Ensaio Nissan Qashqai 1.5 dCi N-Connecta: o rei sobrevive

Criou o segmento há uma dezena de anos, conheceu duas gerações e outro par de renovações e mantém-se na crista da onda apesar do lago dos crossover estar cada vez mais povoado e com propostas cada vez mais avançadas.

Criou o segmento há uma dezena de anos, conheceu duas gerações e outro par de renovações e mantém-se na crista da onda apesar do lago dos crossover estar cada vez mais povoado e com propostas cada vez mais avançadas. Vou recordar-lhe neste ensaio a razão para esta manutenção do Qashqai na liderança. E não, não é só o preço.

Disfarçadas as rugas e esticada a pele, o Qashqai lá continua no topo do segmento. Porém, estas alterações não chegam para esconder que rivais como o Peugeot 3008, VW Tiguan, Audi Q3 e muitos outros são melhores que o Nissan.

Quando lhe perguntam sobre um refrigerante, que nome lhe vem á cabeça? Coca Cola! E se lhe perguntar sobre fotocópias? Xerox! Mas se lhe perguntar sobre berbequins? Black & Decker, certo?! E quando algum artista faz um número de circo na estrada e rola depressa demais, o que é que lhe chamam? “É pá, parece o Fittipaldi!” Quando falamos de crossover... Qashqai é o nome que lhe assalta o espírito. Este Nissan é a prova que nem sempre ser o melhor do segmento – sim há cada vez mais rivais e sem problemas assumo que alguns são melhores que o Qashqai – é sinónimo de vendas. Seja porque o modelo já é associado ao segmento e a opção é imediata, seja porque a agressividade comercial permite que o Qashqai seja vendido abaixo dos 30 mil euros, seja porque o Nissan é um bom carro, a verdade é que continua com uma carreira comercial que, não sendo tão gloriosa como há uns meses, permanece em alta.

Veja quanto é que lhe pode custar este Nissan Qashqai 1.5 dCi

Não há carros perfeitos como já não há, neste momento, carros maus. Porém, a Nissan tinha a consciência plena que a anterior geração estava no limite em várias áreas. E apesar das vendas não se ressentirem, a verdade é que os utilizadores foram vocalizando, com a ajuda dos jornalistas, problemas que os incomodavam no dia a dia com o Qashqai. Assim, os mais de 2 milhões de clientes disseram que o Qashqai deveria ser mais forte em termos de estilo, acabamentos e refinamento, ter equipamento mais completo e maior envolvência na condução.

Como podem ver nas fotos – e comprovar no texto que acompanhou o primeiro ensaio ao Qashqai que podem ler clicando aqui – o estilo exterior mudou a frente do carro, o interior recebeu um novo volante e reforço da qualidade dos interiores, foi reforçada a insonorização, colocada uma direção nova e foram promovidas mudanças na suspensão. O detalhe está clicando aqui.

A frente é a única zona que permite dizer que este é um Qashqai diferente. A forma sensaborona, conservadora da frente da segunda geração deste Nissan deu lugar a uma frente mais trabalhada com a famosa forma em V da grelha, mais agressiva, novos faróis – que agora podem ter tecnologia LED adaptativa – novo capot e uma lateral que recebeu ligeiríssimos retoques, terminando na traseira que recebe noivos farolins e um para choques redesenhado.

Já no interior, temos um volante vindo do Micra e que rima mais ou menos com o habitáculo do Qashqai. Os materiais suaves ao toque e de qualidade até à linha de cintura, dai para baixo menos agradáveis – embora haja um elevar de fasquia na qualidade dos plásticos e revestimentos - habitabilidade suficiente para duas pessoas no banco traseiro (cabe um terceiro, mas não deixará de se fazer ouvir…), uma posição de condução dominante e uma bagageira multi configurável que se suporta no rebatimento 60/40 das costas do banco traseiro para oferecer maior versatilidade. Ou seja, melhorado o que era preciso, o resto ficou igual.

Mudança importante surge na suspensão. O Nissan Qashqai nunca foi um primor de conforto, não porque isso permitisse um comportamento referencial, mas devido à afinação de molas e amortecedores. Curiosamente, uma afinação que não ajudava muito o comportamento. Sem dificuldades de condução, sempre que apertávamos o andamento, a frente tinha a mania de descolar e por isso, o melhor era mesmo não abusar da sorte. Então, o que fizeram os senhores da Nissan para resolver este problema?

Bom, suavizaram as molas entre 5 a 8% (dependendo do peso bruto do carro, sendo isso sensível nos diesel, embora com as alterações introduzidas o carro tenha engordado um bom pedaço) e endureceram a barra estabilizadora dianteira 16%. A primeira medida serve para suavizar o carro, a segunda para preservar a capacidade em curva. O carro esta, realmente, mais suave e para o público alvo do Qashqai, não está longe do exigido.

O sistema Active Ride Control foi alterado para suavizar as bandas sonoras comuns através do uso do travão e do motor para evitar uma pancada seca. No capitulo da insonorização, a Nissan aplicou mais material em determinados pontos, aumentou a espessura dos vidros traseiros e colocou alguns detalhes aerodinâmicos que permitem diminuir o arrasto e, sobretudo, os ruídos provocados pelo vento.

Qual o resultado de tudo isto?

Bom, o Qashqai está, praticamente, na mesma. Continua a não ter problemas de inserção em curva, mas mantém algum movimento da carroçaria o que elimina toda e qualquer possibilidade de diversão ao volante. E, como também sucedia anteriormente, a frente descola cedo. Porém, nota-se mais alguma compostura quando exageramos no andamento e, sobretudo, maior conforto.

A direção também é nova, do volante á caixa, sendo mais leve, particularmente no modo Normal, aproveitando os 10% a mais de dureza conferidos pelo modo Sport para oferecer bom desempenho de topo a topo, consistência e precisão. A sensibilidade é pouca, mas isso já é um hábito no segmento. E, convenhamos, chegam os dedos de uma mão para contabilizar os crossover com capacidade de curvar depressa sem pecado.

O motor 1.5 dCi que equipava o Qashqai que serviu de base a este ensaio, não deixa de fazer sentir que está já um nadinha antiquado. Os 110 CV são justos, mas o bloco 16 dCi com 130 CV é mais agradável na utilização. É verdade que é mais económico que o 1,6 litros – consegui uma média de 4,8 l/100 km no final do ensaio – mas em certas situações, praguejamos por não estar ao volante do mais potente Qashqai diesel. Compromissos...

Veredicto

Disfarçadas as rugas e esticada a pele, o Qashqai lá continua no topo do segmento. Porém, estas alterações não chegam para esconder que rivais como o Peugeot 3008, VW Tiguan, Audi Q3 e muitos outros são melhores que o Nissan. A decisão de aumentar o conforto vai satisfazer os incondicionais do Qashqai e apenas aqueles que acreditavam que “agora é que é” no que toca ao comportamento, são capazes de serem tentados por outros modelos. Continua a ser uma excelente proposta e por 27.200 euros (preço promocional que desconta 4850 euros) uma enorme tentação.

FICHA TÉCNICA

Nissan Qashqai 1.5 dCi N-Connecta 18

Motor 4 cilindros em linha, injeção direta, turbodiesel; Cilindrada (cm3) 1461; Diâmetro x curso (mm) 76 x 80,5; Taxa compressão 15,4; Potência máxima (cv/rpm) 110/4000; Binário máximo (Nm/rpm) 260/1750 - 2500; Transmissão e direcção Tração dianteira, caixa manual de 6 vel.; direção de pinhão e cremalheira, com assistência elétrica; Suspensão (fr/tr) Independente tipo McPherson; eixo de torção; Dimensões e pesos (mm) Comp./largura/altura 4394/1806/1590; distância entre eixos 2646; largura de vias (fr/tr) 1560/1560; travões fr/tr. Discos / discos; Peso (kg) 1320; Capacidade da bagageira (l) 430/1585; Depósito de combustível (l) 55; Pneus (fr/tr) 215/55 R18; Prestações e consumos aceleração 0-100 km/h (s) 11,9; velocidade máxima (km/h) 182; Consumos Extra-urb./urbano/misto (l/100 km) 3,6/4,2/3,8 (consumo real medido 4,8 l/100 km); emissões de CO2 (g/km) 99; Preço da versão ensaiada (Euros) 27.200

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