Uma das coisas que gosto de fazer é olhar para o mar a diversas horas. E uma das coisas mais fascinantes que podemos experimentar é ver como a luz ao longo do dia faz mudar o que vemos — as cores, o brilho, tudo.

A luz é uma fábrica de ilusões, tanto acentua a nitidez da realidade como insinua o mistério da fantasia. A fotografia é a extensão do olhar que nos permite moldar a luz, fixá-la e até mesmo alterá-la — David Hockney, o célebre pintor britânico, tem uma frase de que gosto muito: "As fotografias não são exatamente o que nós achamos que elas são.”

Por isso mesmo a fotografia pode ser realidade ou fantasia, mesmo sem usar truques ou manipulações. Moldar a luz, ver para além das aparências, é uma coisa de que gosto. Ver a luz a incidir no mar permite imaginar que estamos a ver algo diferente, que o horizonte se confunde com a água, que na realidade os limites de uma coisa e de outra são variáveis.

A luz é a ferramenta do olhar e quem fica a imaginar o que vê à sua frente encontra nas variações da luz a chave para poder descobrir outros olhares, para fantasiar e até para descobrir.

Onde nos leva o mar? Ao fim do horizonte? Ou é o horizonte que nos traz o mar? Olhar é um exercício de procurar respostas para descobrir o que a luz nos oferece. E poucas coisas são mais aliciantes do que conseguir parar para ver e pensar.

Andamos todos com tanta pressa que olhamos pouco. E sendo assim, pensamos ainda menos.

Estratégias de comunicação// Manuel Falcão escreve sempre à sexta-feira, no SAPO