É debaixo das árvores que consigo, verdadeiramente, sentir o hálito a esperança que traz a brisa e a harmonia doce que alivia o corpo e a alma. Quando o vento atiça a alma das árvores apetece-me sempre agradecer à natureza ter composto para mim esta partitura. Desde muito novos aprendemos a importância das árvores. Dão-nos sombra, madeira, papel, o ar que respiramos. Com o passar do tempo distanciamo-nos delas. Esquecemos a textura do tronco, não distinguimos espécies e não temos tempo para admirar a sua beleza.

Mas elas estão aí, umas mais acarinhadas do que outras, e continuam a contribuir para o bem-estar humano. Ainda que a maioria de nós nem dê por isso. Felizmente há quem se empenhe na divulgação e preservação de uma herança que é de todos. Certas árvores até têm estatuto de protecção semelhante ao do património edificado. São as árvores de interesse público, que se distinguem pelo porte, desenho, idade, raridade, importância cultural ou histórica. Uma boa notícia é que cada um de nós, se conhecer uma árvore que preencha um dos requisitos anteriores, pode propô-la a interesse público. Este estatuto confere à planta uma área de protecção num raio de 50 metros e obriga a que qualquer intervenção na árvore ou no solo careça de autorização do ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas). É a esta entidade pública que se deve dirigir as candidaturas, por escrito, acompanhadas de uma foto e da descrição pormenorizada do local onde a árvore se encontra. Se tivermos dúvidas em relação ao pedido de classificação, ou sobre os méritos da árvore que admiramos, podemos recorrer à Associação Árvores de Portugal, que conduzirá o processo por nós. A associação foi criada com o intuito de divulgar, dignificar e proteger o património arbóreo de Portugal.

“A árvore que provoca em alguns lágrimas de alegria é, aos olhos de outros, simplesmente uma coisa verde no meio do caminho”, escrevia o poeta e pintor inglês William Blake, em 1799. Para mim, quase todas são notáveis e veneráveis. Mas se tivesse de seleccionar as duas árvores da minha vida escolheria sem hesitar: a oliveira e a ginkgo.

A oliveira é uma árvore absolutamente bela, de folha permanente, que me remete para tempos imemoriáveis. Encontraram-se caroços de azeitona em escavações de povoamentos com mais de 6000 anos na Palestina. Existem vestígios fossilizados de oliveiras que foram encontrados em Itália. No Norte de África, foram descobertas pinturas nas rochas das montanhas do Saara Central, com idades superiores a 6000 anos. Em Portugal temos algumas oliveiras milenares, o que me deixa maravilhada. Milenares! Uma delas foi classificada, em 1984, como árvore de interesse público por solicitação dos responsáveis do empreendimento Pedras D’el Rei, em Santa Luzia, no Algarve. É aqui que esta velha árvore, com mais de 2000 anos, resiste ao passar do tempo, continuando a produzir frutos, como fazia no tempo dos romanos. No futuro, quando a selecção artificial de oliveiras, em busca de variedades mais produtivas, redundar em árvores incapazes de resistir a doenças, é aos genes de um exemplar como este que os cientistas pedirão auxílio.

A outra árvore da minha vida é a gingko. Esta não é uma árvore qualquer. Para explicar porquê conto este episódio real: a 6 de Agosto de 1945 uma bomba nuclear rebentou em Hiroshima, nos famosos bombardeamentos atómicos das cidades de Hiroshima e Nagasaki no fim da Segunda Guerra Mundial. A cerca de 1 quilómetro do ponto de impacto estava uma ginkgo. A árvore ficou completamente queimada, mas as suas raízes resistiram à força da mais destrutiva das armas, e delas nasceu uma nova árvore. Bela, por sinal. Resistente e bela, como que a ensinar-nos que a beleza também pode vir das agruras, como que a recusar delicadezas e fragilidades sem sentido. Hoje, é considerada monumento nacional em Hiroshima e alvo de peregrinação, para que as pessoas possam adorar este exemplar emblemático. Símbolo da resistência, da capacidade de adaptação e da imortalidade. Em Portugal, o exemplar mais antigo da venerável ginkgo biloba – com cerca de 200 anos – pode ser apreciado no jardim das Virtudes, no Porto. Vale a pena uma viagem só para conhecer esta árvore. Eu já estive sentada debaixo desta gingko, a contemplar o jardim, ouvindo a melodia do vazio. Como se o “nada” contivesse o “tudo”. Debaixo de uma árvore como esta, parece que se acende um candeeiro dentro da cabeça. Como se passássemos a ver coisas que antes estavam escondidas.

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