Rúben Faria recordou recentemente algumas memórias do seu primeiro Dakar que foi, ao mesmo tempo, a sua estreia no deserto e a sua estreia a navegar.

Em declarações à Touratech, aqui ficam alguns excertos desta autêntica aventura!

Em 2006, venci a segunda etapa entre Almodovar e Alcoutim. Na etapa seguinte, já em Marrocos, fui o primeiro a arrancar. Vi-me ali sem alguém à minha frente e nem sabia o que era um roadbook. Olhei para trás e vi 200 pilotos atrás de mim e pensei: ‘é vergonha arrancar e parar logo a seguir’. Então disse para mim ‘vou andando e quando aparecer a primeira lomba paro à espera de outro concorrente’.

Mas depois fui andando, fui andando, fui andando e comecei a ver caminhos e a tomar opções. Às tantas parei, desliguei a moto e não ouvia qualquer barulho. Decidi voltar 6 ou 7 km para trás e, claro, quando retomei o percurso já me tinham ultrapassado vários pilotos.

A verdade é que todos os portugueses da ‘nova geração’ competiram em Marrocos como amadores. Aconteceu comigo, com o Paulo Gonçalves e com o Hélder. Hoje em dia, não há um piloto que participe no Dakar que não tenha feito já provas de navegação e que não esteja muito bem familiarizado com o roadbook.

Conhecedor dos três “capítulos” do Dakar, o algarvio falou também das diferenças entre a prova em África, na América do Sul e na Arábia Saudita.

O Dakar em África era uma corrida solitária. A América do Sul era completamente diferente e posso dizer que as coisas evoluíram muito e evoluíram para melhorno campo da competição.”

Agora na Arábia Saudita voltou um pouco ao que era em África. Os pilotos arrancam para a etapa e não vêem qualquer pessoa ao longo da etapa.

Só que agora, se compararmos com África, temos motos de cilindrada mais baixa, pilotos muito mais técnicos que transpõem as dificuldades facilmente. Lembro-me que em África com a KTM 670 era muito fácil a moto ficar toda atascada nas dunas maiores. Hoje isso não acontece. É diferente.

Mas a prova voltou a ser semelhante ao que era em África no sentido em que, se um piloto tiver um problema mecânico, ou chega rapidamente um colega de equipa junto dele ou tem de esperar três horas pelo camião de assistência.”

É incrível hoje em dia ser possível um piloto arrancar na frente de uma etapa no Dakar e terminar essa etapa na 1.ª posição sem que alguém o ultrapasse. Estamos a falar de arrancar com três minutos de diferença para o seu perseguidor e aguentar uma etapa de 400km sem que o outro o alcance. Hoje os pilotos de topo treinam dezenas e dezenas de dias por ano com roadbook e isso faz toda a diferença.”

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(Fotos: FB Rúben Faria)