E pronto! Concretizou-se o regresso do Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1, passados 24 anos depois da última corrida realizada no Circuito do Estoril em 1996. Agora, é hora para fazer o rescaldo e falar do que é para repetir e corrigir, assim que houver nova oportunidade.

Segundo rezam as crónicas, em termos desportivos quase nada correu mal com a realização do Grande Prémio de Portugal.
Para um clube sem experiência o o AIA Motor Clube – mas com pessoas incansáveis e com a ajuda de pesos pesados das corridas mundiais, por exemplo Eduardo Freitas, que é das pessoas mais competentes e reconhecidas pela FIA, a parte desportiva em nada deve ao que acontece nos restantes Grandes Prémios. E a corrida foi bastante interessante, com muitas lutas relevante lá pelo meio, pois sendo verdade que para o adeptos menos ‘hardcore’ nesta ‘coisa’ da F1, “foi mais uma vitória do Hamilton”, a verdade é que houve imensos motivos de interesse, especialmente na luta entre a McLaren, Racing e Renault, a melhoria da Ferrari, Pierre Gasly a confirmar porque venceu em Monza, Kimi Raikkonen a mostrar como se faz, o AIA mostrou-se dos circuitos mais dificeís para a gestão de pneus por parte dos pilotos, etc. É verdade, o que fica para a história é a 92ª vitória de Lewis Hamilton na Fórmula 1, o novo recorde na modalidade.
Mas o fim de semana do AIA foi muito mais do que isso. Outro exemplo? O que os pilotos disseram da pista. Gasly disse que “nunca senti nada assim num F1…” Era precisamente isto que queríamos ouvir, e Sebastian Vettel deixou clara a mensagem: “Esta é provavelmente a prova de que temos muitas pistas que são excitantes, só precisamos de escolher as certas para ter no calendário”!

Alguns problemas
Mas houve situações que correram mal, todas elas ligadas ao público presente no AIA. Em primeiro lugar, devido ao facto do distanciamento social não ter ser efetivo em muitas zonas de diversas bancadas, e por outro lado, nos acessos ao AIA, quer à chegada e à saída. Especialmente neste aspeto o número de queixas nas redes sociais é tão grande, que não é possível tratarem-se de casos mais ou menos isolados: há mesmo que olhar para o que se passou a fazer melhor na próxima.

Segundo revelou Paulo Pinheiro, CEO do AIA, Pilotos, equipas e FIA todos elogiaram a prova, admitindo no entanto que a questão do público não correu tão bem, atribuindo a esse facto ter-se tratado do primeiro grande evento do estilo em Portugal nestes tempos de pandemia.

É preciso notar que olhando para a questão de organização como um todo, o AIA tinha de se preocupar com a parte diretamente respeitante à F1/FIA, e também às autoridades de saúde lusas, DGS. Na primeira, como já referimos, não houve notícias de grande ‘crises’, que que aconteceu com o atraso da qualificação deveu-se a uma situação, como divulgou Michael Masi, Diretor de Corrida da F1, “nunca antes vista” (o cimento cedeu por baixo da tampa de dreno). Por fim, “No final Jean Todt [presidente da FIA] deu-me os parabéns e disse-me que tinha sido um evento fantástico, uma corrida fantástica”, disse Paulo Pinheiro ao Expresso.

DGS não ficou contente
Foi extraordinário ver tanta gente nas bancadas do AIA, e só podemos imaginar o que teria sido a realização de um GP de Portugal ‘normal’, sem ser em termos de pandemia, com a lotação máxima do circuito, cerca de 90.000 lugares. Teria sido fantástico. Mas as diretrizes da Direção Geral de Saúde obrigaram à redução da lotação, para 27.500 pessoas, e a anulação das bancadas de Peão (zona entre as bancadas Portimão e Sagres). Essa pessoas foram ‘enviadas’ em lotes de 400 para as restantes bancadas (as que pagaram um valor adicional, as que não quiseram, foi/será devolvido o dinheiro do bilhete).

E foi aqui que algo não terá corrido tão bem, porque como o AutoSport comprovou in loco: “Na bancada Portimão, ainda consegui ter alguma distância, com uma fila de intervalo acima e abaixo de mim, e duas cadeiras de intervalo para as pessoas ao lado. Quanto a máscaras, novamente, todos à minha volta estiveram com ela posta o dia inteiro. A única coisa a apontar é a situação de ter de sair, para ir à casa de banho ou até à comida, e chegar ao meu lugar (marcado, como foi para todos) e ter alguém lá sentado”.

Ou seja, foi necessário maior vigilância dos ‘Marshalls’ e Polícia para que as diretrizes se cumprissem, mas se a questão de algumas fotos que foram divulgadas, eram enganadoras, devido a perspetiva da imagem, a verdade é que há muitas outras, especialmente da corrida, que mostram pouco (ou nenhum) distanciamento social. “Estive nas bancadas no sábado e estava um absurdo, domingo até parecia pior, não havia qualquer tipo de distanciamento”, disse um dos voluntários que esteve a trabalhar no AIA, que não se quis identificar, ao Expresso.

Mesmo com o reforço da fiscalização que a organização e GNR prometeram para domingo, foi claro que houve mau comportamento de parte do público pois parece-nos que as pessoas não deviam precisar que alguém lhes dissesse que não podem estar muito juntas, têm que manter distância. Será preciso pedir por favor às pessoas para se protegerem e protegerem os seus ou preferem (como foi demasiadas vezes o caso) marimbar-se para o assunto?

Com isto tudo, a DGS diz que aprendeu com a Fórmula 1. Graça Freitas, Diretora Geral de Saúde disse que houve diferenças substanciais entre o que foi recomendado e o que realmente aconteceu, tendo daí tirado lições para o futuro. E o que isto significa: a DGS vai apertar o o laço, e “quem se lixa” pode ser o MotoGP: “Aprendemos que se quisermos ter mais controlo sobre os imponderáveis teremos de ter menos gente nos eventos”, disse Graça Freitas na conferência de imprensa, assegurando que a culpa é tripartida: público, organização e Direção-Geral da Saúde.

Logicamente, houve vozes muito críticas perante o que sucedeu. Por exemplo a Delegada Regional de Saúde do Algarve, Ana Cristina Guerreiro, que à A Bola revelou uma coisa grave e inexplicável: “Quando se chegou aos 27.500 espetadores foram fechadas as portas. Algumas pessoas, não muitas, ficaram lá fora e estava a gerar-se algum conflito, pois tinham bilhete. Foi então decidido pelas autoridades de saúde que deixassem entrar esse grupo. Em relação ao distanciamento, houve situações complicadas porque as pessoas mudaram de lugar, aproximaram-se da zona superior das bancadas e é difícil controlar para não estar sempre a haver confronto. Foi sugerido, os vigilantes insistiram, mas não houve uma medida de força. Eram várias bancadas e seria muito complicado”.

Conclusão. A DGS foi otimista ao permitir 27.500 pessoas. No ‘papel’ poderia parecer bem, cerca de um terço da lotação, mas na prática, não resultou pois não houve margem de segurança.

Até o Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, em declarações à SIC Notícias foi muito crítico: “Quando a DGS define que um determinado evento é importante para o País e que que pode ter 27.500 espetadores, tem de ter capacidade para que as regras sejam fiscalizadas. Isto é um insulto aos profissionais de saúde e a quem não pode sequer ir aos cemitérios honrar os que já morreram. Não podemos ter dois pesos e duas medidas. Se calhar estes mega eventos não deviam ser autorizados”, disse.

Culpas a meias?
A questão da saúde pública é um fator importante, tendo em conta o que sucedeu no GP de Portugal, mas há outro dado que esteve longe de correr bem: os acessos ao AIA. Aqui, é muito difícil de atribuir culpas, pois a verdade é que é totalmente impossível conhecer cada caso.

O que sabemos, é que o AIA tinha planos de transporte e parqueamento publicados onde revelou que os espetadores tinham duas formas de chegar ao circuito. Através dos shuttles, a partir das 7h00 dos dias do evento de Portimão e Lagos ou através de viatura própria estacionando nos parques disponibilizados à volta do recinto. Aqui há um dado importante e muito honestamente penso que o problema começou aqui.

Quem estava ‘designado’ para os parques de cor verde teria de sair da A22 na saída #3, exclusivo das bancadas Verdes (Bancada Oeste, Principal, Sul, Solverde e Sagres). Cor amarela, via poente de acesso com saída #2 na A22 bancadas amarelas (Bancada Norte e Lagos). Cor vermelha: saída nº5 na A22, e percurso designado para as bancadas vermelhas (Bancada Portimão, Portimão 2 e Peão e Lagos). Por fim, Cor azul, saída #3 na A22 entrada pelo acesso principal ao AIA. Será que toda a gente cumpriu isto? Algo não correu bem, e confessamos que não é fácil perceber quem colocou a maior pressão. Os exemplos que se poderia dar são muitos, mas há dois que para nós são estranhos, pelas histórias diferentes que contam. Num deles, um nosso leitor diz assim:

“Estou habituado a assistir a eventos com mais público daquele que foi oficialmente anunciado: festivais de música/concertos, jogos de futebol, etc., e nunca se viu tamanho caos. Demorar mais de 3h30 para fazer cerca de 10 km para chegar ao parque pago? E demorar outro tanto para sair? Eu ainda consegui entrar no autódromo antes das 13h10… mas houve centenas de pessoas, que estavam na mesma fila de trânsito que eu, que não tiveram a mesma sorte e não puderam assistir ao início do GP para o qual pagaram um preço bem interessante”.

Pelas contas que fazemos o nosso leitor terá saído da A22 no máximo pelas 9h30, chegou a tempo (13h10), mas pouco, segundo entendemos. Um colega nosso foi ver o Grande Prémio para a bancada Portimão e saiu da A22 às 9h15, chegou ao estacionamento às 10h05 e à bancada 20 minutos mais tarde. Tudo somado, às 10h30 estava sentado no seu lugar. 2h40 minutos antes da corrida. O que pode justificar estas discrepâncias?

A GNR diz que “Como é habitual em grandes eventos, pedimos às pessoas que se deslocassem para o local com antecedência, mas isso não aconteceu e, a partir das 12h00, começaram a surgir as filas”. Já percebemos que as filas se fizeram muito antes disso, mas é difícil perceber como alguém que sai da A22 às 9h30 tem dificuldades em chegar a tempo à corrida. Pensamos que o processo de chegar às rotundas junto do autódromo e rumar ao respetivo estacionamento podia ter sido melhor divulgado.
O AIA divulgou-o no seu site, nós publicámos tudo no site e no jornal AutoSport, mas não o vimos publicado em mais lado nenhum (o que não quer dizer que não o tenha sido, simplesmente não vimos). Houve coisas que não correram bem, sem dúvida, mas tanto a questão do trânsito, quanto das aglomerações nas bancadas pensamos que as culpas se devem dividir, porque tal como o nosso colega que esteve na bancada Portimão escreveu: “no local onde me situava, consegui ter alguma distância, com uma fila de intervalo acima e abaixo de mim, e duas cadeiras de intervalo para as pessoas ao lado. Quanto a máscaras, novamente, todos à minha volta estiveram com ela posta o dia inteiro. A única coisa a apontar é a situação de ter de sair, para ir à casa de banho ou até à comida, e chegar ao meu lugar (marcado, como foi para todos) e ter alguém lá sentado”. Provavelmente era preciso mais gente para controlar, mas quando as pessoas mudam de lugar “só porque sim”, porque noutro lado se vê melhor, há pouco que se possa fazer.

Quanto aos acessos, como já dissemos é quase caso a caso, pois se o nosso colega demora pouco mais de uma hora para chegar à bancada, porque é que outro demora “3h30 para fazer cerca de 10 km para chegar ao parque pago”. Há aqui algo que não “bate a bota com a perdigota”.

O importante é que vem aí o MotoGP, e o que não tiver corrido tão bem, é bom que seja, até porque essa festa pode terminar com vitória portuguesa…