Obras no Cemitério Judaico do Funchal enfrentam constrangimentos técnicos e religiosos

O projeto de recuperação do Cemitério Judaico do Funchal apresenta alguns constrangimentos de caráter técnico e religioso, dada a natureza da estrutura e a sua localização sobre uma falésia, mas as obras, financiadas por uma organização internacional, já decorrem.

"A nossa cidade é feita de memórias e uma cidade com 500 anos tem memórias de valor incalculável", disse à agência Lusa Paulo Cafôfo, presidente da Câmara do Funchal, realçando a importância histórico-cultural dos trabalhos em curso e o papel desempenhado pela autarquia como interlocutor entre as várias entidades interessadas.

Classificado como Património Cultural da Madeira desde 1993, o Cemitério Judaico, também conhecido por Cemitério dos Judeus, estava há décadas votado ao abandono, à ruína e ao vandalismo, até que, no início deste ano, o Comité Europeu para a Proteção dos Cemitérios Judaicos decidiu intervir, dando início ao projeto de recuperação, orçado em cerca de 180 mil euros.

O recinto, construído em meados do século XIX, ocupa uma área de 315 metros quadrados e localiza-se na Rua do Lazareto, no alto de uma encosta, na zona leste do Funchal, tendo já uma parte desmoronado sobre a praia, ficando algumas campas também em risco de queda.

As obras, a cargo de uma empresa madeirense, visam essencialmente a estabilização do talude e a reconstrução do muro se suporte, sendo que decorrem em três níveis: na plataforma do cemitério, na encosta sobranceira e no calhau junto ao mar.

As dificuldades técnicas e religiosas resultam de os trabalhos incidirem sobre uma zona muito instável e, ao mesmo tempo, em local sagrado, pelo que não foi permitido utilizar o recinto como estaleiro e menos ainda os espaços onde se encontram as urnas, os quais em nenhuma circunstância deverão ser invadidos, à superfície ou em profundidade.

O projeto implica o recurso a pilares assentes na base do talude, que suportarão a escoada de basalto sobre a qual assenta a superfície útil do cemitério. Por outro lado, o muro de alvenaria de pedra que delimita a área será substituído por materiais mais ligeiros e ao longo da falésia será usada uma argamassa com pigmentos colorantes de modo a minimizar o impacto visual da intervenção.

No Cemitério dos Judeus, cujo portão de entrada ostenta a data de 1851, foram sepultadas 38 pessoas entre 1854 e 1976, ano em que ocorreu o último enterramento. Desde então, o espaço caiu no esquecimento, dado que a comunidade judaica não tem expressão na Madeira.

O anterior executivo municipal tentou encontrar uma solução para o estado de ruína em que se encontrava a estrutura, tendo estabelecido contactos com a embaixada de Israel e a comunidade judaica em Portugal, uma vez que se trata de propriedade privada.

A autarquia chegou a propor a transladação do espólio para o Cemitério de São Martinho, que é o maior do concelho do Funchal, tendo disponibilizado para o efeito uma área de 466 metros quadrados, mas nunca houve entendimento nem interesse por essa solução.

Este ano, porém, a Câmara Municipal do Funchal aprovou o projeto de recuperação do espaço, apresentado pelo Comité Europeu para a Proteção dos Cemitérios Judaicos, uma organização internacional com 50 anos de existência, que se dedica à proteção, preservação e restauração de cemitérios judeus negligenciados por todo o mundo.

DYC (AMB) // PMC

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