
À medida que a inteligência artificial (IA) e a sua vertente generativa (Gen AI) se tornam parte integrante do quotidiano, o desporto – território por excelência da emoção humana – vive uma metamorfose silenciosa mas estrutural. O novo estudo Beyond the Game: The New Era of AI-Powered Sports Engagement, do Research Institute da Capgemini, levanta o véu sobre a forma como estas tecnologias estão a reconfigurar a relação entre os adeptos e o fenómeno desportivo global. Estamos perante uma nova era, onde a personalização e a imersividade coexistem com a nostalgia do estádio, exigindo um equilíbrio sensível entre inovação e autenticidade.
Um novo paradigma de consumo desportivo
Mais de metade dos adeptos inquiridos (54%) recorre já a ferramentas de IA como principal fonte de informação desportiva. As soluções de Gen AI são igualmente bem acolhidas, com 59% a confiarem nos conteúdos por elas produzidos. Este comportamento sinaliza uma mudança estrutural no consumo de desporto: os fãs deixaram de depender exclusivamente de transmissões tradicionais e começam a privilegiar conteúdos gerados por algoritmos — como resumos personalizados, destaques em tempo real ou análises estatísticas adaptadas aos seus interesses.
Com 67% a expressarem o desejo de aceder a toda esta informação numa única plataforma integrada, a pressão sobre clubes, federações e operadores de media aumenta. A exigência do adepto digital é clara: simplicidade, personalização e rapidez.
A IA como potenciadora da experiência — mas não substituta da emoção
Apesar do fascínio pelas tecnologias emergentes, a presença física no estádio mantém-se como um ponto alto da vivência desportiva. Segundo o estudo, 37% dos adeptos afirmam já ter assistido presencialmente a um jogo este ano. O regresso aos recintos desportivos, após o interregno pandémico, confirma que a autenticidade e a emoção partilhada ao vivo continuam a ser valores centrais para muitos fãs.
Neste novo equilíbrio, a IA pode funcionar como um complemento valioso. Cerca de 64% dos adeptos gostariam de receber atualizações em tempo real, adaptadas às suas preferências, durante os momentos mortos dos jogos. Outros 58% mostram interesse em simulações interativas — os chamados cenários “e se…” — e 27% estão dispostos a pagar por experiências imersivas como competir virtualmente com os seus ídolos durante a partida. Um exemplo concreto desta lógica é o Tour de France, onde os fãs já podem interagir em tempo real com a prova, gerir equipas de Fantasy, votar nos ciclistas e até viver a corrida a partir de um carro oficial virtual.
Pascal Brier, Chief Innovation Officer da Capgemini, sublinha que “o verdadeiro poder da IA no desporto reside na sua capacidade de transformar a forma como os adeptos se ligam ao jogo, aos atletas e entre si.” O desafio, afirma, está em garantir que esta transformação tecnológica “aprofunda a ligação emocional” e não a dilui.
Nem tudo são aplausos. Apesar da adesão crescente às ferramentas digitais, o estudo revela inquietações significativas entre os adeptos. Quase 60% temem que o excesso de tecnologia venha a comprometer a emoção dos eventos ao vivo. Mais de metade receia que o prazer do jogo se dilua se este se tornar demasiado mediado por algoritmos.
Há também preocupações com a privacidade e a desinformação. Entre as gerações mais jovens (Y e Z), cerca de metade afirma estar consciente dos dados recolhidos pelas plataformas de IA e dá consentimento explícito. Entre os baby boomers, essa percentagem baixa para 36%. Além disso, dois terços dos adeptos admitem estar preocupados com conteúdos não verificados, gerados por IA, e 57% receiam que estas ferramentas possam propagar informações falsas sobre jogadores ou equipas — com impacto real na reputação e até na segurança dos atletas.
A transformação digital do desporto não se esgota no conteúdo. Os estádios estão também a reinventar-se. Mais de metade dos adeptos inquiridos valorizam aplicações que facilitam a compra de bilhetes, fornecem informações em tempo real e melhoram a navegação nos recintos. Funcionalidades como o reconhecimento facial à entrada ou mapas interativos para orientação dentro do estádio estão entre as mais apreciadas.
Estes investimentos respondem à crescente sofisticação das audiências, cada vez mais nativas digitais e exigentes em termos de fluidez e conveniência. A experiência começa muito antes do apito inicial — e prolonga-se para lá do resultado final.
O desporto está a viver uma transformação tecnológica profunda — mas não é uma revolução sem rosto. A emoção continua a ser o seu motor essencial. A inteligência artificial, quando usada com critério e sensibilidade, pode ampliar essa emoção, não substituí-la. A chave estará em escutar os adeptos, compreender os seus limites e desejos, e desenhar experiências que combinem o melhor da inovação com o intangível valor do jogo ao vivo.
O desporto não é apenas entretenimento. É cultura, identidade, paixão partilhada. E, por isso mesmo, deve ser protegido — mesmo à velocidade vertiginosa do progresso tecnológico.