O Dakar há muito que tem no seu plantel ex-pilotos de ralis, e assim de repente, Nasser al-Attiyah, Carlos Sainz, Martin Prokop, Khalid Al Qassimi, Yazeed al Rajhi, Romain Dumas, Conrad Rautenbach são os pilotos presentes neste Dakar, mas par atrás muitos mais houve.
Nomes como Sébastien Loeb e Mikko Hirvonen foram dos últimos a rumar ao Dakar e esta edição há mais um sonante: Kris Meeke (ler em separado).

Acaba por ser natural a transição dos ralis para o todo o terreno. Independentemente do facto do todo o terreno ser muito mais do que simplesmente rapidez, é bem mais fácil a um piloto rápido adquirir a experiência necessária no todo o terreno e tornar-se num grande mestre da modalidade, do que o inverso.

Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar pilotos extremamente bem sucedidos nos ralis que também o foram no TT, nomeadamente no Dakar. Recentemente podemos dar o exemplo de Carlos Sainz, vencedor do Dakar em 2010. Mas se recuarmos um pouco mais, podemos dar como exemplo Juha Kankkunen, tetracampeão do Mundo de Ralis e vencedor do Dakar em 1988, ou ainda Ari Vatanen, nomes que dispensam qualquer tipo de apresentação. O finlandês ainda é, logo a seguir ao ‘Sr. Dakar’, Stéphane Peterhansel, o piloto com mais triunfos no evento, quatro – 1987, 1989, 1990 e 1991. Se bem que este ano pode ser igualado por Nasser al-Attiyah que soma três triunfos.

A verdade é que são cada vez mais os nomes provenientes dos ralis que se aventuram na grande maratona do Todo-o-Terreno. Os motivos são vários mas há um comumente partilhado, o desafio que a prova representa para qualquer atleta de alta competição. 2016 foi o ano mais recente em que essa ‘transição’ se fez com maior preponderância, se não pelo número, pelo menos pela relevância dos nomes estreantes.

Em comum, os quatro têm o facto de terem passado pelo WRC, com Sébastien Loeb e os seus nove títulos a dispensarem apresentações, assim como o seu arqui-rival Miko Hirvonen, que conta com quatro vice campeonatos, ou, apesar de não serem nomes tão sonantes, Martin Prokop e Xevi Pons. Nomes que, afinal, apenas se juntaram a outros que já fizeram anteriormente essa mesma transição.

Carlos Sainz e Nasser al-Attiyah são, obviamente o melhor exemplo. O espanhol, foi bicampeão do Mundo de Ralis em 1990 e 1992, Al-Attiyah, Campeão de WRC 2, pluri vencedor do Campeonato FIA de Ralis do Médio-Oriente e triplo vencedor do Dakar – 2011, 2015 e 2019. Mas há mais ex-pilotos de ralis previstos no Dakar 2016.

Por exemplo, Erik Van Loon participou no Campeonato Open de Ralis da Holanda, Federico Villagra é multicampeão de ralis argentinos e já andou pelo Mundial de Ralis, na categoria principal, Guerlain Chicherit deu os primeiros passos na Taça de França de Ralis, mas por aí se ficou.

Reedição de ‘velhos’ duelos
Durante mais de dez anos, Sébastien Loeb não teve adversários nos ralis. Simplesmente, ninguém o conseguia bater. Mikko Hirvonen ganhava-lhe pontualmente, bem como outros pilotos, mas o francês venceu 46.2% dos ralis do Mundial em que participou. Quase metade! Houve uma fase do WRC em que Loeb e Hirvonen se bateram pelas vitórias e títulos, 2009, 2011, 2012, especialmente o primeiro, em que o finlandês, se tem ganhado em Gales, era Campeão.

Portanto, esta é também uma luta que transportaram para o Dakar. Se no WRC, Nasser Al-Attiyah olhava para os seus adversários a uma distância considerável, no Dakar foi o contrário. Apesar de prestações meritórias, nenhum dos dois chegou à vitória no Dakar.

Martin Prokop enfrentou em 2016 um novo desafio na sua carreira profissional. Quase por acaso, surgiu-lhe um convite para correr no Dakar de Toyota, sendo que o checo nem pensou duas vezes. Provou, gostou, e continua por lá, cada vez a fazer melhores resultados.

Já Xevi Pons estreou-se no Dakar aos comandos de um Ford Ranger em 2016 depois duma carreira de alguns anos no WRC onde obteve vários quartos lugares, em 2005 e 2006, numa carreira em que o ponto alto foi ter sido colega de equipa de Loeb na Kronos em 2006. Foi 30º. Não voltou a terminar a prova.

Evolução da ‘espécie’
Ao fim e ao cabo esta sedução pelo Dakar acaba por ser um passo natural, especialmente para os pilotos de ralis, pois apesar de terem de mudar por completo o ‘chip’ – deixarem de ser pilotos sprint para se tornarem pilotos de endurance (e isso também tem a sua beleza) a verdade é que no passado do Dakar são muitos os exemplos. Começando pelo topo, temos o já mencionado Ari Vatanen. Apesar de tudo o que significou para os ralis, é no Dakar que chegou – e permanece – quase no topo da pirâmide.
Pierre Lartigue tem três vitórias no Dakar e algumas, poucas, e pouco expressivas passagens pelos ralis. Continuando a percorrer o palmarés, Juha Kankkunen venceu o Dakar de 1988, precisamente a meio dos seus quatro títulos do WRC. Nos tempos em que se ia do WRC ao Dakar e ‘voltava’.

Bruno Saby e Kenjiro Shinozuka são outros dois pilotos que venceram o Dakar e tiveram uma carreira nos ralis. Com algum sucesso, diga-se, já que ambos venceram no WRC. O japonês na Costa do Marfim, em 1991 (não era piloto que lutasse pela dianteira nos ralis sprint), e o francês na Córsega e em Monte Carlo, em 1986 e 1988.

De ex-pilotos de ralis que venceram o Dakar estamos conversados, mas há muitos outros que correram no Dakar e tiveram também passagens pelos ralis. Sendo a lista extensa, ficamos-nos pelos que triunfaram em etapas da grande maratona: Andrew Cowan (foi líder da equipa Mitsubishi, sendo que ele próprio correu nos ralis) Shekhar Mehta, Kenneth Eriksson, Erwin Weber, Bjorn Waldegaard, Bernard Darniche, Gregoire De Mevius, Alain Ambrosino, Jean Ragnotti, Vic Elford, Krystof Holowczyc e Timo Salonen. De todos eles se podiam contar histórias de ambos os lados da barricada, mas o espaço é pouco.

Não podíamos terminar esta abordagem dos pilotos de ralis que se converteram ao TT sem falar num dos expoentes máximos… dos ralis. Colin McRae. O escocês foi exatamente o mesmo no TT que era nos ralis. Super espetacular, participou no Dakar em 2004 e 2005, num Nissan, com a sueca Tina Thörner ao lado, vencendo quatro especiais. Num Dakar foi 20º, no outro, não terminou. Bateu forte, ficou cego durante dez minutos e foi parar ao hospital. Endurance não era com ele. Prego a fundo até partir… como sempre.