É por escassear civismo na sociedade que se fala tanto dele? Acredito que sim. E acredito mais: que uma das principais causas do nosso atraso em tantos campos da vida tem a ver com a nossa crónica falta de civismo. Uma pessoa marca às 10 da manhã e aparece ao meio-dia. Depois arranja uma desculpa esfarrapada. Um desastre para a produtividade, respeito pelo próximo e eficácia nacional.

Para mim, civismo é empenho pessoal e compromisso para fazer alguma coisa no meu mundo, a partir da minha casa, do meu trabalho, da minha comunidade. Tudo isto pode parecer lugar-comum, mas é preciso relembrar os lugares-comuns de vez em quando. O civismo parece algo descartável, fora de moda. Pelo que a pergunta não me sai da cabeça: por que é que algo tão essencial caiu em desuso? Talvez porque o civismo não se consuma. Não tenha valor monetário. Nada se ganhe de material com ele. Também nada custe. É exactamente este resgate da gratuitidade, de algo que é dado sem esperar nada em troca, que é preciso sublinhar – e em tempos de pandemia referir até à náusea, já que os meus actos têm impacto na vida dos outros. Literalmente.

Mas afinal o que é o civismo? Não tenho uma resposta científica, apenas empírica. O que ensinei aos meus filhos é que civismo é respeitar as filas, é devolver o troco quando está errado, é engolir a palavra ríspida, calar a má-língua, olhar as pessoas nos olhos. Civismo é não deitar papéis para o chão, não deixar uma toalha a guardar o lugar o dia inteiro na praia disputada, não abusar do poder quando se tem acesso a ele, não desprezar o conceito de serviço público. Civismo é não desmerecer os outros, não humilhar, não deixar o carro estacionado em segunda fila, não atender o telemóvel no elevador… Mas também é ser ético, pagar impostos – porque quem é desonesto rouba um pouco de cada um de nós –, ser tolerante com as diferenças. Civismo é tratar com cortesia todos os que nos rodeiam, e sobretudo quem ocupa posições consideradas socialmente inferiores. Procurei ensinar aos meus filhos que civismo é dizer “bom dia”, “por favor”, “obrigado” e “até logo” não só ao professor ou ao colega de turma, mas também ao senhor do café, à empregada doméstica, à auxiliar na escola. Civismo é travar a incontinência verbal, é não ofender, é não cerrar o rosto como um armário como se não houvesse amanhã. Civismo é gentileza. Significa cuidar não de alguém, mas de qualquer um. Mesmo que ele não seja nosso amigo. Cuidar por nada. Sem precisar de motivo.

O que tem faltado às pessoas é accionarem o tribunal da sua própria consciência, para assim deixarem de desrespeitar o interesse comum apenas “porque todos o fazem”. É conseguirem ligar o “vergonhómetro” interno. Para não termos de lidar com a azia – aquela certeza de que o mundo recua de cada vez que avança.

Civismo é um compromisso com o futuro. Em tempos de pandemia, se fossemos um pouco mais cívicos, talvez não precisássemos de enfrentar, na maioria dos concelhos do país, este novo estado de emergência nem o recolher obrigatório. Seria bom sinal que ninguém nos tivesse de obrigar, que o dever cívico de recolhimento e o cumprimento das regras na partilha de um espaço que é de todos fosse absolutamente natural e intrínseco.

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