Diz a lenda que o Dakar foi criado entre a vida e a morte do seu criador. Pouco depois de disputar as 24 Horas de Le Mans, Thierry Sabine decidiu alargar a sua alma de aventureiro e desafiar as dunas de moto. Como tantos outros, participava no Rali Abidajan-Nice, uma das primeiras competições realizadas em África. A meio do percurso, perdeu-se na Líbia, nas escaldantes areias do Ténéré, conhecido por ser o mais perigoso deserto do Mundo. Ali ficou três dias, sem gasolina, sem água e sem comida!

Desesperado, arrancou do pescoço um fio com a medalha de Nossa Senhora de Fátima e atirou-o ao céu, numa súplica de salvação.
Onde caísse, também ele pararia, à espera de socorro… ou que a morte viesse. Chegou a preparar o suicídio, ensaiando um conhecido ritual Touaregue: expor a cabeça ao sol de 50 graus para que a língua inchasse e lhe provocasse a asfixia. Bastaria meia hora.
Nesse período de profunda solidão e drama, diz a lenda que Thierry Sabine teve uma súbita inspiração, mais tarde transformada em promessa: caso se salvasse, organizaria o seu próprio rali, uma competição grandiosa, como nunca ninguém imaginara até à data.
Estava com a ideia na cabeça quando ouviu um barulho vindo do céu: era um avião de reconhecimento a atirar-lhe água e alimentos num pára-quedas.
Regressou a França com o corpo maltratado, mas com uma ideia presa na mente, quase como uma obsessão: organizar a tal corrida que largasse de Paris e, atravessasse os desertos mais míticos de África e terminasse em Dakar.
Não perdeu tempo. A 26 de Dezembro de 1978, o sonho transformou-se em realidade, com 170 equipas a apresentaram-se à partida de Paris, tendo pela frente mais de dez mil quilómetros através da Argélia, Mali, Alto Volta e Senegal.
A corrida mais mediática do Mundo estava lançada, como de resto o mote desta corrida ímpar: «um desafio para os que vão, um sonho para os que ficam».
Em 1986, o mundo ficou em choque.O helicóptero onde seguia Thierry Sabine embateu numa duna, a meio de uma tempestade de areia. Todos os passageiros morreram, incluindo o pai do Paris-Dakar. Mas a obra, como o sonho, perdura até hoje…