Protóxido de azoto. Eis o componente químico, composto por dois átomos de azoto e um de oxigénio, que é capaz de nos desinibir e criar a sensação de que flutuamos, ao ser inalado, mas também de nos levar, verdadeiramente, para fora da Terra, sob a forma de combustível para veículos espaciais.

Este gás incolor foi sintetizado pela primeira vez em 1772, pelo químico (e também teólogo e pensador político) inglês Joseph Priestley, responsável pelo livro, dividido em seis volumes, Experiências e Observações de Diferentes Tipos de Ar, um compêndio onde deu a conhecer ao mundo a existência de diversos tipos de gases, com o destaque principal a ir para o oxigénio. Foquemo-nos, todavia, no gás que, ao longo dos próximos parágrafos, vai chamar a si toda a nossa atenção.

Existem foguetes (propulsores) espaciais que usam como combustível uma mistura que contém protóxido de azoto, sendo igualmente usado em motores de combustão interna de carros de corrida – durante a Segunda Guerra Mundial, os aviões de caça também recorreram a ele. A ‘magia’ deste componente reside no facto de que permite aos motores queimar mais combustível (pois fornece mais oxigénio para a combustão), num processo que faz aumentar a potência dos motores. Aliás, quem viu os filmes da saga Velocidade Furiosa deve ter reparado que, em certas situações, os protagonistas recorrem a este gás para fazer os seus bólides atingirem velocidades pouco recomendáveis para quem gosta de uma condução segura.

Já agora, um dos aerossóis presentes nos sprays de espuma de barbear ou creme de culinária é, precisamente, o N2O (o símbolo químico do protóxido de azoto).

Todavia, um dos primeiros e principais usos práticos deste gás foi na medicina. Desde meados do século XIX que é usado como agente anestésico ou analgésico, incluindo por dentistas. Por exemplo, antes de uma cirurgia ele pode ser administrado por inalação ou via intravenosa, mas sempre em combinação com outros gases ou fármacos, dotados de uma maior capacidade anestésica e analgésica.

Quando é usado para alívio da dor, a sua inalação pode produzir efeitos secundários que vão de um rápido sentimento de euforia à excitação, passando pela sensação de que estamos a flutuar e o surgimento de alucinações. Isto explica o que leva algumas pessoas a recorrer a ele para fins recreativos ou para induzir um estado de relaxamento e calma, mesmo que, clinicamente, não necessitem.

Foi no início do século XIX que ficou conhecido como ‘gás hilariante’, altura em que começou a ser usado em festas da alta-classe britânica, porque, dizia-se, além de suscitar uma sensação de calma e conforto, fazia com que as pessoas começassem, automaticamente, a rir. Todavia, trata-se de um mito. A verdade é que o protóxido de azoto consegue provocar contrações musculares involuntárias na face, dando a impressão de que estamos a sorrir, ao mesmo tempo que nos faz sentir menos inibidos, tal como sucede quando bebemos alguns copos a mais de álcool. Tudo isto, misturado com a sensação de leveza e relaxamento, leva a que possamos dar, ocasionalmente, uma ou outra gargalhada menos controlada.

Gás hilariante em 1830
Desenho satírico do químico britânico Humphry Davy a administrar 'gás hilariante' em Londres, no século XIX. Davy estudou o potencial anestésico do protóxido de azoto e ficou impressionado por este o fazer rir, quando testou o gás.
Três quartos de oxigénio e um quarto de protóxido de azoto. Eis a receita do gás que, uma vez inalado, proporciona melhorias imediatas e a médio-prazo, sem causar náusea, garantem os cientistas.

Já se sabe, há algum tempo, que o protóxido de azoto consegue interagir com os neurorecetores do nosso cérebro, as substâncias químicas que permitem a troca de sinais (informação) entre os neurónios. Não obstante, desconhece-se até que ponto pode ser usado como forma de tratamento para quem sofre de perturbações de saúde mental, nomeadamente a depressão.

É precisamente isto que está a ser estudado por uma equipa de cientistas das universidades de Washington e de Chicago, nos Estados Unidos da América, cujos testes, com pacientes que sofrem de depressão, entraram numa segunda fase. As mais recentes conclusões das suas experiências foram publicadas a 9 de junho, na revista científica Science Translational Medicine (pertence ao mesmo grupo que detém a reputada revista Science).

O que diz o estudo? A inalação de uma mistura de oxigénio com protóxido de azoto, num só tratamento e durante uma hora, “melhora significativamente os sintomas” em pessoas que sofrem de uma depressão resistente aos tratamentos convencionais. Mais: os sinais de melhoria duraram várias semanas, após absorverem o composto.

Antes de mais, façamos uma ressalva. Estes resultados, apesar de apontarem para novas potencialidades no tratamento da depressão, devem ser recebidos com as devidas cautelas, pois a análise só teve como amostra um total de 24 pacientes, sendo que apenas 20 concluíram os testes feitos pela equipa de investigadores e foram depois examinados. Além do mais, são precisos mais estudos, e de outras equipas, para que se comprove (ou seja refutado) o que foi concluído.

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Continuemos. “Uma larga percentagem de pacientes não responde às terapias antidepressivas convencionais – os pacientes deste estudo falharam [em obter uma melhoria] numa média de 4,5 testes antidepressivos –, daí que seja muito importante encontrar terapias para ajudá-los”, frisa Charles Conway, psiquiatra da Universidade de Washington e um dos autores do estudo, através de comunicado de imprensa. “A observação de melhorias tão rápidas em tantos pacientes, no estudo, sugerem que o protóxido de azoto pode ajudar as pessoas com uma depressão severa e resistente”, adianta.

Ao todo, foram realizados três testes diferentes para os 24 pacientes selecionados para a investigação, cada um com um intervalo de um mês. A primeira sessão consistiu na inalação, durante uma hora, de um gás em que metade era oxigénio e a outra era protóxido de azoto. No segundo tratamento, os mesmos pacientes receberam uma mistura que já só tinha 25% de protóxido de azoto. Finalmente, no terceiro teste o gás usado era um simples placebo (logo, sem qualquer impacto terapêutico) unicamente composto por oxigénio. Os pacientes nunca souberam, em cada sessão, qual a composição do gás que respiravam.

De um ponto de vista da metodologia usada, cada uma destas sessões de tratamento podia ser aplicada a diferentes grupos de pessoas, em vez de serem sempre as mesmas. Contudo, e a crer em Peter Nagele, da Universidade de Chicago e também envolvido na investigação, o problema é que isso obrigaria a que se recorresse a uma amostra muito mais vasta de pessoas, para conseguir obter algum tipo de conclusão. Assim sendo, e para este estudo em específico, Nagele defende que se obtém uma melhor comparação dos resultados quando a amostra é a mesma, ou seja, quando as mesmas pessoas podem ser avaliadas sobre o que sentiram após serem submetidas a diferentes testes.

Numa primeira fase desta investigação, “realizada há vários anos”, indica Nagele, os pacientes apenas foram seguidos e avaliados nas 24 horas seguintes. Além do mais, em testes anteriores o gás usado nas pessoas tinha uma maior proporção de protóxido de azoto. Desta vez – para a segunda fase – recorreu-se a doses menores deste gás e a avaliação da amostra prolongou-se por duas semanas. A grande revelação foi a de que “a maior parte continuava a sentir-se melhor” após esse par de semanas, mesmo quando o gás inalado tinha uma menor percentagem de protóxido de azoto.

Sejamos mais específicos. De forma bruta, os dados mostram que tanto uma mistura com 25% de protóxido de azoto, como a outra com 50% (o resto é oxigénio), fizeram diminuir os sintomas de depressão em 17 dos 20 pacientes que concluíram os três testes e foram depois examinados. Ou seja, um total de 85% sentiu uma melhoria significativa, ao ponto de a sua classificação clínica ter sido alterada em, pelo menos, uma categoria – de uma depressão severa para moderada, por exemplo, indicam os cientistas no texto destinado à comunicação social.

Pormenor importante: a dosagem de 50% teve maiores efeitos antidepressivos, passadas duas semanas após o tratamento, mas a de 25% mostrou menos efeitos secundários negativos, sendo o mais comum a sensação de náusea. São precisamente estes efeitos adversos que se quer evitar num tratamento que recorra ao protóxido de azoto, daí a importância destes resultados.

“No nosso estudo, apenas quando as pessoas receberam uma dose de 50% é que sentiram náusea. Quando receberam 25% de protóxido de azoto, ninguém a teve”, resume Charles Conway. Acima de tudo, “a dose mais baixa foi quase tão eficaz quanto a dose mais alta, no alívio da depressão”.

É preciso ter em conta que muitos dos que participaram na investigação continuaram a tomar os antidepressivos que antes lhes foram prescritos. Todavia, a equipa de cientistas frisa que, na sua grande maioria, são os mesmos fármacos que falharam no alívio da depressão que sofriam.

Noradrenalina, serotonina e recetores NMDA. Tudo isto são minúsculas moléculas químicas que, no nosso cérebro, podem causar depressão. Talip Özer / Pixabay
O objetivo é atuar sobre os recetores NMDA, situados entre os neurónios e importantes na criação de novos caminhos e redes neuronais no cérebro. Ao influírem na plasticidade neuronal, eles também estão envolvidos nos processos que potenciam a depressão.

Noradrenalina e serotonina. Eis os dois neurotransmissores sobre o qual os tradicionais antidepressivos tentam atuar, para causar um alívio dos sintomas. O problema é que, nos EUA, um terço das pessoas que os tomam não mostram sinais de melhoria, refere o grupo de investigadores.

A noradrenalina, explicando de forma sucinta, é um químico orgânico que existe no nosso corpo sob a forma de hormonas e neurotransmissores: é produzido pelas glândulas suprarrenais (situadas acima dos rins) e em núcleos de neurónios situados no centro do cérebro, influenciando, por exemplo, a nossa ansiedade, o sono, a memória, a atenção e o impacto daquilo que comemos. Por sua vez, a serotonina é segregada no tubo digestivo e no tecido cerebral, agindo sobre o nosso humor, o sono, o apetite, o ritmo cardíaco, a temperatura corporal e as funções cognitivas.

Para os investigadores das universidades de Washington e de Chicago, e face a esta ausência de resultados junto de um grupo tão grande de pacientes com depressão, a utilização de fármacos à base de protóxido de azoto ou de ketamina parecem promissores, pois ambos atuam sobre outros elementos que existem nas células cerebrais. Neste caso, estão a referir-se aos chamados recetores NMDA, presentes nas sinapses (a região entre dois neurónios por onde passam os sinais elétricos ou químicos), tendo um papel importante para a plasticidade neuronal, a memória e a aprendizagem. Ao influírem na plasticidade neuronal, quer dizer, na capacidade de os caminhos e redes neuronais do cérebro se alterarem, significa que também estão envolvidos nos processos que potenciam a depressão.

Os resultados com o protóxido de azoto, recentemente publicados na Science Translational Medicine, parecem mostrar, portanto, que a sua interação com os recetores NMDA tendem a melhorar os sintomas de depressão no espaço de alguma horas, perdurando, pelo menos, nas duas semanas seguintes. Tentar atuar sobre a noradrenalina e serotonina, no sentido de combater a depressão, é, por sua vez, um processo mais moroso, sendo precisas semanas até surgirem possíveis resultados, isto segundo a equipa que fez a investigação.

Ketamina? Criada em 1956, este analgésico passou a ser universalmente usado pelos médicos desde a década de 1960, sendo considerado um dos fármacos mais importantes pela Organização Mundial de Saúde. Um facto que convém relembrar, pois, desde a década de 1970 e até aos dias de hoje, só surge nos cabeçalhos de muitos jornais por causa do uso recreativo que lhe é dado, fazendo soar alarmes quanto ao perigo que constitui para a nossa saúde o seu abuso.

Juntamente com o protóxido de azoto, a ketamina tem mostrado resultados na melhoria dos estados de depressão, agindo também, como já foi referido, junto dos recetores NMDA. Charles Conway e Peter Nagele acreditam que ambos os fármacos podem revolucionar o tratamento de depressões que resistem às terapias convencionais, mas sublinham que o protóxido de azoto “pode ter algumas vantagens práticas”.

Mais estudos, precisam-se. Eis a ideia geral com que se fica desta área de investigação.

Entretanto, o número de pessoas que sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde, cifra-se nos 264 milhões, a nível global. “No pior cenário, a depressão pode conduzir ao suicídio”, relembra o organismo, sendo que “perto de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos”, representando a “segunda maior causa de morte junto de quem tem entre 15 e 29 anos”.

Linha SOS Voz Amiga. Linha de apoio emocional e prevenção ao suicídio:

21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60
(todos os dias das 16h00 às 24h00)

Quanto a Portugal, em janeiro deste ano foram publicados os resultados do estudo Saúde Mental em Tempo de Pandemia, coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em colaboração com a Universidade de Lisboa e a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, o qual aponta que “25% dos participantes apresenta sintomas moderados a graves de ansiedade, depressão e stress pós-traumático”, e que “são sobretudo os jovens adultos e as mulheres que apresentam sintomas de ansiedade e de depressão moderada a grave”.

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