No oitavo ano do reinado do faraó Ramsés III, e a crer nos registos egípcios que perduraram, uma massa de invasores tentou conquistar o todo-poderoso Egito, no final da Idade do Bronze. O faraó, nos mesmos hieróglifos cinzelados em pedra que contam esta história, gaba-se de os ter derrotado, mas frisa que nenhuma outra potência foi capaz de lhes dar oposição, que muitos dos grandes povos que então dominavam o Mediterrâneo e o Próximo Oriente simplesmente ruíram e que “a resistência era inútil”. Estávamos em 1177 a.C., e o mundo, tal como ele era conhecido, pela civilização que prosperou à época e naquele canto do globo, desapareceu como que da noite para o dia.

“A magnitude do cataclismo foi enorme; uma perda que o mundo não voltaria a ver até ao colapso do Império Romano, mais de 15 centúrias depois”, escreve o historiador e arqueólogo norte-americano Eric H. Cline, nas páginas de 1177 a.C. – O Ano em que a Civilização Colapsou, livro que chegou a concorrer ao Prémio Pulitzer e que teve agora a sua versão (atualizada) em português, com a chancela da editora Alma dos Livros.

O ano em causa, o de 1177 a.C., serve apenas de base à trama histórica que aconteceu há cerca de 3200 anos, pois a enorme invasão a que Ramsés III alude deve ter ocorrido ao longo de vários anos e em diferentes vagas, explica ao SAPO o também professor universitário e diretor do Instituto Arqueológico do Capitólio, em Washington. Além disso, estas incursões militares, protagonizadas pelos chamados Povos do Mar, não foram as principais responsáveis pela catástrofe que ocorreu. Atualmente, existem registos escritos e evidências arqueológicas que dão prova do real colapso de toda uma civilização que se assemelhava em vários aspetos à sociedade ocidentalizada e globalizada em que vivemos. A Idade do Bronze tardia, nas regiões do Egeu e do Mediterrâneo oriental, era caracterizada por uma complexa rede que interconectava impérios, cidades e povos, um sistema até então nunca visto (pelo menos de que há registo) caracterizado por uma economia e uma cultura global, com diferentes sociedades a interagir entre si e, acima de tudo, dependentes umas das outras, tal como hoje em dia sucede. Não obstante, as guerras entre as potências sucediam-se, a luta para manter ou conquistar zonas de influência ocorria, mas cedo ou tarde tudo acabava sanado e a proliferação de embaixadas diplomáticas garantia o funcionamento, sem grandes sobressaltos, desta intricada rede civilizacional.

Tal como nestes tempos modernos, em que estamos extremamente dependentes do petróleo enquanto fonte energética e motor industrial, há 3200 anos uma outra matéria-prima assumia um papel igualmente crucial: o estanho, a partir do qual se produzia bronze, o metal mais duro e resistente que então existia e que deu nome a toda uma era.

“Há apenas alguns instantes na história em que se verificou a existência de tais sistemas-mundo globais; o que existia na Idade do Bronze tardia e o que existe hoje são dois dos mais óbvios exemplos, e os paralelos (comparações) entre eles são, por vezes, intrigantes, escreve o historiador americano, um dos grandes especialistas mundiais sobre este período. “Nessa época, a Idade do Bronze no Egeu, no Egito e no Próximo Oriente durava há perto de dois mil anos, desde cerca de 3000 a.C. e até pouco depois de 1200 a.C.. Quando o fim chegou, depois de séculos de evolução cultural e tecnológica, a maior parte do mundo civilizado e internacionalizado das regiões mediterrânicas conheceu uma paragem súbita em várias áreas que iam do que é hoje a Itália até ao Afeganistão e da Turquia até ao Egito. Grandes impérios e pequenos reinos, que levaram séculos a desenvolver-se, colapsaram rapidamente, […] mesmo [os] egípcios. E com o seu fim veio um período de transição, frequentemente descrito pelos especialistas como a primeira idade das trevas mundial. Só ao fim de alguns séculos é que emergiu uma renascença cultural na Grécia e noutras áreas afetadas, preparando o palco para a evolução da sociedade tal como a conhecemos hoje.”

Vamos às perguntas que interessam. Afinal, o que sucedeu para que tudo colapsasse num ápice? E será que nos pode suceder o mesmo, tendo em conta as analogias que existem entre passado e presente? Acima de tudo, que lições podemos aprender com a história, para que os erros de há milénios não se repitam?

As respostas ficam a cargo de Eric H. Cline, mas fica já aqui a boa notícia: estamos equipados com o conhecimento que nos permite fazer uma transição para um outro tipo de civilização, após o eventual colapso da atual. O mote, como refere o historiador, parece estar em conseguir inventar e inovar.

Aquiles e Heitor lutaram aqui? O historiador Eric H. Cline entre os vestígios arqueológicos da antiga e lendária cidade de Troia, situada no leste da Anatólia (moderna Turquia). Os arqueólogos encontraram no local mais de um dezena de camadas de sedimentos, datadas de diferentes períodos históricos, incluindo a Idade do Bronze. A mais antiga tem cerca de 5600 anos. Créditos: Blink Media
"As coisas que sucederam na fase tardia da Idade do Bronze podem ser mais revelantes para nós do que a maior parte das pessoas imagina."

Se recuarmos 3200 anos, que tipo de civilização existe no Mediterrâneo oriental e o que a tornava diferente de tantas outras que a antecederam?

Aquilo que vemos para aquela época é uma rede que liga entre si as grandes potências. A zona do Mediterrâneo estava como que “globalizada”. Existem cerca de nove grandes potências, o equivalente a um G9, ou, melhor dizendo, ao G7 que atualmente existe [N.D.R. – o chamado «Grupo dos 7», um fórum intergovernamental que junta sete das nações mais ricas, industrializadas e influentes do mundo, apesar de China e Rússia não estarem incluídas – a Rússia foi expulsa deste fórum em 2014].

Egípcios, hititas, mitânicos, babilónicos, assírios, cipriotas, canaanitas, minoicos e micénicos. Eram estes os povos que formavam a grande rede de impérios da região.

Sim, são esses os principais atores. Eles estão todos a fazer trocas comerciais entre si, a maioria deles está inserido num contexto de relações diplomáticas. Basicamente, estão a interagir a nível internacional.

Eles compõem aquilo a que os analistas de redes sociais chamam de uma “Rede de Pequeno Mundo”. Este é um tipo de rede em que todos os elementos estão em direto contacto entre si, ou, então, no qual existem dois pontos [que podem não estar interconectados] em que ambos [partilham e] estão ligados a não mais do que três outros nós [N.D. R. – neste caso, cada ponto ou nó desta rede refere-se a uma das potências da região do Mediterrâneo e Próximo Oriente].

Para sermos mais concretos, os micénicos e os assírios não tinham uma relação de contacto direto, mas ambos estavam em contacto com os egípcios e os hititas. Portanto, o grau de separação entre os micénicos e os assírios equivale a um. Sempre que temos uma rede social em que existem menos de três graus de separação para todos os envolventes, então trata-se de uma Rede de Pequeno Mundo.

Qual o motivo para isto ser importante a nível histórico?

Porque houve muitos poucos momentos na história da humanidade em que tivemos uma situação semelhante. Aquela época foi um desses momentos… assim como o período em que hoje vivemos. É por isso que digo que as coisas que sucederam naquela época, na fase tardia da Idade do Bronze, podem ser mais revelantes para nós do que a maior parte das pessoas imagina.

Não foi apenas o comércio que ajudou a definir a rede globalizada que então existia. Que outros paralelismos existem com os tempos atuais?

As potências daquela época estavam a fazer muitas outras coisas, pois além das trocas comerciais também estão a assinar tratados, enviam embaixadas diplomáticas e impõem embargos económicos. Assim como há casamentos dinásticos e divórcios tremendamente difíceis [entre os membros das «casas reais» das várias potências]. Em várias maneiras, a história deles lê-se como se fosse a nossa história.

E também entravam muitas vezes em guerra, para logo depois assinarem acordos diplomáticos de paz e voltarem a um estado de relações muito parecido ao que antes existia. Sendo que isto sucedia em ciclos. É um ambiente que faz lembrar a Europa nos últimos três séculos.

Exatamente. Neste momento temos uma guerra em que a Rússia invadiu a Ucrânia, naquela época tínhamos coisas semelhantes a acontecer. Há muitos paralelismos entre estes dois períodos históricos.

Uma das coisas que frequentemente digo, a quem nunca ouviu falar da Idade do Bronze, é que ele é um período com semelhanças aos dias de hoje, muitas mais do que poderíamos esperar. Além disso, as pessoas em geral, de certo modo, conhecem a Idade do Bronze, só não o sabem. Quem é que nunca ouviu falar do Rei Tut, o Tutankhamon [N.D.R. – jovem faraó que reinou entre há 1341 a.C. e 1321 a.C., cujo túmulo e sumptuosos sarcófago e máscara funerária foram descobertos em 1922, gerando um grande furor mediático e popular que perdurou passado um século]? Quando se fala dele estamos igualmente a falar da Idade do Bronze. E a Guerra de Troia? Ela também data do mesmo período. A história do Êxodo que surge na Bíblia [que narra a saída dos israelitas do Egito dos faraós, onde viviam como um povo subjugado]? Mais uma vez, isso é da Idade do Bronze.

"Os egípcios e os hititas eram as duas maiores potências à época. Estavam numa posição de igualdade. [...] Portugal e Espanha estavam situados bem no limite de tudo isto, embora ocasionalmente estivessem em contacto."

De todas as potências da Idade do Bronze, o Egipto é a que melhor conhecemos, e a sua força (especialmente militar) e influência fazem lembrar os EUA, nos dias de hoje. Mas a verdade é que ele tinha como rival um outro poderoso império, o dos hititas, que dominava a Ásia Menor e tinha Hatusa como capital.

Os egípcios e os hititas eram as duas maiores potências à época. Estavam numa posição de igualdade. O Egipto era a força dominante no sul da região, enquanto os hititas dominavam a norte. Basicamente, egípcios e hititas lutaram pelo domínio do Próximo Oriente: por exemplo, estavam sempre em contenda para determinar quem controlava Canaã, a área que atualmente corresponde aos territórios da Síria, Líbano e Israel.

Os assírios e os babilónios, situados a leste, vinham a seguir enquanto potências, envolvendo-se de vez em quando em disputas com os egípcios e os hititas. A oeste, já na periferia, temos os minoicos e os micénicos, no mar Egeu [situado na bacia do Mar Mediterrâneo e abarcando território da Grécia moderna]. Indo mais para a periferia temos depois a Sicília, a Sardenha e a Itália.

Portugal e Espanha estavam situados bem no limite de tudo isto, embora ocasionalmente (e em alguns momentos até bastante vezes) estivessem igualmente em contacto. Sabemos que Chipre enviava cobre para a Península Ibérica, e, um pouco depois da Idade do Bronze, já na Idade do Ferro, parece que os fenícios vinham para a região de Huelva, no sul de Espanha, em busca de prata.

Mas o centro deste mundo era, definitivamente, constituído pelos egípcios e os hititas, com a sua influência a ramificar para fora.

Podemos dizer que esta é a primeira «era dourada» da civilização humana que historicamente se encontra registada, devido aos escritos e aos indícios arqueológicos que sobreviveram ao tempo?

Sim, creio que é uma boa forma de nos referirmos a esse período. No terceiro milénio a.C., no início da Idade do Bronze, e ainda no dealbar do segundo milénio a.C., existiram outras interconexões e outras redes, mas é neste período tardio da Idade do Bronze que temos registo do que foi a primeira rede global – dizemos que é global apesar de estar restringida àquela área do mundo.

Podemos afirmar isto porque neste tempo histórico já temos a escrita, sendo que o uso da escrita é algo que todas as sociedades de então tinham em comum: e a escrita funcionou aqui como uma espécie de laço que as ligou entre si.

"Acredito que muitas das ideias culturais e das similaridades que vemos entre essas culturas surgiram como resultado das trocas mercantis, pois com os objetos vieram igualmente as ideias. Por exemplo, são bem conhecidas as similaridades entre a Ilíada e a Odisseia de Homero e alguns dos mitos hititas."

As trocas comerciais funcionavam um pouco como cola, ligando todas estas sociedades. O comércio de estanho e cobre era crucial para esta rede civilizacional, pois é a junção destes dois elementos que permite criar ferramentas e armas em bronze, mais duráveis e resistentes. Mas não são só os metais que lhes interessam, pois também há registos arqueológicos de uma intensa rede de troca de bens perecíveis, circulando entre diferentes e longínquos locais, não é?

É uma civilização que adquire e troca um pouco de tudo, desde matérias-primas até produtos manufaturados. Entre as matérias-primas estavam incluídos todos os metais que na altura se podia ter – estanho, cobre, bronze, prata, ouro ou chumbo. Na lista de bens perecíveis temos o couro, madeira, têxteis, marfim, osso e muitos outros.

Através dos vestígios encontrados em navios naufragados, datados daquela época, podemos encontrar os produtos manufaturados que se trocavam. Por exemplo, sabemos que no século XVIII a.C. os minoicos, situados na ilha de Creta, estavam a enviar adagas e outros tipos de armas para a Babilónia e Mari [uma importante cidade-estado que se situava na atual Síria], assim como sandálias e outro tipo de calçado.

Temos quase de tudo a ser trocado, em suma, e temos formas de saber isso [devido a novas descobertas arqueológicas] nos dias de hoje. Para mim, este pormenor é o que torna particularmente especial o período tardio da Idade do Bronze, pois podemos consultar os registos escritos do que estavam a trocar e, acima de tudo, conseguimos encontrar os objetos [ou os resquícios que indicam a sua existência] por entre os destroços de navios naufragados.

Tal como atualmente, existia uma grande interação cultural entre estes diferentes impérios, cidades-estado e povos. Na ilha de Creta era possível a alguém ter em sua posse uma estatueta de um deus egípcio, da mesma forma que atualmente um português pode adquirir uma miniatura da Estátua da Liberdade ou da Torre Eiffel.

A dissertação que fiz para o meu doutoramento, e isto foi há muito tempo, era sobre todos esses objetos que eram trocados. Andei por todos os museus da Grécia em busca de qualquer objeto, da Idade do Bronze, que fosse egípcio, hitita, canaanita ou mesopotâmico. Antes de ter começado esta busca, o meu orientador [da dissertação] perguntou porque estava eu à procura destes objetos, pois não passavam de bricabraque, bugigangas, lembranças que tinham sido trazidas. Eu respondi que eles podiam ser isso, no entanto, e acima de tudo, são objetos que mostram que existia um intercâmbio. No fim, revelou-se que eles eram mais do que meras bugigangas, não eram coisas que se adquirem no que hoje seria uma simples loja.

Sabemos que durante toda a Idade do Bronze houve trocas de bens, mas eu também olho para essas trocas como uma forma de intercâmbio cultural: eu acredito que estavam a trocar ideias e inovações, juntamente com os objetos.

Por exemplo, são bem conhecidas as similaridades entre a Ilíada e a Odisseia [da autoria] de Homero e alguns dos mitos hititas. Uma coisa que descrevo no livro é este possível cenário: imaginemos que temos um navio vindo do Egito e que atraca na Grécia; ele descarrega aí os seus bens e fica, em seguida, à espera de voltar a casa, pois há que esperar que os ventos mudem. Entretanto, por onde é que os marinheiros do barco andam, durante cerca de três semanas? No bar que existe no porto, pois claro. E o que fazem eles enquanto bebem? Trocam histórias com outras pessoas e cantam canções. Pelo meio, um fulano que vive no local, na Grécia, diz algo como: “eu nunca ouvi essa canção, podes ensinar-ma?” Ou, ainda, pode perguntar a um marinheiro o que está ele fazer, e este responder que está a escrever, ao que ele diz em seguida: “Uau, podes então ensinar-me a escrever?” Ou seja, acredito que muitas das ideias culturais e das similaridades que vemos entre essas culturas surgiram como resultado das trocas mercantis, pois com os objetos vieram igualmente as ideias.

"Na última parte do século XIII a.C., e de súbito, tudo começou a correr mal, uma coisa má atrás da outra. Num curto período de tempo ocorreram invasões, terramotos, fome, alterações climáticas, seca… Foi uma sucessão de acontecimentos que se empilharam até lá acima. [...] Nem tiveram tempo de recuperar de um evento antes de um outro acontecer."

De acordo com as evidências arqueológicas e os documentos escritos que sobreviveram desse período, o que aconteceu para num curto espaço de tempo toda esta rede civilizacional ter colapsado de forma tão surpreendente?

As coisas estão a correr muito bem do século XV a.C. até ao fim do século XIII a.C. No Egipto, em termos de reinados, é um período que vai desde a rainha/faraó Hatshepsut [reinou entre 1504 e 1480 a.C.] até ao faraó Merneptah [reinou entre 1212 e 1202 a.C.]. É em 1207 a.C. que começam a aparecer os primeiros [ataques dos] Povos do Mar, e isso marca o princípio do fim.

Mas esse fim também pode ter começado um pouco antes, por volta de 1225 a.C., devido a alguns terramotos de que há vestígios [e que afetaram o leste do Mediterrâneo].

A única certeza é que na última parte do século XIII a.C., e de súbito, tudo começou a correr mal, uma coisa má atrás da outra. Num curto período de tempo ocorreram invasões, terramotos, fome, alterações climáticas, seca… Foi uma sucessão de acontecimentos que se empilharam até lá acima. Estamos a falar de uma calamidade que aconteceu de forma tão rápida que nem tiveram tempo de recuperar de um evento antes de um outro acontecer.

Que provas concretas existem sobre quais foram os fatores que mais pesaram neste descalabro que arrastou as grandes potências do Mediterrâneo oriental?

Em termos de saber quais foram os potenciais «fatores de tensão» temos disponíveis, nos dias de hoje, mais registos escritos e evidências arqueológicas do que há algumas décadas. Sabemos que houve invasores, embora isso não signifique que todos tenham sido afetados por eles. Através da análise a pólen antigo descobriu-se que as alterações climáticas também foram um fator de tensão, e, consequentemente, que a seca também foi um deles. Temos registos escritos de que a fome foi outro fator. Por via da arqueologia sabemos que os terramotos contribuíram de igual modo para este colapso. E podemos dizer, embora sem certeza, que as doenças foram mais um contributo – e este último caso é algo que faz sentido, porque usualmente quando ocorrem as outras catástrofes o que se segue é o surgimento de doenças, como surtos de cólera ou febre tifoide, por exemplo.

No meio de tudo isto, uma das grandes questões é a de tentar perceber qual o fator que afetou cada sociedade e o quão intensa essa tensão foi. E, ainda, quantas sociedades daquela região do globo foram afetadas por todos os acontecimentos que referi.

É possível dar resposta a essas duas perguntas?

Vou dar um exemplo que prova a dificuldade [de as responder]. No caso dos micénicos ainda não sabemos a que se deve a sua queda. Deveu-se a invasões por parte dos Povos do Mar? Talvez. Foram rebeliões internas pela classe mais baixa da população? Talvez. Fome? Talvez. Seca? Talvez. Tudo isto são possibilidades [para as quais há evidências], mas em nenhum caso conseguimos apontar para um fator de tensão em concreto, um que tenha sido decisivo.

Só quando a causa maior se deve a uma invasão é que conseguimos determinar com maior grau de certeza o motivo da queda de uma sociedade ou império.

Pode dar um exemplo concreto em que se sabe que uma invasão militar levou à obliteração de toda uma sociedade?

A antiga cidade-estado de Ugarit [uma cidade portuária situada no noroeste da atual Síria e que mantinha fortes ligações com os hititas], pois as escavações arqueológicas conseguiram encontrar pontas de seta nos seus edifícios. Existe [nos sedimentos escavados] um metro [com sinais] de destruição. Em Ugarit podemos ter a certeza de que houve uma invasão e que houve destruição provocada por humanos. Para mais, já é possível ligar estas evidências a uma tabuleta de argila de Ugarit [recentemente estudada] onde se lê: “Os invasores já tomaram o porto da cidade e estão a caminho de Ugarit”. Temos aqui, portanto, uma descrição do que está a suceder e evidências arqueológicas que nos mostra a destruição que ocorreu em seguida.

Capa de «1177 a.C. – O Ano em que a Civilização Colapsou»
Capa de «1177 a.C. – O Ano em que a Civilização Colapsou»
"O fim da Idade do Bronze dá-se com o colapso da rede que então existia. [...] Os micénicos e os hititas situam-se entre os que não foram resilientes. Os egípcios foram resilientes, mas não conseguiram lidar com as novas circunstâncias e nunca chegam a transformar-se. [...] Novas potências, nomeadamente os fenícios, vão ocupar o vácuo criado pelo colapso dos velhos poderes."

Ugarit é um daqueles casos atípicos em que conseguimos ter alguma clareza sobre o que efetivamente sucedeu a esta sociedade e qual o fim que tiveram. Mas no que se refere às nove grandes potências que dominavam a região o mistério é assim tão grande?

Para a maior parte dos casos podemos ver quando é que uma cidade cai, ou quando é que uma sociedade colapsa, mas não temos bem a certeza sobre qual dos fatores foi o mais importante, ou a quantos fatores de tensão foram submetidos. O meu argumento enquanto historiador, o qual descrevo no livro, é que o sistema como um todo colapsa e é possível ver como individualmente cada uma das sociedades desse sistema é afetada. Mas se olharmos para a fase seguinte, a Idade do Ferro, podemos ter uma visão do que lhes aconteceu.

Neste momento estou a escrever uma sequela ao livro agora publicado em Portugal, chamado Depois de 1177 a.C., onde abordo o assunto e explico o que sucedeu exatamente a cada uma das nove sociedades que mencionei.

Quer dizer, temos a morte de toda uma civilização, encaixada na era da Idade do Bronze, e em seguida o nascimento de algo novo, na Idade do Ferro. Quem sobreviveu a esta transição e o quão diferentes se tornaram?

A conclusão a que estou a chegar é a de que cada sociedade foi afetada de forma distinta e em diferentes graus, mas o que é absolutamente claro é que a rede global que existia acaba por colapsar, ela desaparece. Para mim, o fim da Idade do Bronze dá-se com o colapso da rede que então existia.

Algumas destas sociedades, como os micénicos, não sobrevivem e extinguem-se: depois do que sucedeu no fim da Idade do Bronze, já não há ninguém que se refira a si próprio como sendo micénico. Os hititas também desaparecem, cerca de 95% deste império, mas existe uma pequena parte desta sociedade que sobrevive no norte da Síria – os neo-hititas.

Outros, por sua vez, foram mais resilientes, mas em diferentes graus. Os egípcios sobrevivem, mas eles não ficam bem e entram numa fase de declínio.

Para a análise que estou agora a fazer, dividi as sociedades em «resilientes», «muito resilientes», «extremamente resilientes» e «nada resilientes». Os micénicos e os hititas, neste quadro que criei, situam-se entre os que não foram resilientes. Os egípcios foram resilientes, mas não conseguiram lidar com as novas circunstâncias e nunca chegam a transformar-se.

Os assírios e os babilónios, por sua vez, foram muito resilientes, de tal forma que, eventualmente, os assírios acabam por conquistar todo o Próximo Oriente.

Mas os que tiveram maior sucesso, sendo porventura os mais surpreendentes, foram os cipriotas, os quais poderão ter sido responsáveis por disseminar a nova tecnologia que é o ferro. O mesmo se aplica ao povo que vivia na zona central da região de Canaã, na costa do que é hoje o Líbano, porque estes conseguiram transformar-se e tornaram-se no povo a que hoje chamamos de fenícios. E foram os fenícios que acabaram por controlar o Mediterrâneo, foram eles que disseminaram o alfabeto e espalharam a tinta púrpura [uma cor que se tornou muito associada à realeza], tinham colónias e fundaram Cartago [N.D.R – famosa cidade que entre 264 a.C. e 164 a.C. disputou três guerras contra a República de Roma, pelo controlo do Mediterrâneo, com a vitória absoluta a recair no fim para os romanos, tornando-os na única grande potência da região e abrindo caminho à sua posterior expansão enquanto império].

Estamos a falar de algo novo, de novas potências, nomeadamente os fenícios, que vão ocupar o vácuo criado pelo colapso dos velhos poderes.

Em 1177 a.C. – O Ano em que a Civilização Colapsou, recorre à teoria da complexidade para explicar o que terá sucedido. No novo livro que está a escrever ainda usa esse modelo ou trocou-o por outro, um que seja capaz de explicar adequadamente a transição pela qual atravessaram estas sociedades na passagem para a Idade do Ferro?

No fim deste novo livro, Após 1177 a.C., recorri ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas [também conhecido pela sigla inglesa IPCC], criado pelas Nações Unidas. O IPCC está cheio de peritos em alterações climáticas e a cada dois anos publica relatórios, documentos e livros. Em 2012 eles publicaram um relatório sobre eventos climáticos extremos, como o Furacão Katrina [N.D.R. – atingiu os EUA em 2005, provocando 1800 mortos e prejuízos então orçados em 125 mil milhões de dólares, com a cidade de Nova Orleães a ser a mais afetada, com 80% da sua área a ficar inundada ao longo de várias semanas]. Nesse documento eles recorreram a um conjunto de termos, cada um com as suas definições, que eu acabei por usar.

Tudo se baseia na ideia de resiliência. Para ser mais preciso, é sobre a capacidade de lidar com desastres extremos, a capacidade de adaptação, mitigação e transformação após eles acontecerem.

Basicamente, cooptei a terminologia do IPCC e tentei ver se era possível aplicá-la ao colapso ocorrido no final da Idade do Bronze e àquilo que depois se seguiu. Foquei-me em oito casos de estudo e fiz estas perguntas: o que sucede quando uma civilização colapsa, como é que o seu povo lhe dá resposta e quão resiliente é ele? Mais. Será que uma civilização é capaz de se transformar (sendo isto o mais básico que se pode conseguir de melhor)? Ou ela adapta-se (algo que é melhor do que o anterior)? Tenta lidar com a situação [desenvolver novas estratégias face a ela] ou simplesmente não faz nada e colapsa?

Foi dentro deste quadro que, portanto, coloquei os cipriotas e os fenícios dentro das sociedades que foram capazes de se transformar, e os assírios e babilónios entre os que se adaptaram. O melhor que conseguiram os egípcios foi tentar lidar (lutar) com o que aconteceu, tentaram aguentar-se com unhas e dentes. Os micénicos e os hititas não foram nada resilientes e colapsaram.

"O colapso deu-se durante um janela de maior vulnerabilidade, e os micénicos e os hititas eram mais frágeis do que pareciam – eram duas sociedades apodrecidas por dentro e quando se formou a tempestade perfeita foram simplesmente varridas."

Eis que chegamos ao busílis da questão: porque não foram eles resilientes?

Essa é uma daquelas grandes perguntas que vale um milhão de dólares, uma das mais importantes que existem. Mas a questão completa que se deve fazer é esta: qual o motivo para não terem sido resilientes e/ou porquê estavam eles vulneráveis, qual o motivo para estarem mais frágeis do que pareciam?

Esse é outro dos temas que o IPCC tem abordado, ou seja, o grau de vulnerabilidade e as janelas [as condições] em que a vulnerabilidade é maior. Eu acredito que o colapso ocorrido no final da Idade do Bronze deu-se numa dessas janelas de vulnerabilidade, e que os micénicos e os hititas eram mais frágeis do que pareciam – eram duas sociedades apodrecidas por dentro e quando se formou a tempestade perfeita foram simplesmente varridas.

O seu objetivo, além de analisar esse período histórico, também passa por procurar lições que possamos aprender e aplicar ao momento atual em que vivemos, e assim evitar que a nossa civilização também sofra um colapso?

No primeiro livro recorri à teoria da complexidade para tentar explicar o que sucedeu, pois quero que sejamos nós [os que vivem neste momento] a fazer a questão sobre se há lições a aprender com o colapso que naquela altura ocorreu. No próximo livro, ao usar a terminologia do IPCC, uma das coisas que pretendo é perceber se há lições a aprender sobre a melhor forma de ser resiliente, caso colapsemos.

"Não sei quando será, mas penso que estamos a caminho de um enorme colapso."

E crê que a nossa civilização, ocidentalizada e globalizada, está à beira de colapsar?

Vai colapsar e acredito que acontecerá bem cedo. Não sei quando será, mas penso que estamos a caminho de um enorme colapso. Poderá ocorrer na próxima semana, no próximo ano ou daqui a dez anos. A questão não é sobre se vai ou não acontecer, é sobre quando acontecerá.

O que faço no livro que vai sair é continuar a fazer mais perguntas a partir de onde fiquei no livro anterior, sobre se há lições a aprender a partir das sociedades que sobreviveram e também das que não sobreviveram ao colapso na Idade do Bronze.

Não é o único a pensar que a civilização em que vivemos está á beira de ruir. É uma ideia que, nos últimos tempos, ressoa no imaginário de muitas pessoas. Acha que é por causa disso que quando o livro 1177 a.C. – O Ano em que a Civilização Colapsou foi pela primeira vez publicado, na versão em inglês, teve um sucesso que não esperava para uma obra do género – dedicada à história antiga?

O timing foi acidental. Não escrevi o livro em resposta ou a pensar numa ideia ou sentimento geral que exista de momento. Não foi algo que tenha antecipado. Apenas o escrevi porque estava na altura de o fazer, mas, de facto, ele acabou por ter repercussão porque as pessoas têm um medo genuíno de que estejamos a entrar em colapso, têm medo de já estarmos a sofrer com os efeitos das alterações climáticas e com tudo o mais que esse problema trará.

"Uma das coisas que salta à vista é o facto de as sociedades que colapsaram não terem sido suficientemente autossuficientes. [...] Também estavam dependentes de uma matéria-prima que muitos não tinham [o estanho, para poder fazer o bronze], pelo que precisavam de a trazer de fora, tal como acontece connosco em relação ao petróleo."

Já referiu o quão importante foram as capacidades de resiliência e de transformação das sociedades que sobreviveram ao final da Idade do Bronze, o que lhes permitiu emergir numa nova era, a da Idade do Ferro. Se prestarmos atenção ao século XXI e ao que tem vindo a acontecer, quais são, em concreto, as maiores fragilidades que nos podem tornar menos resilientes e mais resistentes à transformação? Dito de outra forma, quais são as lições a aprender?

Olhando para o período que tenho vindo a analisar, uma das coisas que salta à vista é o facto de as sociedades que colapsaram não terem sido suficientemente autossuficientes. Não vou ser eu a dizer que cada sociedade precisa de o ser completamente, mas acredito que precisamos de ser autossuficientes até uma certa extensão.

Por exemplo, olhemos para o que a OPEP (a Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e a Rússia têm vindo a fazer com o petróleo [diminuem artificialmente a oferta, fazendo aumentar os preços do barril de crude]. Países como os EUA ficam sem saber o que fazer nestas ocasiões. A resposta óbvia deveria passar por não estar tão dependente do petróleo fornecido pela OPEP ou a Rússia. Em 1973 aconteceu uma crise petrolífera mundial [um “choque” que levou a um aumento drástico do preço do crude] provocada por um embargo organizado pela OPEP… e passados tantos anos eis que vemos tudo quase que a repetir-se.

As sociedades do final da Idade do Bronze também estavam dependentes de uma matéria-prima que muitos não tinham, pelo que precisavam de a trazer de fora, tal como acontece connosco em relação ao petróleo. No caso deles, essa matéria-prima era o estanho [porque o bronze é produzido quando se funde cobre e estanho]. Mas não estão só dependentes do estanho, também precisam de cobre, ouro, prata. O problema da sua falta de autossuficiência veio ao de cima quando as rotas comerciais foram interrompidas ou ficaram severamente afetadas, e as matérias-primas de que tanto dependem para subsistir deixaram de chegar.

Outra lição que podemos tirar do colapso civilizacional que ocorreu é a necessidade de ter múltiplas redundâncias.

O que significa isso?

Por exemplo, se não conseguimos obter o estanho da região do atual Afeganistão, porque as rotas para aí foram cortadas, então é bom que tenhamos a possibilidade de recorrer ao estanho que existe na Cornualha. Ou então, se não conseguimos a prata que vem das minas de Lávrio [na Grécia continental], podemos recorrer à que existe nas minas de Huelva, em Espanha.

Dito de outra forma, há que evitar estar dependente de apenas uma ou de poucas fontes que forneçam uma determinada matéria-prima essencial?

Exatamente.

"Quando não se consegue os materiais de que estávamos dependentes, precisamos de invenção e inovação, e é a isso que as pessoas e as sociedades recorrem para se tornar mais resilientes. Essencialmente, mudamos e começamos a usar algo diferente."

Mas tomemos o exemplo do cobalto, importante para criar baterias recarregáveis para os veículos elétricos e os smartphones, e que vem quase todo ele da República Democrática do Congo, pois é aí que existem as maiores reservas do mundo – com a sua mineração a ser feita por muitas pessoas que trabalham em condições sub-humanas, incluindo crianças. O que fazer se, de repente, for impossível aceder ao cobalto existente nesse país?

Nesse caso, ou se procura outras fontes ou se inventa algo novo capaz de tomar o seu lugar. Foi o que sucedeu no passado, quando se tornou muito difícil aceder às fontes de estanho e de cobre, o que levou à disseminação das técnicas de produção de ferro, que era uma tecnologia nova e revolucionária. Substituiu-se uma tecnologia importante por outra.

Sumarizando: quando não se consegue recorrer aos materiais de que estávamos dependentes, então precisamos de invenção e inovação, e é a isso que as pessoas e as sociedades recorrem para se tornar mais resilientes. Essencialmente, mudamos e começamos a usar algo diferente.

Há mais alguma lição desses tempos antigos que possamos aprender, para que não estejamos tão frágeis face ao futuro?

Só mais uma: manter os amigos por perto. Se existe a ameaça de sermos atacados por alguém, o melhor é conseguir um tratado de defesa mútua, para que alguém venha em nosso auxílio. Isso poderá revelar-se bastante útil.

"Antigamente, os Povos do Mar eram responsabilizados por tudo o que aconteceu à época. A ideia romântica de um povo misterioso que tinha vindo de nenhures e que derrubou os poderes então instalados, para depois voltar a desaparecer. [...] Atualmente, é consensual que eles não foram de todo o principal fator que levou ao colapso civilizacional na Idade do Bronze: aliás, eles até podem ter sido vítimas do que então estava a suceder."

Em documentários históricos que passam na televisão e até quando se faz uma busca pela Internet, ainda encontramos bastantes narrativas que simplificam ou distorcem o que se passou no final da Idade do Bronze, pois atribuem aos “misteriosos” Povos do Mar a quase responsabilidade pelo colapso e caos que sucedeu. Para desmistificar o assunto, explique-nos melhor quem foram estes invasores.

Antigamente, os Povos do Mar eram responsabilizados por tudo o que aconteceu à época. Existia a ideia romântica de um povo misterioso que tinha vindo de nenhures e que derrubou os poderes então instalados, para depois voltar a desaparecer no nada. A história, contada desta forma, obviamente que captou a imaginação de todos…

Só que nada disso bate certo com a realidade…

Pois não. Toda esta ideia sobre os Povos do Mar remonta a Gaston Maspero e aos primeiros egiptólogos franceses [N.D.R. – Maspero nasceu em 1846 e faleceu em 1916, tendo popularizado no último quartel do século XIX o termo “Povos do Mar”]. Eles foram os primeiros a estudar as inscrições sobre o faraó Ramsés III que existem no local arqueológico de Medinet Habu [situado na margem ocidental do rio Nilo, na região sul do Egito], e que falam da batalha que travou contra um grupo de invasores. Mas este tipo de relatos antigos [hieróglifos escritos sob pedra] são parte do problema, pois as únicas evidências reais que temos desses Povos do Mar são as inscrições pertencentes ao faraó Merneptah, datados de 1207 a.C., e de Ramsés III, que datam de 1177 a.C., trinta anos depois. É tudo o que existe.

Se não tivéssemos esses dois conjuntos de inscrições, nunca teríamos chegado a saber o que fosse sobre os Povos do Mar. Sem eles, talvez os historiadores formulassem a hipótese de que houve um grupo de invasores que veio de algures, mas não teríamos forma de conhecer nenhum dos seus nomes [dos povos invasores] e tampouco saberíamos a destruição que a eles foi atribuída. Por um lado, temos muita sorte em existirem essas inscrições egípcias, mas ao mesmo tempo temos de ter a noção de que tudo o que está escrito sobre estes povos é uma versão enviesada, é o ponto de vista de quem está a narrar os acontecimentos.

Atualmente, é consensual que eles não foram de todo o principal fator que levou ao colapso civilizacional na Idade do Bronze: aliás, eles até podem ter sido vítimas do que então estava a suceder, um resultado [das circunstâncias] e não uma das causas.

Vestido para a ocasião. Eric H. Cline durante uma escavação no local arqueológico de Tel Kabri, situado no norte de Israel. Os vestígios aí existentes correspondem a um palácio Canaanita da Idade do Bronze. Créditos: Mark Abbott

Existe uma ideia de quem compunha os Povos do Mar? Há teorias sobre onde vieram e quais as suas reais motivações? Parece que não eram, de forma alguma, um grupo homogéneo, muito pelo contrário.

É um facto de que eles existiram. Isso é certo. Os egípcios não os teriam inventado do nada. Alguns deles, como os Shardana (também conhecidos como Sherden), já eram conhecidos de outros registos egípcios, dos séculos XIV e XIII a.C., por terem lutado enquanto mercenários ao serviço do Egito e também contra este império. Outros nomes são completamente novos, grupos que nunca tinham sido vistos: é o caso dos Ekwesh ou dos Teresh.

Determinar os seus locais de origem implica entrar num jogo de linguística. Será que os Shardana vêm da Sardenha e os Shekelesh da Sicília? Existirá mesmo alguma ligação entre estes grupos e determinados locais cujos nomes se assemelha ao deles, ou estamos perante aquilo a que se chama de «falsos amigos», ou seja, parece que estão relacionados, mas, na realidade, não estão? Não passará tudo isto de meras coincidências? Na minha opinião existe mesmo uma relação entre os seus nomes e os locais de onde vieram. É algo que para mim faz todo o sentido.

Sendo esse o caso, e se tivermos em conta que vieram de outros pontos do Mediterrâneo, o que os levou a abandonar as suas terras?

Estamos a falar de migrações, basicamente: eles estão a migrar de oeste para este. Contudo, ninguém abandona a sua terra natal a menos que o tenha mesmo de fazer. Logo, o que os terá levado para fora de onde viviam? Os investigadores que estudam fluxos migratórios falam de «fatores de pressão» [fatores que empurram de dentro para fora] e de «fatores de atração». Isto significa que há algo que empurra um povo para fora da sua terra, como são o caso de uma seca ou de outros invasores, mas também há algo que os atrai em direção a uma nova terra: talvez por ser mais fértil ou porque tem zonas desocupadas onde podem assentar.

Olhemos para o caso dos Cruzados. O que foi que os atraiu para a Terra Santa?

Em boa parte, a conquista de terras e riquezas por parte de nobres que não eram primogénitos, ou seja, filhos que não herdariam na Europa as terras e outras possessões dos seus pais…

Precisamente.

"Se os Povos do Mar vieram originalmente do Mediterrâneo ocidental então é porque o clima estava a mudar e isso trouxe um cenário de seca. Acabam por se mudar em busca de melhores condições e melhores terras. Contudo, a sorte não estava do lado deles, porque também existia uma seca no Mediterrâneo oriental."

Voltemos à Idade do Bronze. Há dados que possam dar força à tese de que estas migrações foram forçadas por eventos extremos?

As novas evidências que se descobriram mostram que houve uma seca no Mediterrâneo ocidental e no continente europeu, à época. Definitivamente, o norte da península itálica foi atingido por uma seca, pois há estudos recentes que o provam. Assim sendo, eu suspeito que se os Povos do Mar vieram originalmente do Mediterrâneo ocidental então é porque o clima estava a mudar e isso trouxe um cenário de seca. Pelo que acabam por se mudar em busca de melhores condições e melhores terras. Contudo, a sorte não estava do lado deles, porque também existia uma seca no Mediterrâneo oriental pela mesma altura, só que eles não tinham forma de o saber: mudaram-se de um local que estava a sofrer com uma seca para um outro que estava a atravessar o mesmo problema.

Ao mesmo tempo, creio que os chamados Povos do Mar eram compostos não só pelos grupos que originalmente os formaram, mas também por povos por eles derrotados ao longo do seu caminho em direção a leste, com os sobreviventes a juntarem-se aos invasores. Em suma: mesmo que o grupo original se tenha formado no Mediterrâneo ocidental, parece-me que a certa altura os micénicos [da ilha de Creta] se juntaram a eles, assim como população que residia na região oeste da Anatólia [o território da Turquia moderna fica quase toda ele situado na península anatólica], talvez troianos [que até à destruição da sua cidade tinham dominado a Anatólia], o povo lukka [também da mesma península], cipriotas e quiçá hititas renegados.

Aquilo que vemos, quando os egípcios finalmente decidem gravar os seus nomes, é uma amálgama em estado cru. Está lá tudo misturado: os povos originais que migraram, os que se juntaram a eles e até os que procuraram tirar vantagem de toda esta confusão. Ao todo, creio que foi registado um total de nove grupos diferentes que em conjunto atacaram o Egito em diferentes alturas.

No entanto, e se quisermos ser rigorosos, é mesmo muito difícil precisar de onde vieram cada um deles. É aqui que entra o mistério, pois trata-se de um puzzle por montar.

Falta responder a uma importante pergunta. No fim, o que lhes aconteceu e para onde foram?

A questão sobre onde ficaram tem uma resposta mais fácil. Ramsés III, por exemplo, diz que os venceu e os assentou em praças-fortes [povoações fortificadas]. Eles acabam por se estabelecer, portanto, no Egito e também em Canaã. Há localidades como Tel Dor – que em tempos estava situada no sul da Fenícia, mas que hoje localiza-se no norte de Israel – que surgem descritas como sendo cidades dos Povos do Mar. No caso de Tel Dor, ela pode ter sido uma das cidades em que os egípcios os assentaram, ou, então, foi um local intermédio que ocuparam no seu caminho em direção ao Egito.

Este último cenário faz sentido, porque suspeito que nem todos os Povos do Mar fizeram todo o caminho para ir atacar o Egito, e que alguns deles provavelmente decidiram assentar e criar raízes algures a meio dessa rota. Eles foram assimilados, portanto. Para dar um exemplo, os filisteus [N.D.R. – há fortes evidências científicas de que este antigo povo é de origem grega, tendo migrado de Creta ou de outras ilhas do Mar Egeu] conquistaram a cidade de Escalão, no sul de Israel, e ficaram aí a viver.

Tendo em conta este passado e contexto histórico, o mito de David e Golias até pode fazer algum sentido, pese embora os exageros narrativos que a Bíblia faz em torno desta lenda?

Arqueólogos como Israel Finkelstein ou Aren Maeir têm sugerido que Golias, o guerreiro filisteu que surge referido na Bíblia, pode muito bem ter sido um hoplita grego, com uma armadura, escudo e armas em bronze.

Todo aquele equipamento em bronze a envolvê-lo é capaz de o transformar, aos olhos de alguém que nunca viu nada semelhante, num gigante?

Sim, Golias encaixa-se bem nessa visão. Alguns estudiosos sugerem que esta história é uma memória de um guerreiro grego, talvez um mercenário, que chegou ao Próximo Oriente para aí lutar. E a partir dessa imagem um camponês local pode muito bem ter criado uma lenda. Talvez tenha sido isso, ou talvez não. Quem sabe?