Estudo: O “vale da morte” que impede o crescimento das PME

Um estudo da COTEC, a que o ECO teve acesso, expõe a existência de barreiras ao crescimento das PME. E mostra que as inovadoras têm, em média, lucros oito vezes superiores aos das restantes.

Entre milhares de empresas portuguesas registadas em 2015, encontravam-se apenas 127 na categoria mid-cap. As restantes, ou eram grandes empresas, ou eram de pequena ou média dimensão (PME), uma camada que ainda hoje representa mais de 99% do tecido empresarial nacional. Mas porquê tão poucas mid-cap? Esta terça-feira, a COTEC Portugal, Associação Empresarial para a Inovação, vai lançar um estudo que explica este fenómeno.

O trabalho foi desenvolvido em parceria com a Deloitte. O ECO teve acesso ao estudo, que expõe a existência de um vazio de mid-caps em Portugal e explica o porquê, sugerindo medidas, algumas de política pública, para mitigar o problema. Além disso, o título “Destino: Crescimento e inovação — o impacto da inovação na performance económico-financeira das PME e no seu crescimento”, é revelador do trabalho que mostra como as empresas inovadoras têm melhores desempenhos económico-financeiros e dá motivos reais para se apostar em inovação.

Uma mid-cap é uma empresa com mais de 250 trabalhadores e um volume de negócios superior a 50 milhões de euros. A COTEC recorreu a uma amostra de 203 empresas e a dados relativos ao período entre 2011 e 2015. Em termos de definição das mais inovadoras, usou os resultados mais recentes do Innovation Scoring, um instrumento da COTEC que mais não é do que uma pontuação de inovação. Depois, comparou o desempenho das mais inovadoras com o da generalidade das PME nacionais.

O missing middle. E as razões

A existência de poucas empresas na categoria mid-cap é um problema para a COTEC. Um problema porque, se as PME não interrompessem o crescimento no momento da graduação para mid-cap, isso teria efeitos positivos para o país a nível macroeconómico. “Se estas empresas continuassem até chegarem ao limiar de mid-caps, teríamos, entre 2015 e 2020, um acréscimo médio de 0,4 pontos percentuais por ano ao crescimento [económico] já existente”, explicou Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC, em conversa com o ECO.

Mas não. Dados, como a existência de um número reduzido de mid-caps em Portugal, expõem a existência de um vazio a que a associação chamou de missing middle. Então, porque é que isto acontece? Por falta de apoios. O estudo da COTEC indica que muitas PME preferem manter-se no estado de PME para não perderem o acesso a incentivos financeiros e fiscais. Entre outras medidas, a COTEC propõe um alargamento dos critérios de elegibilidade ao financiamento, numa altura em que o Plano Juncker começa a ser uma opção.

“Estamos a abrir um novo ciclo de discussão. O Portugal 2020 está praticamente terminado e, neste momento, temos a oportunidade de, ao abrir um novo ciclo de financiamento do ponto de vista da competitividade e do crescimento, lançarmos a discussão. É o timing ideal”, considerou Jorge Portugal. O diretor-geral da COTEC chegou mesmo a considerar a linha que divide o Estado das PME e mid-cap como “o vale da morte”.

E acrescentou: “Temos de trabalhar no sentido de quais são as medidas de política pública que podem incentivar que as empresas não abdiquem do crescimento e possam continuar a evoluir para além daquilo que é o seu teto, o teto que muitas vezes impõem a si mesmas. E que o vale da morte não seja vale da morte, mas vale da vida e da continuidade.”

PME inovadoras são “melhores empresas”

Outro aspeto do estudo é o facto de mostrar que as empresas consideradas inovadoras pelo Innovation Scoring da COTEC têm também melhores desempenhos. Comparando a performance económico-financeira das PME com melhor pontuação com as restantes PME, a associação descobriu que as primeiras são aquilo que Jorge Portugal classificou de “melhores empresas”.

“Essas empresas crescem mais depressa, exportam mais (conseguem estar em mercados mais globais), têm autonomia financeira e endividamento menor (maior saúde financeira), são em média maiores e conseguem ter maior eficiência sobre a utilização dos seus ativos, são empregadores maiores e pagam salários melhores “, sumarizou Jorge Portugal. Falando de números concretos, as PME mais inovadoras têm quase quatro vezes mais volume de negócios, EBITDA cinco vezes superiores e quase oito vezes mais lucro.

“Por tudo isto, a inovação compensa. Aquele pressuposto de que as empresas inovadoras são melhores empresas prova-se com este estudo. Há uma razão para inovar”, disse o diretor-geral da COTEC. A outra “ideia fundamental”, como vimos, diz respeito ao “impacto do crescimento na economia”.

PME resistem ao crescimento

Jorge Portugal recordou que o problema do missing middle não é exclusivo de Portugal. “Vemos isso por toda a Europa. Não é um problema português. Vemos muitas empresas que ficam dentro do patamar de PME. Vão crescendo e chega a um momento da sua situação de PME em que quase que se auto limitam do ponto de vista do crescimento e, a partir dali, ficam naquela dimensão durante muitos anos”, indicou.

Este será um dos pontos a serem abordados na 14.ª edição do Encontro Nacional de Inovação da COTEC, que se realiza esta terça-feira, 16 de maio, no CEiiA, em Matosinhos. A associação promoverá a ideia de que a inovação é positiva para as empresas e sensibilizará os decisores políticos para a necessidade de se adotarem medidas no sentido de promover a graduação das PME para a dimensão de mid-cap.

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Entre elas, a COTEC, além do alargamento dos critérios de elegibilidade do acesso a financiamento, propõe e defende a criação de parcerias e aquisição de empresas como forma de crescimento inorgânico, a criação de um novo mercado de capitais para as PME e a criação de um programa de estágios profissionais como forma de capitalizar conhecimentos na área da investigação e desenvolvimento que resulta em inovação.

Infografias por Raquel Sá Martins.

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