O assédio sexual é um nojo

As redes sociais ampliam as perversões e condenam ao minuto e não há gestão de crise que consiga limpar a imagem de um pulha.

As redes sociais ampliam as perversões e condenam ao minuto e não há gestão de crise que consiga limpar a imagem de um pulha.

Harvey Weinstein e todos os que assediam e violentam outras pessoas, usando e abusando do seu poder, são nojentos. A libido não pode ser uma arma sem leis nem regras onde domina o mais forte, submetendo aos seus desejos os que podem depender dele. No caso das mulheres, não é por se nascer com essa condição que se têm de sujeitar a actos indecorosos e pressões psicológicas. São séculos de história de abusos e silêncios como se houvesse um direito consuetudinário do homem poder impor os seus caprichos.

O caso do produtor americano abriu a Caixa de Pandora de algo que era conhecido mas colocado debaixo do tapete, como se não houvesse sujidade. Depois, vieram os empreendedores, os jornalistas, os feiticeiros de Sillicon Valley, os actores, os políticos, todos praticantes da mesma ignomínia. Isto, nada tem a ver com feminismo, apenas com decência. Nenhum ser humano, homem ou mulher, pode ser submetido a violações ou práticas indignas e não há privilégios só porque alguns são estrelas de cinema ou televisão. Quando há vítimas, ninguém deve ter perdão. Sabemos que subsiste o medo, o receio de uma carreira ser dilacerada se houver uma denúncia, mas é este terror que é a mordaça que vai defendendo os canalhas.

Há muitos anos uma das actrizes mais bonitas e inteligentes que passou, e se desiludiu, com a Meca do cinema, Hedy Lamarr, dizia que «qualquer mulher pode ser glamorosa. Tudo o que tem de fazer é ficar calada e parecer estúpida». Pois esses eram os tempos onde os predadores atacavam sem oposição. O mundo mudou e já não pactua bem com práticas imorais, corrompidas e obscenas. As redes sociais ampliam as perversões e condenam ao minuto e não há gestão de crise que consiga limpar a imagem de um pulha.

Porém, só vemos o que tem vindo nos jornais, pois subsiste o assédio e o abuso de poder em microcosmos com menos luzes da ribalta. A propósito do que digo, relembro “North Country”, onde Charlize Theron veste a pele de Josey Aimes. Narrativa que conta a história das primeiras mulheres a trabalhar em minas no Minnesota, um filme frio, duro, como os abusos físicos, os insultos e a linguagem sexual explícita que elas ouvem dos outros mineiros. Porque o assédio ainda é mais vil e difícil de combater quando se mistura o estado de necessidade e sobrevivência dos mais necessitados que alimentam as suas famílias com o pouco que recebem.

Há pouco tempo a administradora delegada da Media Capital, Rosa Cullell, escreveu sobre este tema um notável artigo no El Pais, ali rezava: «A mulher segue sendo menosprezada diariamente na nossa sociedade. Essa é a origem de uma violência que é apenas o iceberg do monstro da desigualdade». E estamos nas sociedades ocidentais. Agora, reparem como são elogiadas as reformas do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed Bin Salman, que pela primeira vez permitem às mulheres conduzir, serem gestoras da bolsa e reitoras de universidades. Sem dúvida, em todos os hemisférios, o papel da mulher deve ser encarado de outra maneira e tal só acontecerá quando mais mulheres ocuparem posições de poder.

Porque o assédio é um comportamento opressivo, exercido por quem está em posição privilegiada, diz qualquer dicionário. É uma forma de violência dentro e fora do ambiente de trabalho. É uma dinâmica social de pendor machista que se instituiu como se não houvesse o direito de qualquer mulher se revoltar pelo seu direito á dignidade. É bom ver a repulsa das sociedades contra actos hediondos, é preciso dar mais apoio a quem ainda para viver tem de sofrer em silêncio. E para as vítimas de assédio sexual, o silêncio não é de ouro.

Nota: o autor escreve segundo a antiga ortografia

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