"O difícil faz-se. O impossível leva mais tempo." Lida como um aviso ou um convite, esta frase acolhe quem chega ao Canil da Aroeira. Entre cães que aguardam afeto e humanos que não desistem de lhes dar uma segunda oportunidade, percebe-se que o impossível não é um limite, mas um desafio que se cumpre com paciência e amor.
É aqui que, desde 1982, dezenas de vidas encontram refúgio graças à Associação “Os Amigos dos Animais de Almada”, que nasceu da coragem de um pequeno grupo de mulheres incapazes de virar costas aos cães abandonados que vagueavam pelas ruas da freguesia. O terreno, na altura, não tinha boxes nem abrigos, existindo apenas árvores, cordas e cães deixados à sua sorte. Com mais de 40 anos de história, o espaço transformou-se num canil legalizado, com protocolo com a Câmara Municipal, mas o essencial continua igual: a luta por encontrar um lar para cada animal que ali entra.
Um desafio que não é pequeno. De acordo com dados divulgados pela DGAV (Direção Geral de Alimentação e Veterinária), os Centros de Recolha Oficiais recebem, por ano, mais de 30 mil animais abandonados. Se a este número somarmos os milhares de casos que nunca chegam a ser reportados, percebe-se a dimensão da crise: o primeiro Censo Nacional dos Animais Errantes, realizado em 2023, estima que existam em Portugal Continental mais de 930 mil animais errantes, entre eles 830 541 gatos e 101 015 cães. Cada número é uma história de abandono, sendo que muitas delas ecoam diretamente nas boxes do canil da Aroeira.
Cristina Nunes, presidente da associação, fala com a serenidade de quem conhece cada história, mas com a emoção de quem ainda não se habituou à crueldade. “A nossa missão é encontrar bons lares para estes animais”, resume. Parece simples, mas todos os dias lhe chegam desculpas que soam como facadas: famílias que mudam de casa e decidem que já não há espaço para o cão, casais que esperam um filho e convencem-se de que o animal se tornou um perigo, pessoas que emigram e não levam o companheiro de quatro patas consigo. Outras vezes, nem sequer há justificação e os cães são deixados à porta amarrados ou atirados para dentro do canil como se fossem lixo. Inclusive, no dia em que o SAPO esteve no Canil da Aroeira, houve até quem abandonasse uma caixa com gatinhos recém-nascidos, apesar de o espaço não ter condições para os acolher. Cristina já ouviu todas as desculpas, mas continua sem as aceitar. “Os cães fazem parte da família. Quando se quer, arranja-se sempre uma solução.”
Nem todas as histórias têm finais felizes. Cristina lembra-se, quando ainda era apenas voluntária, de uma cadela jovem, abandonada à porta, com um cancro de mama gigantesco. Lutaram por ela com tudo o que tinham: cirurgia, quimioterapia, cuidados redobrados. Mas já era tarde demais. “Sofreu muito, não só pela doença, mas também por ter sido cruelmente abandonada, e isso ficou comigo.” Noutras ocasiões, o desfecho é mais doce: cães que saem dali nos braços de famílias que os recebem como membros. Mas até esses momentos são vividos com um nó na garganta. A alegria da adoção mistura-se com a dor da despedida, “como um cordão umbilical que se corta”.
Veja alguns dos patudos disponíveis para adoção no Canil da Aroeira
A rotina aqui começa cedo. Cristina e Rita Pontes, trabalhadora no canil, chegam todos os dias por volta das sete da manhã. Enquanto os voluntários não chegam, soltam os cães que não se dão com os outros, limpam boxes, preparam a medicação e distribuem as rações, muitas vezes específicas para cada caso: sénior, gastrointestinal, húmida. O trabalho é físico, exigente e repetitivo. Mas é também um ritual de afeto, onde cada gesto diário se transforma numa prova de cuidado.
Ainda assim, os maiores desafios não estão apenas nas boxes, mas nas contas. Alimentar mais de uma centena de cães, garantir cuidados veterinários, sobretudo aos mais velhos, e lidar com internamentos caros são batalhas constantes. Há algum apoio da autarquia e de serviços veterinários, mas é insuficiente. É graças à solidariedade de padrinhos, sócios, voluntários e anónimos que o canil sobrevive.
Apesar do esforço em promover adoções responsáveis, nem sempre é fácil encontrar famílias. Muitos recuam perante os custos de manter um animal, sobretudo se este adoecer. Cristina defende há anos políticas públicas mais robustas, como a esterilização obrigatória e clínicas veterinárias com apoio do Estado. “Mais vale viver dois anos felizes do que dez infelizes fechados numa box”, desabafa, ao falar dos cães das matilhas selvagens que acabam condenados a uma vida inteira “atrás das grades” porque a lei não permite devolvê-los ao seu meio, depois de esterilizados.
Mas, apesar das dificuldades, há sempre espaço para a esperança. Quem não pode adotar pode ajudar de muitas formas: ser voluntário no canil, apoiar em feiras mensais, pagar diretamente contas em clínicas veterinárias ou contribuir com doações em espécie, nomeadamente com rações, medicamentos ou materiais de construção para a manutenção e substituição das boxes. Há também o apadrinhamento, um gesto simples mas valioso: por apenas cinco euros por mês, é possível acompanhar um cão e passeá-lo com mais frequência. E há o “Domincão”, passeios semanais que acontecem ao domingo a partir das 16h, onde os animais são levados a passear pela comunidade.
Cristina insiste sempre numa ideia: este lugar não é apenas um canil. Quem entra percebe que há aqui mais do que grades e boxes. Há um esforço constante para que cada cão se sinta em casa, ainda que temporária. “Enquanto não têm família, damos-lhes tudo para que se sintam bem.”
No Dia Mundial do Cão, o Canil da Aroeira lembra-nos algo essencial: dentro de cada box há mais do que um animal abandonado. Há histórias, há feridas, há esperanças. Há vidas que, apesar do passado, ainda acreditam no futuro. E talvez seja essa a maior lição que estes cães nos dão: a capacidade de continuar a confiar, mesmo depois de tudo.
Saiba como ajudar o Canil da Aroeira aqui.