No início deste ano letivo juntei-me a um projeto desenvolvido pela Academia TEN, que pretendia levar o treino de rugby às crianças da Casa Pia. Quem não está familiarizado com projetos desta natureza vê aqui uma excelente receita para uma tragédia. Um campo, 50 crianças eventualmente problemáticas e um desporto que permite “pancada gratuita” durante 1 hora. Um autêntico “salve-se quem puder”. Felizmente, vários projetos semelhantes, tais como o Rugby Com Partilha e as Escolas da Galiza, têm desbravado caminho e contrariado esta ideia ainda presente.

Tenho que confessar que quando passei pelo portão da Casa Pia pela primeira vez também eu ia preparado para encontrar um conjunto de crianças rebeldes e desconfiadas, envolvidas num ambiente duro e hostil.

Comecei o treino por tentar delimitar um campo de jogo com cones de várias cores. Fui colocando os cones na relva, ordenados com alguma perfeição, mas rapidamente notei que as linhas que fazia iam desaparecendo. Foi então que reparei que um rapaz muito sorridente, chamado Afonso, tinha pegado nos meus cones e construído um castelo no meio do campo, que agora era apreciado por todos os outros. Nesse momento percebi que as crianças que ali se encontravam eram… crianças. Normais. Algumas delas com as suas limitações, outras envolvidas em contextos mais difíceis, mas todas crianças que se querem divertir, brincar com os amigos e fazer tudo aquilo que uma criança desta idade faz.

Depois de recuperar os cones, juntei tantos “pequenos jogadores” quantos consegui e comecei-lhes a explicar o primeiro exercício que íamos fazer. A meio da explicação vi uma rapariga baixinha a levantar-se, impaciente, e a mimicar tudo o que eu dizia. Sem perceber o porquê, pedi-lhe que se sentasse, ao que ela me respondeu “Então e eles?”. Apontou para um grupo de miúdos que usava aparelho auditivo e para quem, percebia agora, tinha estado a fazer a tradução gestual. Um ato muito simples, mas suficiente para me fazer notar, pela primeira vez, na bondade genuína e humanidade destas crianças.

Ao longo dos últimos meses tenho presenciado inúmeros episódios espetaculares que comprovam o enorme coração das crianças da Casa Pia. Acredito plenamente nas suas capacidades e, acima de tudo, acredito que podem ter pela frente um futuro muito promissor. Para isso, confio no Rugby. Um desporto afamado pelos seus princípios: entreajuda, lealdade e respeito. Um desporto com um enorme sentido de inclusão que, pela própria natureza do jogo, nunca lhes dirá que são demasiado altos, baixos, gordos ou magros. No Rugby há lugar para cada um deles, para as suas características únicas e até para as suas limitações. Fica, desta forma, bem mais brilhante o caminho a percorrer.

Afinal, quanto dá 50 crianças da Casa Pia + 1 desporto muito inclusivo?

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