ridículo, empatia e, não menos importante, a capacidade de imaginar, de sair de nós.

Saí de lá com a ideia de que se sonharmos e criarmos novas possibilidades em ficção, talvez consigamos passar essa capacidade para a nossa vida: vermos para lá do que temos ou do que achamos que somos. Vermo-nos com mais força, ou vermo-nos com maior estrutura, ou garra, nem que seja em personagem, pode ser que nos faça reinventar na vida real.  O crescimento que vi neles (e em mim) foi extraordinário. Durante todo o processo, fomos acreditando cada vez mais nas nossas próprias capacidades.

No final dos dois anos, apresentámos uma peça criada pelos utentes da Cais no Chapitô, com sala cheia durante todo o tempo que teve em cena. O orgulho que eu e eles sentimos encheu-nos o coração. Só gostaria que a sociedade também se pudesse reinventar. Que pudesse ter olhado para os atores com verdadeiro talento, e que conseguissem ver para além das circunstâncias deles. Que alguém tivesse contratado o Afonso, o ator principal, que era considerado brilhante de forma unânime.

Não foi o caso. Espero que no futuro seja diferente e que todos nós trabalhemos a nossa forma a imaginar um mundo melhor, para depois criá-lo. Talvez devêssemos todos fazer teatro.

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