Li com atenção as palavras do nosso antigo colega do Autosport inglês, David Evans, agora no Dirtfish, sobre o que se está a passar no Mundial de Ralis e tal como ele, também acho que pode vir aí “confusão da grande”. O David começa por relembrar que estamos a três meses e meio da data prevista (janeiro 2021) para os novos Rally1 híbridos começarem a testar para se estrearem em 2022, e a sensação que temos é que, o que se está a passar agora é a perfeita antítese do que foi a estreia dos atuais World Rally Car em 2017. Já em 2015 se viam novos WRC a testar para 2017, o ano de 2016 foi quase um WRC paralelo, de testes, e quanto à nova geração de híbridos, pouco ou nada se sabe, e na verdade, pouco ou nada há para dizer. Logicamente que as equipas estão a trabalhar nos carros. Não faltava mais nada do que serem apanhadas com as “calças na mão”, mas já ficou claro para toda a gente que está tudo muito atrasado e a maior razão é a indefinição dos regulamentos.

Não temos a mais pequena dúvida que há equipas a trabalhar nos bastidores, mas não estão em unidas e a verdade é que faltam três meses e meio para o fim do ano, e neste momento existe o sério risco de mais marcas deixarem o WRC. Quer queiramos quer não esta situação de pandemia veio agravar muito toda a situação do mercado automóvel e se calhar o que uma determinada marca pensava há um ano ou dois, já não ‘sente’ o mesmo agora. O mais curioso da questão é que “nem se percebe muito bem quem é que quer e o quê”.
Quando se começou a falar dos híbridos, havia quatro construtores, e todos eles queriam as novas regras em 2022. Havia algumas posições distintas mas o caminho era evidente e semelhante para todos. Tal como diz o David Evans na sua peça, a Citroën sairia se não se seguissem os híbridos no WRC.

Agora, o Dirtfish diz que a Hyundai pode estar perto de fechar a torneira. A Ford está mal na Europa, e para a M-Sport o dinheiro tem de vir dos EUA. A Toyota tem híbridos na sua gama, como diz o David Evans “ainda o Kalle Rovanpera não tinha nascido”, portanto, não está extasiada com o que de bom o WRC lhe pode trazer para o seu negócio.
E depois há o problema dos custos. Mesmo que a FIA e os construtores tenham trabalhado bem esta questão e a diminuição seja efetiva, sinceramente concordo em absoluto com o David Evans quando este diz que duvida que com chassis tubulares e sistemas híbridos os carros (Rally1) sejam mais baratos.
Carros de ralis a custar um milhão de euros, fora tudo o resto, é demasiado. Por isso, é bom que as coisas sejam definidas rapidamente, ou o risco de ver marcas saltar fora é real.

Seja como for há uma solução. Os ‘puristas’ e os ‘velhos’ como eu já passaram por ela e não foi por isso que o Mundial de Ralis morreu.
Largar o World Rally Car e os Rally1 passarem a ser R5 híbridos e mais ‘espevitados’. Agarrar nos carros que existem e que têm mais do dobro dos construtores do WRC. O WRC já foi assim, com o Grupo A, a partir de 1987, e depois cresceu, cresceu, e quando fez sentido, passou a World Rally Cars.

Se num período que se espera ser complicado em termos económicos se tiver que fazer uma ‘transição’ com os R5 Plus, que seja. Antes isso do que ver uma equipa sozinha no WRC. Não faria sentido nenhum. Duas, ainda vá, e mesmo assim…
É óbvio que só estou a “avisar as tropas”, tudo pode ainda normalizar, vamos esperar que assim seja, mas é bom que se resolva depressa ou se pense em alternativas. O WRC está a ficar demasiado para trás para o meu gosto face a outras disciplinas fortes do mundo motorizado.

A F1 é o que é, tem lá a Ferrari, não chega mas ajuda muito. O WEC vai para uma nova e prometedora era. O WRX está a fazer a transição para elétricos, a Fórmula E tem lá, atente-se bem: Audi, Mercedes, DS, Porsche, Jaguar, Nissan, BMW, NIO, Mahindra. O WTCR tem problemas mas tem lá a Hyundai, Renault (semi oficial), Honda, Lynk & Co, Audi, CUPRA e Alfa Romeo. Não são ‘fábrica’, mas quase.
O WRC está numa encruzilhada. Resolvam-na porque é a disciplina que tem mais adeptos a seguir à F1 e ao MotoGP.