A primeira vez que um piloto de MotoGP arranca da pole e lidera um prova, o choque é tal para o sistema que, muitas vezes, acaba mal

“o maior adversário que Oliveira terá em pista vai ser ele próprio”

Miguel Oliveira dominou praticamente os treinos desde que a caravana de MotoGP chegou a Portimão, entre exclamações de admiração e elogios rasgados ao traçado do AIA.

O português da KTM Tech3 liderou a primeira sessão livre, grande parte da segunda, em que depois acabou por ver o seu tempo batido devido a uma estratégia deliberada de conservar o pneu para o dia seguinte, e depois entregou mais uma vez, liderando o terceiro treino livre bastante tempo para acabar em segundo e estando de novo em evidência no Treino Livre 4 que liderou até segundos do final.

Tendo assim passado diretamente à Qualificação 2, voltou várias vezes ao topo da tabela à medida que os seus adversários iam melhorando o seu tempo para acabar na pole, mais uma estreia para o português que já as tinha todas:

Primeiro homem a tempo inteiro no Mundial, primeiro piloto a marcar pontos e a vencer corridas, em Moto3 e Moto2, com vice campeonatos em ambas as classes subalternas à classe rainha.

Este ano, Miguel Oliveira já tinha elevado a fasquia ao vencer na Estíria, dando à KTM apenas a sua segunda vitória em MotoGP e à sua equipa Tech3 uma vitória que aguardavam há 20 anos, depois de terem contado nas suas fileiras alguns dos mais credenciados pilotos mundiais como Stoner, Andrea Dovizioso, Cal Crutchlow ou Johann Zarco e nenhum deles venceu.

E agora Miguel está, como diriam os italianos, na boca do Lobo, à beira de um ponto decisivo e de grandes decisões, daquelas com que carreiras se fazem ou se quebram…

Esta tarde, quando as celebrações do pódio estiverem a decorrer, haverá várias centenas de milhares de portugueses muito, muito, contentes ou muito, muito, cabisbaixos.

Não vemos Miguel Oliveira a acabar num daqueles lugares sofridos, depois de lutar pelo pódio, como tem feito nas últimos corridas em que arranca da terceira ou quarta fila da grelha, até porque tem pouco a perder. Vai vencer, ou cair a tentar.

Aqui, porém, entra um banho de realidade. Oxalá estejamos enganados, mas para a derradeira corrida de MotoGP de 2020, para a estreia de Portimão no mundial de velocidade,  Miguel Oliveira vai enfrentar um dos maiores desafios da sua vida, o de fazer aquilo que fez em uma ou duas voltas na qualificação ao longo das 27 voltas da prova.

Em Portimão, um traçado em que a ultrapassagem é difícil, ele tem os seus adversários principais batidos, senão, vejamos: Viñales, eterno rival e já vencedor este ano, ficou a 0,040 no TL1.

Zarco, que já vimos foi capaz de fazer poles este ano, ontem partiu o motor da sua Ducati número 1 e não sabemos como estará a número 2.

Jack Miller tem liderado múltiplas sessões de treinos, por vezes envergonhando a equipa de fábrica com as suas prestações, e após bater Oliveira no TL3 por 0,125, também ele foi batido por 0,146 pelo tempo da pole do português.

O crono também deixou Morbidelli, fresco de duas vitórias em 3 corridas e uma Pole na última, e que tem a medida da pista de Portimão, ao contrário do seu colega Quartararo, a 0,044, bem como o homem da Suzuki Rins, neste momento a sonhar com vitória depois do seu colega Mir ter assegurado o mundial prematuramente em Valência.

Não, o maior adversário que Miguel terá em pista vai ser ele próprio e vamos arriscar dizer que o veremos no lugar mais alto do pódio ou não acabará de todo a corrida.

Há antecedentes muito fortes para tal. Há um ponto em que um piloto em melhoria descobre como andar nos lugares rarefeitos nos primeiros três e não é assim tão fácil:

Perguntem a Nakagami, que fez a sua primeira pole em Aragón só para cair logo à primeira volta. Perguntem a Fábio Quartararo que o ano passado averbou seis poles, só para cair ingloriamente do comando várias vezes e nunca vencer até este ano.

Perguntem a Alex Márquez, que depois de dois pódios consecutivos eM Le Mans e Aragón, viu mais dois resultados brilhantes escapar-lhe das mãos.

Seja por aquilo que chamaremos o fator Zarco (ser abalroado por outro), ou o fator Nakagami (ser esmagado pela pressão de liderar pela primeira vez o campo de Moto GP) receamos que o Miguel nem sequer passe da primeira fase da corrida, lembrando sempre que, na sua vitória na Estíria, o português não liderou uma única volta, apenas capitalizou num erro dos seus adversários na última curva: estava no sítio certo, no momento certo.

De facto, ao fazê-lo tornou-se o único piloto na história recente a vencer vindo da terceira posição, mias um .

Hoje à tarde, a encomenda é mais exigente. O luso da KTM vai sair à frente e querer ficar lá… só terá a si próprio para se medir, e a gestão dos pneus decerto verá adversários com motos que perdoam mais nesse capítulo atacar na fase final…

Miguel, carregas as esperanças de sabe-se lá quantos fãs em todo o mundo… cabeça fria e aquele abraço!