Visa: “No futuro não vamos ter cartões, só o digital”

Pode parecer um paradoxo, mas a empresa conhecida pelos cartões não hesita em antecipar-lhes um fim. À conversa com o ECO, Andrea Fiorentino explica o que está a mudar na Visa.

Pode parecer um paradoxo, mas a empresa conhecida pelos cartões não hesita em antecipar-lhes um fim. À conversa com o ECO, Andrea Fiorentino explica o que está a mudar na Visa.

A Visa está a preparar-se para um futuro sem cartões bancários, algo que, diz, poderá acontecer daqui a dez anos. Até lá, a empresa quer adaptar o negócio à nova moda dos pagamentos com o telemóvel e sem o PIN dos quatro dígitos, como é o caso dos pagamentos sem contacto (contactless) ou da autenticação biométrica através da impressão digital. No horizonte, “desafios”, mas também “oportunidades”. “O meu sonho é não ter um cartão na carteira”, confessa Andrea Fiorentino, responsável das áreas de produto e soluções da Visa para o mercado do sul da Europa, em conversa com o ECO. “No futuro não vamos ter cartões. Vamos ter o produto digital”, refere o responsável.

Pode parecer um paradoxo — uma empresa que é conhecida pelos cartões antecipa-lhes o fim. Mas é uma causa natural da transformação digital que está a mudar a economia. E as empresas do setor financeiro são das que mais têm sentido esse impacto, como é o caso das startups ligadas ao dinheiro, que se propõem a fazer o mesmo que fazem estas empresas tradicionais, mas de forma mais eficaz e muitas vezes, com comissões mais baixas. Paula Antunes da Costa, líder da Visa Portugal, concorda com a ideia: “Já estamos a trabalhar, aqui, em soluções móveis”, avança.

Chamam-lhes fintech, mas o nome não mete medo aos responsáveis da Visa. Em vez de as combater, preferem juntar-se a elas. “Nós queremos trabalhar com as fintechs“, garante Andrea Fiorentino, explicando que o fenómeno diz respeito a startups que “se põem entre o consumidor e uma grande empresa para criar um serviço que a grande empresa ainda não criou”. “Nós entendemos que é uma evolução natural. Também não temos aquela ideia de que a Visa é capaz de fazer tudo sozinha. Talvez haja entidades que fazem algo muito bem e o que faz sentido é trazê-las para dentro do ecossistema, fazer parcerias com elas”, acrescenta Paula Antunes da Costa.

A Visa tem vindo a adotar uma postura de abertura cada vez maior, algo que não se via noutros tempos. Por isso, está a apostar em desenvolver sistemas abertos que possam ser usados por outros players do mercado. “Temos de estar atentos atentos àquilo que o consumidor quer. E o que o consumidor quer é cada vez mais uma experiência sem fricção, fácil e a qualquer momento, quer esteja em Portugal ou no estrangeiro, com débito ou crédito, online ou presencial, contactless ou com chip e PIN”, refere a country manager da Visa Portugal.

Por isso, “independentemente da forma como o cliente quer fazer o pagamento, temos de ter a garantia de que temos a melhor solução, a mais segura, a mais conveniente”, acrescenta a gestora. É neste campo que surge a lógica das parcerias para a Visa: “Procuramos parcerias, sejam fintechs ou empresas mais constituídas, como por exemplo a IBM”, sublinha.

“Os intermediários têm valor”

A tecnologia blockchain, que ganhou popularidade com as criptomoedas no ano passado, instaurou a ideia de que uma transação sem intermediários traz mais benefícios a ambas as partes. Mas a Visa, enquanto potencial vítima desta tendência (o seu negócio é intermediar transações), vê as coisas de outra forma. O middleman tem um valor: é também prestador de uma garantia.

O exemplo é apresentado ao ECO por Andrea Fiorentino. Quando um cliente compra um equipamento numa loja online, paga através de um meio de pagamento digital e fica a aguardar a chegada da encomenda. Mas… e se essa encomenda não vem como era suposto? E se o produto recebido não é o produto encomendado? Se a transação for intermediada pela Visa, o cliente sabe que está seguro, pois tem mais hipóteses de reaver o seu dinheiro, garante a empresa.

“Os intermediários existem e têm um valor. A Visa existe porque acrescenta valor a alguma coisa. Tem regras para dar garantia sobre os produtos que me vendem. O payment protection acrescenta um valor importante”, salienta Andrea Fiorentino.

De qualquer forma, a Visa não quer fechar portas à tecnologia. A empresa já está a desenvolver testes com base em blockchain, que “é muito interessante, enquanto tecnologia e não tanto pelas criptomoedas”. “Fizemos vários projetos com empresas em blockchain e estamos a usar a tecnologia do registo distribuído num projeto interno”, admite o representante da Visa no mercado sul-europeu.

Retoma ajuda empresas de pagamentos

A confiança dos consumidores tem vindo a aumentar, à medida que o tempo sara as feridas da crise económica de 2008. E isso está a melhorar os resultados das gigantes dos pagamentos. “É claro que, com um aumento da confiança dos consumidores, também há uma maior utilização dos meios de pagamento. Ou porque as pessoas consomem mais, ou porque acabam por acrescentar poder de compra”, explica Paula Antunes da Costa. É por isso que “a atividade da Visa acompanha a tendência do consumidor”, diz.

Melhores resultados abrem a caixa de Pandora do crescimento. E já está a ser implementado um plano de expansão das operações da Visa em Portugal, confirmam os responsáveis ao ECO. “Representamos a Visa em Espanha e Portugal. É um mercado muito importante e o objetivo é subir a nossa exposição em Portugal”, avança Andrea Fiorentino. Um plano que “depende de várias condições”, como “a capacidade de inovação dos bancos” ou mesmo a própria “dinâmica do mercado”.

Para o diretor de produto da Visa, o mercado português é ainda um mercado que “está a recuperar depois de uma crise muito importante” e que “tem uma oportunidade incrível”, como é o caso do turismo. “É muito importante para nós dar suporte e operações aos vários bancos na parte de aceitação de cartões Visa estrangeiros e também permitir a emissão de produtos muito sofisticados para os bancos portugueses”, acrescenta.

O plano passa por “aumentar a quantidade de pessoas” a trabalhar na Visa Portugal no campo das relações com as instituições financeiras. “Há uma preocupação em reforçar as equipas locais, em dotar as equipas locais de maiores competências, de competências reforçadas”, indica Paula Antunes da Costa. “Estamos a contratar pessoas. Não é mentira se vir no LinkedIn algumas posições abertas para a Visa em Portugal”, frisa a gestora. Além do suporte aos bancos, a empresa está a “reforçar competências de marketing, de apoio à aceitação e de produto”.

Regulamentação? “Estamos à frente dos EUA”

A experiência da Visa diz que a Europa está um passo “à frente” dos EUA no que toca a regulamentação adaptada à economia digital — seja graças ao Regulamento Geral de Proteção de Dados, seja por causa da nova Diretiva dos Serviços de Pagamentos. Através da primeira, os cidadãos europeus estão mais protegidos em matéria de dados pessoais. Na segunda, há uma maior abertura do mercado à inovação e à concorrência nas empresas financeiras.

“Estamos à frente dos EUA”, garante Andrea Fiorentino. Mas Paula Antunes da Costa dá também um passo adiante: os legisladores deviam ser mais rápidos. “Às vezes, a própria regulamentação anda um pouco atrás da inovação. Por exemplo, os bancos portugueses já têm desenvolvidas soluções que depois não podem disponibilizar”, confessa. Terá sido o caso da abertura de contas através da internet. A lei “exigia que o processo de abertura de conta fosse feito fisicamente”, recorda. Isso mudou e, hoje, já é possível abrir uma conta no banco a partir do sofá.

“Isto mostra que os bancos portugueses estão preparados, estão atentos, estão a trabalhar e até têm soluções paralelas. Estão à frente, só estão é à espera que a regulamentação possa permitir essa disponibilização”, garante. Sobre a regulamentação, Paula Antunes da Costa tem só mais uma coisa para dizer: “Há desafios, há barreiras, mas depois também há oportunidades”. Oportunidades que a Visa não quer deixar escapar.

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