Sofia Tenreiro, diretora-geral da Cisco Portugal: “Estamos a lutar pelo centro de desenvolvimento e espero conseguir”

A Cisco assinou recentemente uma parceria com o Governo para acelerar a digitalização no país. Sofia Tenreiro, diretora-geral da empresa em Portugal, quer trazer novos investimentos.

A Cisco assinou recentemente uma parceria com o Governo para acelerar a digitalização no país. Sofia Tenreiro, diretora-geral da empresa em Portugal, quer trazer novos investimentos.

A Cisco está presente em Portugal há dez anos, através de centros de serviços de suporte internacional, e quer alargar os investimentos no país. Em entrevista ao ECO24, Sofia Tenreiro, diretora geral da Cisco Portugal, diz que tem a “ambição” de trazer para o país um centro de desenvolvimento da tecnológica norte-americana, à semelhança daquele que a Google vai inaugurar em Oeiras. E acredita que está “no bom caminho” para alcançar esse objetivo, tendo em conta a parceria recentemente assinada com o o Executivo de António Costa para a acelerar a digitalização em Portugal nos próximos dois anos.

“Não temos centros de desenvolvimento e isso, confesso, é um sonho que tenho. Estamos a lutar e espero conseguir. É uma ambição muito grande”, diz a responsável na entrevista transmitida na quarta-feira à noite na TVI 24. “E estamos no bom caminho, se já conseguimos ser um dos 18 países do mundo a trazer o programa CDA [Cisco Digital Acceleration]”, acredita.

Quanto ao tipo de emprego oferecido neste tipo de centros, como chegou a questionar-se no caso da Google, Sofia Tenreiro rejeita que sejam call centers. “As pessoas que temos são muito especializadas, algumas prestam serviços muito técnicos. São técnicos especializados, certificados, com várias certificações. Temos esse tipo de serviços de apoio e temos também serviços ligados à área de recursos humanos e à área financeira. Temos um leque muito alargado”, aponta.

Portugal está “no bom caminho” para receber um centro de desenvolvimento da Cisco, diz Sofia Tenreiro.Paula Nunes / ECO

“A Cisco percebeu que Portugal está num bom momento”

Certo é que a aposta da Cisco no país é para continuar. Este mês, a empresa assinou com o Governo uma parceria com o objetivo de acelerar a digitalização de Portugal nos próximos dois anos, numa estratégia que vai permitir criar emprego, melhorar a qualidade de vida e promover crescimento, acredita a tecnológica.

E o facto de Portugal ser agora um dos 18 países escolhidos para a implementação do Cisco Digital Acceleration não é por acaso. “É um grande motivo de orgulho. Somos o país mais pequeno [entre os 18 selecionados] e fomos escolhidos por vários motivos. Por um lado, pela confiança que a Cisco tem na equipa local. Mas, acima de tudo, pelo potencial do país. A Cisco percebeu que Portugal está num bom momento, de crescimento económico, com uma vontade muito grande de inovar“, considera a responsável.

A seleção de Portugal aconteceu depois de John Chambers, chairman da Cisco a nível global, ter vindo ao país durante a primeira edição do Web Summit que se realizou por cá, em 2016. “Foi apaixonante. Reuniu-se com empresários portugueses e com alguns membros do Governo e sentiu esta paixão que estava a ouvir da equipa portuguesa. No fundo, acreditou que era possível e que as promessas que estava a ouvir de que o país ia continuar a crescer eram promessas válidas e consolidadas“, recorda.

Sobre o programa em si, Sofia Tenreiro salienta que uma das prioridades será o desenvolvimento das competências digitais. “Temos universidades fantásticas, nos rankings europeus e mundiais, mas, em termos de competências digitais da população ativa, estamos muito atrás da média europeia”.

Essas lacunas “têm um impacto negativo a muitos níveis, não só na maneira como as pessoas trabalham, mas, por exemplo, num e-commerce que poderia ser muito mais desenvolvido”. Assim, acredita Sofia Tenreiro, “há um espaço enorme para crescer”.

“Informação é o novo petróleo”. E empresas não estão preparadas para protegê-la

Portugal é dos países com taxas mais baixas de adoção de políticas de cibersegurança, aponta a diretora geral da Cisco no país.Paula Nunes / ECO

A outra grande prioridade do programa CDA será a cibersegurança. Portugal, aponta Sofia Tenreiro, está entre “os países com taxas mais baixas de adoção de estratégias e políticas de cibersegurança por parte das empresas”.

O problema existe, sobretudo, entre as pequenas e médias empresas (PME). “As grandes empresas estão muito preparadas, o setor financeiro está muito preparado desde há muito tempo. As PME não estão tão preparadas, porque acreditam que, como são menos conhecidas, são menos atacadas. Mas são. Porque os hackers pensam dessa maneira: quais são as empresas com maiores fragilidades e com menores defesas e onde poderão ter mais sucesso”, sublinha.

O papel do programa será, precisamente, educar para a importância da cibersegurança e fornecer competências nesta área. “As empresas mais pequenas olham para a questão da cibersegurança e para os investimentos de cibersegurança numa perspetiva do que chamamos de return on investment, ou seja, quanto vou ter de receitas em consequência do investimento que estou a fazer. E a verdade é que este investimento não dá receita, é um gasto em que não se tem certezas sobre o retorno que vai existir. Mas temos de pensar em termos reputacionais, em termos das próprias receitas que podem vir a perder”.

Mais importante, diz, já não se trata apenas de precaver situações em que pode perder-se dinheiro. O mais importante é a informação. “Hoje, a informação é o novo petróleo, é o bem mais precioso no mundo. Os hackers sabem que, se conseguirem ter acesso a essa informação, bloqueá-la, roubá-la ou adulterá-la, conseguem ter ganhos muito grandes. Este crime do ciberespaço já é muito mais rentável do que que o crime do espaço físico. Estima-se que valha mais do que um trilião de dólares e, por isso, é muito apetecível continuar a ver quais são as fragilidades”.

E o número de ataques cresce a cada dia, não só a nível mundial, mas também em Portugal. A nível global, a Cisco trava 20 mil milhões de ciberataques por dia, cerca de seis vezes o número de pesquisas que diariamente são feitas no Google. “Hoje, o tempo médio entre o momento em que o malware entra numa organização e aquele em que é descoberto é cerca de 60 dias. Imaginem, em 60 dias, o que é que o malware consegue fazer em termos de pesquisar informação, perceber o que é que vai fazer, qual é a informação que lhe interessa”.

“A informação é o novo petróleo”, diz Sofia Tenreiro.Paula Nunes / ECO

A melhor forma de evitar este tipo de ataques, acrescenta ainda, é desenhar uma “estratégia holística”. Primeiro, numa perspetiva da tecnologia, pensar em “qual é o bem mais precioso da empresa” e “quais são as fragilidades possíveis da empresa”. Depois, saber “quem é que acede aos dados” dentro da organização. “É possível, de forma muito fácil, perceber quais são os tipos de utilização que cada pessoa deve ter e, se uma pessoa estiver a fazer uma utilização atípica de um email, conseguimos identificar isso imediatamente”. Por último, há a perspetiva da educação e cultura. “É preciso que as pessoas tenham conhecimento do que podem e não podem fazer e atuarem de acordo com isso”.

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